terça-feira, 17 de maio de 2016

Intermitências


Ela começou, aos poucos, a sentir. Era uma dormência, inconstante e cheia de necessidades, pendurada no canto do olho, como se fosse lágrima. Mas não era. E ela sorria. Às vezes, enquanto esfregava a banca da cozinha, tentava remover a camada de limpeza que ficava por baixo da camada de gordura. E tentava corroer a pedra, com uma energia tresloucada. Passando o pano de um lado para o outro, imaginava que corria distâncias impossíveis, sem destino nem obrigação. E, pendurando-o no fio do avental, anuía para si mesma e para a pedra intacta e imaculada. Foi aí, por entre a tarefa. Aos poucos. Foi aí que ela começou a sentir. As intermitências. Mas, porque não conhecia a sensação, ela julgou que era apenas mais uma partida da sua cabeça. E disse, aos botões da sua solidão: “deixa-te disso, menina”. E obedeceu a si mesma. Estava habituada. A obedecer.
Ela começou, aos poucos, a descobrir. Era um espelho de duas faces, que lhe reflectia as expressões mais infelizes e lhe ampliava os gestos mais horríveis. Dos olhos, feiíssimos, fazia dois poços pestilentos, dos quais saiam apenas as vulgares pestanas. Dos lábios, disformes, fazia fossas recheadas de dentes tortos. E, se acaso ela sorria a esse espelho, ele devolvia-lhe um grito e abria mais uma fissura, bem a meio, cruzando com todas as outras. E ela, que não era nada de se olhar ao espelho, aventurou-se a aproximar-se dele e a tocar-lhe. Sentindo, mais do que nunca, a intermitência. Essa que, tendo nascido junto à banca da cozinha, parecia agora furar-lhe as entranhas e roçar-lhe a pele.
Ela começou, aos poucos, a aceitar. Era uma novidade daquelas que se estampam nas páginas mais importantes dos jornais gratuitos do metropolitano. A aceitação. Feia como o seu rosto e imaculada como a sua banca. Como se o feio e o limpo estivessem sempre no mesmo prato e fossem servidos sempre à mesma hora. Ela era alheia à feiura e à limpeza. Ainda mais à aceitação. A verdade era esta: por mais evidente que fosse, por mais que sentisse e confrontasse a realidade do espelho, ela não sabia que estava a aceitá-la. Acreditava, por alguma razão obscura, que estava a fazer escolhas e a tomar opções. Dona do seu nariz torto e abatatado. Mas não. Sentindo o formigueiro causado pela intermitência, ela estava simplesmente no caminho da aceitação. E esta tinha raízes que lhe cresciam dentro da pele, feito veias. Nelas não corria o sangue que lhe dava a vida mas o veneno que se entranharia no peito e a tornaria finalmente senhora de si.
Ela começou, aos poucos, a odiar as paredes da casa. Não só as paredes. Também os tetos e o chão. E as pessoas que viviam sob aquele teto e aquele chão, na guarida daquelas paredes. E o suposto Deus que abençoava as gentes e as casas. E tudo o resto. Sentir a intermitência, a crescer de dia para dia, como um feto crescendo dentro do peito, rasgando-lhe a vontade de viver. Estava grávida de emoções e não conseguia pari-las. Era uma dor que gerava no silêncio, com um sorriso parcelado no rosto, onde ainda se pendurava a dormência, feito lágrima. E pensou muitas coisas para si. Muitas coisas que não disse porque sabia que eram injustas e que, cedo ou tarde – ou, provavelmente, em ambas as circunstâncias – se arrependeria das palavras.
Ela começou, aos poucos, a morrer. Não da intermitência mas do silêncio. Era a vida. E, perante a imagem da morte, continuou a preferir essa candura. A do silêncio. Era um sofrimento solitariamente constante.
Num momento de fraqueza, escondeu-se debaixo das mantas empoeiradas das memórias do passado. Escondeu o rosto. E pensaria o mundo: pudera que se esconda, posto que é horrenda a sua imagem. Mas não. Não era feia. Nunca tinha sido feia. Não era o espelho mas o seu olhar sobre o espelho que lhe distorcia a imagem. Não era falta de beleza mas ódio que, feito suor, se pregava à pele numa camada fina e epidémica. Toda cheia de ódio pela sua imagem e pelo contraste entre os seus sentidos e a limpeza imaculada dos espaços, ela fazia dos dias o inferno e das horas a tortura. A sua lealdade para consigo mesma era intermitente e desvanecia, à medida que o compromisso com a morte ia estabelecendo os pontos-chave do contrato que prometera assinar.
Ela começou, aos poucos, a admiti-lo: não queria viver. E o coração, que era o único que a ouvia nos silêncios, soube-o. Como uma luz de sala, acabada de mudar, trabalhava bem mas gerava uma ocasional intermitência fantasmagórica. Um dia parou por alguns minutos. Poderia ter voltado a bater. Mas, no negrume da falha, ela que nunca sentia nada além da intermitência, sentiu. Paz. Tanta paz. E o coração adormeceu com um sorriso.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




Sigam também o meu instagram, aqui. 

1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Preciso começar dizendo que este texto é único,não só por suas palavras magníficas,mas pela ideia em si que o faz transbordar da página.É uma tristeza e uma ânsia pela descoberta desse sentimento,dessa falta de entendimento de si mesmo e tudo isso faz nós mesmos nos enchermos e dúvidas e pensarmos se isso está neste exato momento ocorrendo a nossa volta,ou,então,dentro de nós.
Meu trecho preferido é "Sentindo o formigueiro causado pela intermitência, ela estava simplesmente no caminho da aceitação. E esta tinha raízes que lhe cresciam dentro da pele, feito veias. Nelas não corria o sangue que lhe dava a vida mas o veneno que se entranharia no peito e a tornaria finalmente senhora de si."
Parabéns querida :D
Beijinhos,Jenny ^.^