sábado, 22 de setembro de 2012

Seis



Seis. Seis olhos cansados. Os meus, os da minha alma e os do meu coração. Seis olhos cansados de verem a verdade e de se iludirem com as cores mais ténues da fantasia.
Seis. Seis mãos cansadas. As minhas, as das minhas dúvidas e as das minhas ilusões. Seis mãos que querem dar-se a outras mãos mas se mantém abertas, recebendo a esmola dos tempos, como se bastasse.
Seis. Seis sentidos abertos e profundos. Cada um deles atento e indiferente. Ver, ouvir, sentir, cheirar, saborear e saber. Saber profundamente o desfecho de histórias sem começo, no silêncio imediato de quem mede a vida sem pesos e medidas definidos.
Seis. Seis vidas cruzadas por duas pessoas em mil momentos. Seis crenças a rasgar a alma onde se acumulam seis eternidades cruas.
Seis. Seis respirações descompassadas em seis batidas fúteis do coração que só o coração não nota.
Fecho os olhos. Fecho os olhos à batida certeira do relógio no passar das seis. Fecho os olhos e sussurro baixinho palavras que ninguém vai ouvir. Que ninguém ouviria, ainda que gritasse.
Seis. Porque é seis o primeiro dos números perfeitos e eu preciso de algo perfeito nesta vida de desilusões incontáveis.
Seis. Seis olhos que se fecham. Os meus. Os da minha alma. Os do meu coração. Seis olhos que se fecham para desejar que as coisas mudem... ou para não abrirem mais.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

2 comentários:

Dulce Morais disse...

Marina, a sua numeração traduziu de maneira intensa uma tragédia... perfeita!

Tânia disse...

Adoro o número 6... sempre tive uma ligação especial com ele...
Adoro o texto... A capacidade das palavras de traduzir tanto do que sinto...
E adoro-te a ti... Continua a escrever meu bem... ***