segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Até amanhã



Disseste "vá, até amanhã". Casualmente. Como se a distância entre o hoje e o dia seguinte fosse um salto comum e óbvio. Mas não era. Eu sabia. Tu também. O teu amanhã não se tratava do dia que vinha a seguir. Lembro-me de pensar "não te vejo mais". Lembro-me de o pensar, cheia de certezas, enquanto repetias "até amanhã, até amanhã".
Disseste-o, sem pensar, andando às arrecuas na direcção do carro. E tinhas os olhos vazios, enquanto as mãos seguravam a chave com a força da decisão da partida. Mas eu tinha lágrimas nos olhos e tu tinhas pena de mim. Porque é que tinhas pena de mim? Não sou digna de dó. Eram só lágrimas, nas imediações do olhar, recusando a queda. Mas bastaram. Bastaram para que olhasses para mim e me dissesses, andando atabalhoadamente na direcção do teu carro "vá, até amanhã".
Havia uma promessa implícita nas tuas palavras. "Não vou a lado nenhum", dizia essa promessa de amanhãs. Mas estavas a ir. Deste conta que estavas a ir? Prometias-me uma presença enquanto avançavas para uma distância segura, onde não podia agarrar-te nos braços ou selar qualquer promessa com um beijo. Estavas a ir. Na promessa ousada de que não irias jamais, estavas a ir. Afastavas-te de mim, passo a passo, com medo de voltares as costas pela ideia de que eu poderia chorar se o fizesses. E se chorasse? Ficarias se eu chorasse? Era disso que tinhas medo? De ficar?
"Até amanhã, até amanhã". O teu olhar vazio preso em mim não tinha a mais pequena nuance do sentir. E, enquanto te afastavas, notava que ele ganhava luz, como se eu fosse sombra e te roubasse o sol. Mas ias dizendo "até amanhã". Porquê?
Não ias simplesmente, com a naturalidade de um amanhã. Fugias. Era isso que fazias, enquanto me abandonavas no passeio e me dizias "até amanhã", com o mesmo desapego com o qual se pisa uma pedra da calçada. E, fugindo, avançavas na direcção dos sonhos que não podias cultivar no meu negrume.
Alcançaste o carro e sorriste. "Até amanhã", atiraste-me, ao abrires o vidro. E eu respondi-te o mesmo. De lágrimas nos olhos mas com um sorriso no rosto, ouvi os meus lábios descrentes dizerem "até amanhã".
E depois o carro partiu e eu fiquei. Sombra entre pedras da calçada, murmurando entre dentes: "adeus, sei que não te vejo mais".

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet


Vejam a página do músico aqui

4 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Adorei querida,texto perfeito de verdade.
Gostei bastante,beijinhos Jenny ♥ ♥ ♥ ♥ *--* :D

Naiara Lopes disse...

Lindas palavras, é um belo texto. Parabéns :)

Anónimo disse...

Muito emocionante.adorei

Anónimo disse...

magnificas palavras, muito tocantes, continue iluminando-nos! sucesso!