terça-feira, 2 de junho de 2015

O meu pedaço de caos

ou Crónica sobre um Cabelo (a)Normal



Nasci com a peculiaridade de herdar, de pai e mãe, os piores genes capilares da história planetária. De alguma forma, a trunfa indecisa entre ondas e liso da minha mãe, aliado ao cabelo cacheado e desalinhado do meu pai deu origem a algo que gosto de apelidar de "juba".
O meu cabelo mistura, com facilidade, todos os traços do caos. Tem vida própria. Vontade própria. É emancipado. Independente. Não aceita conselhos. Nem imposições. Quando tentam moldar-lhe a vontade, tende a espetar em todas as direcções.
No meu cabelo, qualquer corte parece o mesmo. Os caracóis formam-se como lhes convém e sem respeitar o esforço dos profissionais que tentam dar-lhe forma. Esticado, permite que se notem as nuances ruivas que permeiam o castanho. Durante vinte minutos, isto é... Depois, o volume rouba-lhe as características e o ciclo recomeça.
Esses vinte minutos de relativa cedência costumam ser os mesmos que fazem as cabeleireiras que conheci ao longo da vida esbugalhar os olhos e suspirar. Porque, quando contrariado, o meu cabelo exprime-se adolescentemente, dificultando a vida dos outros e fazendo, da aparentemente simples tarefa de alisamento, uma tarefa de duas horas e esforço militar.
Chamam-se os reforços: champô para cabelos secos e estragados, champô para caracóis rebeldes, amaciador para cabelos ásperos, máscara para crina de cavalos... Mais o spray de alisamento. Gel, cera, laca. Tudo o que houver à mão com uma descrição que grite "amenizador de caos".
É perante este cenário, em frente à montra interminável de produtos para cabelo, nas grandes superfícies, que dou por mim a pensar...
Lendo apenas a descrição de uma dúzia de embalagens é possível encontrar: para cabelos lisos, ondulados, encaracolados e afro; secos, estragados, queimados do sol, com pontas espigadas, oleosos, fracos, sem volume, sem vida, pintados... e, troçando-me, junto a estes, a indicação, no fundo de outras embalagens: "para cabelos normais".
A minha escolha nunca recai sobre estes. O meu pedaço de caos não enuncia normalidade. Mas questiono-me: O que será um cabelo normal? Não será certamente liso, nem ondulado, nem encaracolado, nem seco, nem oleoso... nem nenhum dos que se enquadre nas restantes opções! Talvez um cabelo normal seja um cabelo caucasiano, ocidental, heterossexual, casado, com um emprego das nove às cinco e que vá à missa, aos Domingos, com os seus filhos. Talvez seja um cabelo que gosta de ver T.V. e de beber uma ocasional cerveja enquanto a mulher cozinha. Ou talvez seja um cabelo que finge ler o jornal enquanto o metro não chega à estação e se envolve em discussões sobre futebol.
O meu pedaço de caos, em toda a sua vontade própria, não será, certamente, normal. Como também eu não sou. É rebelde. Incontrolável. Tem personalidade. E, talvez por isso, junta-se a uma enorme massa de rejeitados que não se enquadram na norma. O problema da norma é, claro, o facto de não existir fora do papel onde se enuncia. As únicas pessoas que imagino que escolham aquele champô são as que não lêem as descrições ou as que, perante tanta escolha, não saibam o que é melhor para si.
Eu herdei, dos meus pais, os piores genes capilares da história do planeta. O meu cabelo já era difícil antes de eu ser e já não se dizia normal antes de eu própria recusar o rótulo.
Mas a sociedade insiste. Identifica tipos. Usa-os como rótulos de embalagem. E atira-nos à cara que existe, além disto, uma normalidade. Ser normal não é regra, mas antes objectivo. Infelizmente, não só para o cabelo.
Estendo frequente a mão para longe do normal. Amo o meu pedaço desalinhado de rebeldia. São as características exacerbadas que nos tornam nós. E um bocadinho de caos nunca fez mal a ninguém...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet


2 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

P-E-R-F-E-I-T-O me representou totalmente,só tirando a parte dos cachos,que não tenho,mas queria ter hehe,e é bem assim mesmo,os rótulos,a falsa ideia de um ideal,uma perfeição,quando na realidade ser (a)normal é a mais autêntica forma de felicidade :)
Parabéns pela crônica :D
Beijinhos Jenny ♥♥♥♥

Analu disse...

Gostei muito,meus cabelos são meio rebeldes também,mas os deixo livres para serem como bem entenderem,devemos sempre aceitar e afirmar nossas raízes, é isso que faz de nós como somos.E essa coisa de ter que ser "normal" já não devia existir,porque ninguém é dono da verdade para dizer qual o padrão a ser seguido ;)
Beijos ;*