quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Noites à lareira


Às vezes a vida é como uma noite à lareira. Quente na proximidade dos medos e das dores. Mas quente, ainda assim, mesmo por entre as coisas frias que nos arrefecem a alma.
Acho que a coisa mais hipnotizante no fogo é dança entre o perigo e a paixão. Como se o medo de nos queimarmos nas fagulhas esvoaçantes fosse apenas superado pela vontade inevitável de estender a mão e deixar a chama tocar os dedos, com uma suavidade ténue.
Claro: tocar o fogo seria um erro. Mas quantas vezes na vida não erramos nessa busca incessante por tocar algo que nos cativou o olhar e nos manteve quentes pela noite fora?
Às vezes a vida é exactamente como uma noite junto ao fogo. E há tantas coisas que se podem ver no avermelhado de uma chama. Há tantas palavras que se podem dizer, despidas de sentido e de sensatez.
Mas no fim, é basicamente simples a compreensão das coisas. Não há nada que se possa pedir ao tempo. Não podemos pedir à lenha que consuma mais devagar, nem à chama que siga uma coreografia planeada, simplesmente porque a preferiríamos assim. E há uma beleza suave nesse desprendimento porque sabemos que não podemos controlar o fogo, da mesma forma que sabemos que a vida, essa menina insensata, não seguirá todos os caminhos do nossos sonhos.
E daí? Talvez a beleza da vida esteja justamente nessa imprevisibilidade. Talvez todos dancemos pela vida uma dança sem sentido, como se fossemos chama e a lenha durasse indefinidamente, como se o vento pudesse soprar e atiçar-nos ou apagar-nos.
Sim! Eu acho que é justamente isso. Sem complicações de outros tamanhos. Somos todos um pouco como o fogo: quentes e perigosos, feitos de paixão, feitos de medos, feitos de efemeridades eternas. Vivemos todos uma vida que pode ser reduzida à explicação insensata de uma noite à lareira.
E, por entre estradas mais frias e mais cortantes, é bom pensar que todos nós somos chama. Porque isso significa que, algures na jornada da vida, nos bastamos. E que, algures, de alguma forma, enquanto nos bastamos, precisamos da lenha e ar para subsistir. A lenha das nossas amizades e dos nossos amores, a lenha das coisas que nos arrancam um sorriso, a lenha dos lugares que nos apaziguam a alma, a lenha das memórias pelas quais vale a pena ser chama. E o ar, esse é somente para nos lembrar que o nosso tempo se consome... e que devemos respirar fundo de volta em vez, apenas para apreciar todas as maravilhas com as quais fomos abençoados.
Sim! Para mim a vida é como uma noite à lareira. E, à minha maneira de água, terra e ar, eu também sou fogo. Podem adorar-me ou ter medo de mim ou achar que eu não sirvo para nada. Seja como for, deixem-me brilhar, deixem-me dançar essa valsa de descompasso, que não faz sentido nenhum porque não tem coreografia. Deixem-me arder pela minha vida fora e consumir a minha lenha, aos pouquinhos, saboreando cada pedaço. Quando, por fim, tudo for cinza e eu for pó, quando já não houver calor em mim... a única coisa que vai importar é que tenha valido a pena! E talvez isso não seja nada simples... mas é possível. É possível e eu acredito. Talvez por isso, de alguma forma, perante uma (ir)realidade roubada aos contos de fadas, eu seja uma chama que jamais se vai apagar...


Marina Ferraz
*imagem retirada da Internet

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