domingo, 8 de janeiro de 2012

Amor a meias doses


O amor. Essa forma de expressão onde a banalidade adensou as formas verbais e lhes roubou o sentido. O amor. Deixem-me rir. O amor.
Vou sentar-me na mesa do café. Pedir meio cinzeiro, fumar meio cigarro, olhar para meia ementa e pedir meia dose de qualquer coisa. Vou comer somente metade. Só porque sim. Porque é moda. Porque as coisas inteiras implicam que me dedique a elas, que gaste tempo com elas, que me preocupe com elas.
É isso que sinto hoje em dia. Que as pessoas se sentam nas mesas de café dos seus corações e pedem meia dose de amor. Que as pessoas não amam o suficiente. Que são cada vez mais os que se contentam com o jeitinho sentimental. Que as pessoas estão sempre à espera do "para sempre" seguinte, que não será eternidade alguma, só para não enfrentarem sozinhas as realidades duras de uma solidão insensata.
O amor não é uma conta dividida por dois. O amor é um compromisso de alma. Então, porque é que se dividem as contas e não se comprometem as almas, quando se fala de amor?
Talvez à luz de holofotes de realismo eu soe uma criança a quem roubaram o "e viveram felizes para sempre". Talvez ao som das batidas da injustiça da vida eu soe a uma crente obstinada de contos de fadas. Mas eu gosto do que pareço e gosto das coisas em que acredito. Porque, sejamos honestos: a vida já não tem demasiadas contrariedades por si só? Então porque temos de matar também o que lhe resta de importante e fundamentalmente bom?
O amor. Essa forma de expressão que devia ser definida como a imensidão do Universo ou não ser definida de todo. O amor. Esse amor louco e completo, de acelerar o coração e de espicaçar a alma. O amor que nos rasga os sorrisos nos rostos, mesmo nos maus momentos. O amor que fica à distância de um gesto ou de uma palavra ou tão simplesmente de um olhar. O amor eterno e descontente, que quer sempre o horizonte e os reinos de fantasia e as possibilidades dos mundos.
Não! Eu não quero meia dose de amor. Quero a loucura e a incoerência. Quero o riso e as lágrimas. E aceito como irmãs a solidão e a saudade que geralmente saltam para a vida de quem escolhe viver o amor na sua plenitude. Não tenho medo da dor. Tenho medo de viver e não amar o suficiente.
Por isso, os outros, se é o que querem, que se sentem nas esplanadas sujas dos corações que dizem que têm e peçam meia dose de vida. Eu quero a vida completa. Eu quero mais do que a estadia e mais do que a passagem. Quero a felicidade. Quero a infelicidade. Quero tudo!
No fundo, se olharmos bem, não foi a expressão amor que se tornou banal. Foram os corações das pessoas que se tornaram fúteis. Não foi a sociedade a corromper um sentimento. Foi o medo a ganhar uma batalha contra as possibilidades. E também não foi a realidade a roubar a crença no amor... foram as pessoas a decidir que crescer era o mesmo que escolher não acreditar em nada.
Eu não quero o amor a meias doses. Quero a dose inteira. Quero a vivência completa. Quero receber a dor com o sorriso de quem sabe que viveu ao máximo.
O amor? Ah, o amor... eis algo que quero ter em mim até ao dia em que fechar os olhos de vez!

Marina Ferraz

*imagem retirada da Internet

2 comentários:

Tânia disse...

Não podia concordar mais. Gosto do que é inteiro, correcto, verdadeiro principalmente quando falamos num sentimento tão importante como o amor.

Expressividade disse...

Texto muito bem escrito, pleno de acusações ao "meio-amor" ou seja o "meio-afecto", o "meio-sentimento", a "meia-entrega", metades das interacções humanas que se praticam hoje entre amantes ou amigos. Na realidade, o egocentrismo e a sensação de pseudo "auto-suficiência" e sentimento de "pseudo-capacidade" de realizações autónomas, conduziram a um dos maiores males do homem contemporâneo: o individualismo! "ou aceitas 1/16 avos de mim, e eu fico contigo, exigindo de ti a totalidade da entrega. Se não aceitas 1/16 avos de mim, então parto e hei-de encontrar alguém que se contente com essa porção de mim"! Desta posição, em que as relações afectivas só são possíveis quando fraccionadas, deriva toda a problemática da sociedade dita pós-moderna, com implicações no mundo conjugal, parental, social e profissional! É um flagelo do Séc.XXI