sábado, 1 de outubro de 2011

Todos os motivos do Mundo

Ao meu avô


Todos os motivos do Mundo. Tenho todos os motivos do Mundo para dizer que sinto a tua falta. Não hoje, mas a cada dia. Tenho todos os motivos do Mundo para não calar a voz dos meus sentidos no que te diz respeito. Tenho todos os motivos do Mundo para admitir que és em mim uma cicatriz viva, que estará sempre marcada, lembrando um longo rumo onde, durante tanto tempo, fui abençoada por te ter por perto.
Tenho todos os motivos do Mundo para abrir a janela e falar contigo como se fosses uma estrela. Todos os motivos do universo para acreditar que me ouves e me afagas o rosto com a mão do vento, enquanto me desejas - como sempre - apenas o melhor que a vida tem para oferecer.
O que dizemos tem sempre consequências. Uma interpretação errada aqui, um momento de crítica ali, dois segundos ou uma vida de comentários. Mas eu tenho todos os motivos do Mundo para dizer que nada irá, jamais, suprimir a falta que me fazes. E tenho todos os motivos para não ter medo de o gritar.
Imagino-te no vento, feito de ar e sabedoria, com esse sorriso cansado e maravilhoso com o qual me enchias os dias. Imagino-te no mar, pedaço intempestivo e lutador dos tempos, herói de batalhas por contar. Imagino-te na terra que calco, apoio incessante de todos os meus passos. Imagino-te com a vida eterna de todas as eternidades - as que existem, as que não existem, as que invento apenas para te sentir por perto.
Tenho todos os motivos do Mundo para não dizer adeus. "Adeus" é a palavra chave de um sem fim de mágoas que não quero cultivar. Sinto saudades, apenas, neste "até já" mortal que me faz sentir a paz de saber que, um dia, nos vamos encontrar, dar as mãos, partir juntos numa jornada onde possamos sentir a presença um do outro a tempo inteiro.
Todos os motivos do Mundo. Tenho todos os motivos do Mundo para te amar. Tenho todos os motivos do Mundo para admitir que ainda sinto a tua falta. Tenho todos os motivos do Mundo para gritar que sim, que ainda te falo à noite, como se fosses um anjo e velasses por mim. Porque, tu sabes, sempre velaste por mim e, aos meus olhos, primeiro de criança, depois de rapariga, foste sempre um anjo. Um anjo a acreditar, a lutar, a viver e a sonhar apenas para que os meus dias pudessem viver na linha intermitente que demarca o que é real e o que é fantasia, na corda bamba de um lugar onde ainda é possível seguir uma vida melhor e mais pura.
Tenho todos os motivos do Mundo e vou ter sempre todos os motivos do Mundo. Porque há pessoas que se imprimem na nossa pele e que nos marcam a vida. Porque há sorrisos que tornam os momentos eternos. Porque há pessoas que falam pelas estrelas e nos acarinham no vento muito antes de partirem e deixarem só esta magia saudosa de se amar alguém.
Por isso, não: não tenho medo. Tenho todos os motivos do Mundo para não ter medo. Tenho todos os motivos do Mundo para acreditar que estás aí, com as tuas asas de ar e o teu sorriso de água, a proteger os meus passos. Tenho todos os motivos do Mundo para saber que estarás sempre presente, mesmo que mais ninguém o saiba... mesmo que mais ninguém o veja.

Marina Ferraz
*imagem retirada da Internet

2 comentários:

Anónimo disse...

"Todos os motivos do Mundo"

É simplismente incrível, incrível cada palavra. Parabéns!

Anónimo disse...

incrivel...amooo