quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Voos d' alma


Os pássaros voaram, meu amor. Abriram as asas, rebentaram com os ferros da gaiola. Fugiram por entre os dedos da imensidão do mundo. Desapareceram na distância.
Abriram asas. Partiram. Cada um deles com o nome da liberdade e o espírito solto, oco de amores e desamores, oco de sentimentos vãos.
Os pássaros voaram. Porque tinham asas e o céu chamou. Porque não tinham compromissos nem planos para amanhã. Perderam-se nas copas da árvores, pousaram em cabos de aço, seguiram rumo ao horizonte.
A eternidade que os esperava a cada momento era tão real como a ânsia pelo destino indeterminado. Talvez nem eles soubessem onde ir. Talvez não se importem. Talvez, para eles, abrir asas e voar, rumo à dúvida da distância seja o bastante.
Os pássaros voaram. Sim! Voaram. Fugiram por entre as memórias que não tinham. Por entre as grilhetas que não os prendiam ao chão. Os pássaros desafiaram a gravidade e a emoção. Foram embora.
E eu? Não tenho eu também as asas abertas? Não tenho eu também o céu? Não tenho eu também a distância incerta ou o horizonte inalcançável? Não tenho eu os sonhos? Não tenho eu o amor à liberdade?
Os pássaros voaram, meu amor. Abriram asas, num encolher de ombros de alma. Mas eu importo-me. Importo-me de voar. Importo-me de tirar os pés do chão terroso da minha esperança. E as asas abertas não ousam voar. Estão abertas de sonhos. Abertas da certeza de que, para alguns pássaros de alma negra, estar livre é ter a liberdade de escolher não fugir.
Não vou fugir. Não vou voar. Não vou iludir-me com a noção incerta dessa terra prometida que fica além dos céus. Mas os pássaros voaram e anoitece. Lá do alto talvez ainda se veja o sol. Aqui, a noite é a companheira de voos mais baixos. Tenho saudades do sol!
Os pássaros voaram e as minhas asas bateram, apenas para afastar a poeira que adensou nelas, de tanto as abrir. Os pássaros voaram e eu fiquei, presa aos voos altos das minhas emoções e dos meus sentimentos.
Sorrio. O chão da minha esperança sabe ser doce. O chão da minha esperança sabe ser céu. As minhas grilhetas sabem ser liberdade. Sorrio e abro as asas. E elas ocupam a imensidão do meu mundo. Porque o meu mundo tem o tamanho dos meus sonhos e os meus sonhos são maiores do que o céu, maiores do que a distância, maiores do que o que fica além do horizonte.
Sorrio e fico aqui. Bem aqui, onde poderei sempre ser encontrada, pisando a esperança e abrindo as asas. Os pássaros voaram. Que voem eternamente por um segundo. A minha eternidade durará o tempo da minha alma. E a minha alma é um pássaro livre de anseios, que apenas segue os instintos de um coração demente.
Sossega. Está tudo bem... Os pássaros voaram mas eu ainda estou aqui!


Marina Ferraz

*imagem retirada da Internet

2 comentários:

Anónimo disse...

Me emocionou. Tenho uma sensação estranha ao ler ser textos... São ótimos.
L.P

claumidt disse...

lindo mais uma vez me emociono com a profundidade do texto e me faz viajar...meus parabéns.