domingo, 15 de janeiro de 2012

Arco-íris, luas cheias e contos de fadas



Arco-íris, luas cheias e contos de fadas. Toda a gente precisa de uma razão. E estas são as minhas: arco-íris, luas cheias e contos de fadas!
Há uma dimensão da vida que é somente feita de dor. Uma dor a que alguns chamam sofrimento e outros realismo. Mas uma dor, ainda assim. Uma dor que cansa, uma dor que fere, uma dor que começa nas pontas dos dedos e acaba na ponta da alma.
Pousar a cabeça sobre a almofada, a cada noite, é por si só deixar uma oração no ar. Uma oração que implora pela inconsciência do sono, pela fantasia despida e crua dos sonhos, pelo desapego...
É verdade: a vida fere. A vida é uma criança insensata a brincar com os corações mortais. A fazer amar quem não é amado. A fazer perder quem tem ambição. A fazer chorar quem mais fez por merecer um sorriso. A vida fere. Fere de todas as maneiras, todos os dias. Rouba mais do que oferece. Oferece para depois roubar. Ri-se de nós, como se nos julgasse loucos de ainda aceitarmos essa falsa caridade!
E pousar a cabeça sobre a almofada é em si uma oração. Uma oração que pede um amanhã mais simples, uma dor mais ténue, uma força maior. É uma oração feita em silêncio, pelas pálpebras que se fecham e pela humanidade que se esvai à medida que o sono avança. É uma oração que não se diz e não se pensa. Mas que está lá, intacta e inteira, eternamente.
A vida fere. Fere no primeiro abrir dos olhos, na manhã. Quando a aurora se apresenta e o sol se ergue, condenando o corpo a mais um dia. Fere no primeiro contacto dos pés com o chão. No primeiro respirar consciente de cada madrugada.
E toda a gente precisa de uma razão para se levantar da cama e enfrentar o mundo. Toda a gente precisa de uma razão que dê sentido ao dia que ainda não começou e já tortura. Arco-íris, luas cheias e contos de fadas. São estas as minhas razões.
O arco-íris que mostra que nem tudo o que é belo pode ser tocado, as luas cheias que ensinam que não é preciso ter luz própria para iluminar o mundo e os contos de fadas que mantém acesa a esperança de se vir a ser feliz um dia, ainda que por entre as dores da realidade.
Arco-íris, luas cheias e contos de fadas. É por isso que me levanto todos os dias. Para olhar para a maravilha de coisas que a vida me diz que não posso tocar, para beber da luz de tudo o que é simples e belo e iluminar os caminhos daqueles de quem gosto, para ser a menina que, por entre tanta dor, ainda acredita em contos de fadas.
Posso estar enganada. Talvez arco-íris, luas cheias e contos de fadas não sejam a melhor razão. Mas são a minha. E mantêm-me de pé, quando tudo o resto é ruína. Por isso sim: a vida fere mas eu forço-me a acordar e a caminhar de cabeça erguida. Porque eu sei que existem arco-íris, luas cheias e contos de fadas, quanto mais não seja nas orações mudas que os meus olhos fazem ao fechar, cada vez que a vida fere...

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

3 comentários:

Tânia disse...

Gosto desses teus motivos para te levantares de manhã... A vida fere sim, mas gosto de acreditar que a "esmola" que ela nos dá compensa a dor que nos provoca.

bjs

Tânia disse...

Belíssimo, como sempre... cada palavra é poesia pura!

Jine Kácia Monteiro disse...

Lindo!
Emocionante!
Parabéns pelo texto, pela inspiração!