quarta-feira, 1 de junho de 2011

No teu son(h)o

Fica quieto. Vou deitar-me na tua cama e ficar acordada a ver-te dormir. Quero imaginar as paragens e as gentes que te povoam os sonhos. Imaginar se são pessoas como eu, se são diferentes de mim, se pensas que alguém pode ser igual a mim. Se sabes que existo...
Quero ver o teu sorriso ligeiro, ouvir o teu respirar pesado e ausente, contar às estrelas que te descrevo em quatro letras. E, se as estrelas responderem, invejosas, vou dizer-lhes com a maior altivez que não te podem ter. Não podem porque eu não posso. Porque ninguém pode. És demasiado especial para seres de alguém...
Podes dormir. Vou afastar-te o cabelo dos olhos e acarinhar-te o rosto, enquanto sossegas. E vou pedir à lua que cale a serenata tonta com a qual me conquistou, para poderes dormir em silêncio.
E, então, o sol vai começar a nascer e as minhas asas negras vão abrir, em aviso, porque eu pertenço à noite. E vou deixar uma lágrima cair na almofada, antes de voar, por entre as sombras, rumo a um lugar perdido, enquanto espero que anoiteça novamente.
Somos de mundos diferentes. Toda a gente é. Ainda assim, nesse lugar perdido entre sombras e luar, vou imaginar que acordas e me vês a sair pela janela dos teus sonhos, a tempo de selares a minha noite com o beijo do teu dia. E vou adormecer para o sol, sorrindo, sem saber como posso ser eu a fada e seres tu, mero humano, um imortal. Um imortal que viverá para sempre nos dias das minhas noites, enquanto houver dias e noites, enquanto as minhas asas negras sobrevoarem esse mundo que nem sabes que existe.


Marina Ferraz
*imagem retirada da Internet

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