sábado, 20 de outubro de 2012

A minha história



Se um dia alguém contasse a minha história, traço a traço, sem mentiras, sem nuances cor-de-rosa, então a minha história não seria uma história para todos. Seria um romance daqueles que ficam num canto poeirento da livraria porque ninguém compra o que não compreende.
Se um dia alguém contasse a minha história, diria talvez que fui a princesa da gaiola dourada, educada para ser tudo o que não fui, criada para seguir todos os trilhos que não segui.
Diriam, talvez, que sonhei demais, amei demais, chorei demais. Diriam que a minha vida foi feita na suavidade do exagero. Que nunca aprendi a viver de meios termos ou meios amores. Diriam que isso me matou, no alvorecer de uma Primavera e que tudo o que veio depois foi fragmento de uma morte em vida.
Se um dia contassem a minha história, a verdade da minha história, diriam que me apaixonei pela dor e que lhe dediquei, não só mil poemas, mas também a vida. Diriam que fugi, em encontros com o acaso, uma ou outra vez, para me perder nos braços da felicidade. Diriam que a felicidade fugia de mim, que eu fugia dessa fuga e que, por entre os becos do desencontro, acabámos por nunca passar muito tempo juntas.
Se um dia alguém contasse a minha história, traço a traço, sem mentiras, a minha história não seria sobre uma menina sonhadora, nem sobre uma mulher que a vida tornou forte. Esse romance versaria sobre as minhas mãos. As mãos que um dia pararam para escrever e para acarinharem as parcas pessoas que me conquistaram. Esse romance contaria que as minhas mãos se fecharam noutras mãos, que limparam lágrimas de rostos tristes e que se ergueram aos céus para invocar poderes maiores do que aqueles que a maioria entende. Contaria que as minhas mãos cruas e cruéis se fecharam em punho contra paredes de mágoa e lutaram mil batalhas apenas para perderem a guerra. Esse romance diria que as minhas mãos seguraram o meu coração na ponta da caneta e que isso me fez quem fui.
A minha história não seria para todos. E por isso não será escrita. Não será contada. Ninguém a saberá. Mas eu vou dizer-vos um segredo. Sim, eu sou escritora e falo muito sobre dor. Posso dizer que passei a minha vida a fazer isso mesmo: a dissecar cada pedacinho de sofrimento e a escrever sobre ele obsessivamente. Mas isso não significa que não dói! Significa apenas que as palavras, mesmo as mais duras, continuam a doer menos do que o silêncio. E que, talvez por fraqueza, não sou capaz de dar a mim mesma esses silêncios de papel. Então escrevo, por mais que doa!
Essa dor não é entendida e não fará parte de um romance sobre mim ou as minhas mãos. Essa dor vai viver comigo. Caminhar pelos meus dedos irrequietos e dormentes. Virar poesia e prosa. E, quando o tempo for certo, essa dor vai partilhar comigo a morte e vai voar pelo vento sobre uma ferida de pedra que contará, em silêncio, esta história pela eternidade…

Marina Ferraz
*Imagem retirada da  Internet

7 comentários:

L. disse...

"Esse romance contaria que as minhas mãos se fecharam noutras mãos, que limparam lágrimas de rostos tristes e que se ergueram aos céus para invocar poderes maiores do que aqueles que a maioria entende."

Obrigada por estares sempre desse lado!

Tânia disse...

Identifico-me com essa história. Era a minha, há 6/8 anos, mas, apesar de hoje já não ser a mesma pessoa, ainda permanece um fragmento de verdade dela na minha vida.

Sei que a escrita - neste caso, a tua - é muitas vezes alimentada pela dor, mas desejo-te felicidades e que, um dia, possas transmitir os teus sorrisos através da escrita também.

Adorei o texto.

lobices disse...

Bendigo o silêncio que me envolve; há tão-somente o chilrear dos pardais que no meu quintal fazem os tais voos palermas; são imensos e, neste momento, com o vento norte que sopra um pouco forte, esse piar dilui-se porque o som vai para sul deste meu canto. Me encanto, sem espanto, neste doce manto de paz e de solidão. Não estou triste nem a mágoa me consome apesar de tal estado ser enorme. Me entrego a ela em paz e com muita serenidade; não faço alarde nem a tento afastar. Aguardo apenas; aguardo o que houver para aguardar; não vou apressar o passo para passar em frente o que tenha de vir ainda a passar; não sei o que está para vir mas sei que algo virá. Bendigo, pois, o silêncio que me envolve. Sinto-me nele como dele fosse parte e não existisse sem que ele me deixasse; penso mesmo que, presentemente, eu deixaria de ser o que sou se o silêncio me abandonasse; no entanto, grito e desejo que tal aconteça, grito e anseio que ele desapareça, que algo surja para eu rir às gargalhadas. Porém, me assalta uma dúvida: que outra paz e serenidade poderei ter se este silêncio me abandonar? Será que a luta e o movimento será uma outra paz? Será que quando o actual silêncio me abandonar eu irei ter novamente um outro silêncio? Há muito já que ele faz parte de mim, ou se calhar não tanto tempo assim; todavia, a contagem até nem é importante, nós é que damos a importância que se sente deva ser dada, ou talvez não, talvez nem mereça ser assim tão doce ou mesmo breve; é que não sei se o estado de alma que sinto é doce e longo se amargo e curto, se amargo e longo ou doce e curto; sei apenas que me sinto bem e ao mesmo tempo sei que não o posso aguentar muito mais tempo. Tragédia esta a minha que de tão simples a faço tão complicada. Mas não seremos nós os complicadores que de tanto complicarmos as coisas, estas se tornam mesmo complicadas? Se calhar assim é. Resta-me, por isso, a esperança de que seja eu que esteja a laborar num erro e não que seja o erro um erro em si mesmo. O nevoeiro que nos cobria há 48 horas dissipou-se; o sol está novamente brilhando; pode ser que seja um bom augúrio, ou talvez apenas uma mudança de vento; que seja o que tiver de ser; nada mais simples que aceitar o que nos for dado vivenciar. Bendigo, portanto, o silêncio que me envolve. No entanto, espero apenas (nem que seja um grito) que algo me acorde.

Pedro Santos disse...

"E que, talvez por fraqueza, não sou capaz de dar a mim mesma esses silêncios de papel. Então escrevo, por mais que doa!"

Porque escrever ameniza muito a dor! Como te compreendo.

Anónimo disse...

*.* LINDO Marina!
"Se um dia alguém contasse a minha história, diria talvez que fui a princesa da gaiola dourada, educada para ser tudo o que não fui, criada para seguir todos os trilhos que não segui"
Beijinho pequena: )

Paula Lobo

Bruna Mangini disse...

Maria Lúcia Dal Farra disse o porque de seu marido querer ser um escritor: Escrever nos liberta das fantasmagorias que carregamos!

Escrevamos, ainda que doa!

Mony Machado disse...

UAU Marina, me identifiquei bastante querida. Mony Pinheiro da FunPag @Infinitas Possibilidades

Bjos de Carinho.