terça-feira, 26 de abril de 2011

Serenata do Abismo

Ele percorreu a cidade, tocando as cordas da solidão com as pontas dos dedos e cantando a saudade como se cumprimentasse uma velha companheira de aventuras.
Envolvia-o a doçura de chegar ao fim. Ao fim de um caminho que não era curto ou longo, bom ou mau, mas apenas um caminho que percorrera, rumo ao abismo onde todas as dores findam e todos os amores se tornam eternos.
Ouvira muitas histórias e muitas canções mas nenhuma assim. Nenhuma que tivesse o mar, o vento e o restolhar das folhas outonais como instrumento e a voz dos Deuses como melodia eterna, entoada por um silêncio cantado e vivo.
Abençoou, nesse momento, os que lhe tinham provocado as feridas da alma pois sentiu-as sarar. Perdoou os que o tinham feito chorar, pois devia-lhes todos os sabores da humanidade. Agradeceu a todos aqueles com os quais se tinha cruzado pelos sorrisos, pelos momentos, pelas certezas incertas de um "até amanhã" de rotina.
Percorreu a cidade, à luz pálida e cortada do luar nascente. E continuou a tocar as cordas de solidão, a par com todos os sons da natureza. Os Deuses sorriam. Um sorriso quente, naquela noite fria. Um sorriso verdadeiro naquela Era forjada de mentiras e dor.
E o fim chegou, tocando-lhe o rosto com a mesma doçura com a qual uma mãe afaga pela primeira vez a face do filho, envolvendo-o na protecção de não ter de sofrer nunca mais. E a solidão parou de tocar. A música era apenas a do bater cada vez mais fraco de um coração moribundo. E era bela. Completa. Única. Talvez, quem sabe, perfeita.
Depois, o sossego de uma orquestra de sensações e a voz da memória a cantar baixinho. Morrer era apenas acordar para outra vida. Uma que talvez fosse mais plena. Uma onde talvez aprendesse a ser feliz. Uma onde talvez viesse a tocar as cordas de um amor que não fosse construído na saudade mas antes numa paixão maior do que o tempo.
Ele percorreu a cidade, rumo ao abismo. Tocou, em serenata, a última nota do seu amor mais puro e, sem que ninguém o soubesse, foi finalmente feliz...

Marina Ferraz

*imagem retirada da Internet

1 comentário:

Maria disse...

Como sempre um texto tão poético numa linguagem simples -

Há afectos difíceis de serem libertados para se voltar a ser feliz que mais não seja consigo próprio -Esta foi a mensagem captada deste seu texto -Maria