segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Copo de água



Para o meu avô

A noite caía e, sentada sobre a cama, a menina chamava. Tinha os caracóis revoltos caídos pelo rosto e o jeito certo de quem julga saber tudo sobre o mundo e a vida. A certeza errada de que teria cinco ou seis anos para sempre e de que jamais deixaria de poder chamar por alguém, durante a noite, fosse por que motivo fosse.
A noite caía e a luz desligava-se sempre dois segundos antes da menina gritar, a plenos pulmões. “Trazes-me um copo de água?” E ouviam-se os passos, no corredor, sempre certos e convictos, carregando muito mais amor do que água dentro do copo. E, com o copo de amor, vinha um sorriso de verdade e um beijo de boa noite.
Então, em matando a sede de água e de carinho, a menina deixava a cabeça cair na almofada e dormia. O amanhã era a promessa de todas as coisas. A promessa de muitos copos com água, trazidos em bandejas de sorriso.
Houve muitos dias e muitas noites feitos em pedidos e em copos de água. E muito mais sorrisos entregues com a simpatia de um semicerrar de olhos. Mas as noites sucedem-se e as meninas crescem, para aprenderem que, um dia, não poderão gritar para pedir um copo de água antes de dormir.
Eu sei que já não sou essa menina. Sei-o bem. Mas, mesmo assim, quando a noite cai, ainda me sento na cama e fecho os olhos, para acordar a memória desse tempo em que podia gritar por alguém. Fecho os olhos para orar por um futuro no qual a minha alma seja livre de encontrar a alma de quem partiu. Fecho os olhos para ver, na escuridão do pensamento, o rosto que sorria ao entregar-me um copo de água e muitas medidas de amor incondicional.
“Trazes-me um copo de água?”. A pergunta fica no ar. Sem resposta. Sem passos no corredor. Sem um beijo de boa noite. Mas estás aqui. Mesmo sem me trazeres um copo com água. Mesmo sem entrares pela porta com um sorriso. Estás aqui porque, todas as noites, eu finjo, para mim mesma, que sou criança outra vez. E, na minha imaginação, entras pela porta do meu pensamento e preenches a saudade com mais um copo de amor. E é esse copo inventado que me adormece na ilusão de que nem a morte te pôde roubar de mim.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

5 comentários:

Tânia disse...

Está muito enternecedor e comovente... cheguei a sentir um apertozinho no coração... e, como sempre, a imagem que escolheste para acompanhar o texto é linda! ^^

Rafa! disse...

Lindoooooooooooooooooooo! Amei

Adriano Oliveira disse...

Maravilhoso texto, fiquei fascinado pelo achado "acordar a memória"

Anónimo disse...

Lembrei da minha maezinha,que deus a tenha.muito lindo.

Anónimo disse...

achei tao comovente que as lagrimas corem em meu rosto