terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Lianor


"Descalça vai pera a fonte/Lianor pela verdura;/Vai fermosa, e não segura." (Luís de Camões)

Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Da beleza, se a tem, vulgar e corriqueira, num mundo de posters gigantes com modelos de elite, dirão talvez um piropo, se não houver à escuta agentes de autoridade. Dos pés descalços, se assim os leva, terão somente juízos. Alguns dirão que é pobre. Outros dirão que é louca. E outros dirão que a pobreza não é desculpa e que a loucura não é doença. Da segurança, essa que não tem, ninguém falará. Ninguém fala do que é importante, com medo que as palavras tornem real a realidade. É a mente tacanha das gentes: essa que teme mais falar do monstro do que ser por ele atacada.
Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Ninguém quer saber dela. Poderia ir calçada e ser feia. Poderia ir pelo asfalto em vez de seguir pela cama verde dos prados. Não importa. Não importa como vai para a fonte. Não importa onde vai. Não importa quem é. Num mundo onde se acumulam pessoas nesses nichos centrais chamados cidade, há muito pouco que importe a quem quer que seja. Então Lianor não terá um poema moderno, sem rima nem métrica. Não será atirada para prosa fraccionada, amontoada e díspar. Continuará lá: eternamente indo para a fonte onde ia nos dias em que a sua beleza era rara e a sua segurança importava a alguém.
Hoje não! Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Provavelmente Lianor nem vai à fonte. Só disse que ia. Talvez se vá encontrar com o namorado no café. Talvez vá fumar um cigarro à revelia dos pais. Os pais que serão, talvez, os únicos que se importam em saber onde ela vai... embora também eles já não queiram saber como.
Sob os pés, a erva verde que pisa de pés descalços canta poemas de outros tempos. E Lianor, moça jovem de espírito, criança de pensamento, mulher de corpo e intuito, pisa-a inconsciente de que a terra cante. E, como não se acha bonita de pés descalços, ignora a mensagem constante dos tempos idos e bebe da desatenção dos tempos modernos. Nem ela quer saber como vai para a fonte. Só quer ir. Possivelmente porque os outros foram. Possivelmente porque os outros não foram e ela quer provar-se diferente da maioria. Seja porque for...
Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Não vai segura. Ninguém a sabe formosa. Dela ficam os passos sobre o verde do caminho. Não vai segura. Se acaso morrer perguntarão, talvez pela vez primeira: como é que Lianor foi para a fonte? Mas não haverá resposta. Apenas silêncio. Houve o tempo das palavras. E ele passou...

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


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1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Li os versos de Camões e pensei que seria uma releitura do poema,mas não,mais um vez me surpreendeu com tuas palavras.Lianor,a de hoje, é uma pessoa comum,como nós,que esboça um sorriso falso ante a falsidade do mundo em que se encontra.Lianor vai à fonte se quiser ir,vai como quiser ir e ninguém liga,pois Lianor não traz nada que demonstre o que a sociedade quer ver.
Adorei :)
Beijinhos Jenny ^.^