quarta-feira, 25 de maio de 2016

Monstros como nós


Lá fora. Nas ruas. Nas praias. Nas florestas. Monstros como nós. Olhares ausentes. Mãos fechadas. Ou abertas. Vazias. Dormentes. Cheias de dores. Lá fora. Dentro de si. Longe de nós. Ao nosso lado. Desertos e tão cheios de tudo. Monstros como nós. Carregando medo nas bolsas. Sorrisos nos rostos que choram em segredo. Apáticos nos seus sentidos. Intensos na sua passividade ausente. São do mundo. Não são de ninguém. Ninguém os quer. Monstros como nós.
Sem nome. Com todos os nomes. Rostos desfigurados. Servos do destino. Senhores de lugar nenhum. Sentam-se no trono da desilusão e aplaudem as estrelas que lhes moldam o destino. Céticos. Crentes desnorteados. Dogmáticos. Filhos dos Deuses. Filhos da Ciência. Filhos de ninguém. Monstros como nós. Docentes de ensinamentos perdidos. Discípulos eternos da irmandade solitária dos espaços sem dono. Monstros como nós.
Lá fora. No desassossego. No alvoroço. Na aflição. Na calma. No sossego. Monstros como nós. Com a pena. Com o som. Com a voz. Com a palavra. Com a alma rasgada. Penhorada. Perdida. E corações de pedra. Isentos de felicidade. Repletos de alegria. Binómios intemporais de tudos e nadas que não se escrevem. Monstros como nós.
Sem face. Com rasgos de fera. Cândidos. Temidos. Andando. Por aqui. Por ali. Por todo o lado. Sob o manto. Sobre a Terra. Debaixo do mesmo Sol. Das mesmas estrelas. Poeira de estrelas. Varridos como poeira comum. Pelas pessoas. Pelo mundo. Monstros como nós.
Humildes. Humilhados. Gastos dos pronomes. Gastos das desilusões. Tantas. Quantas? Ninguém sabe. Sabemos todos. Grito comum. Grito calado. Caminho. Pedra imunda da calçada. Pés de espinho pisado na demora. Vão. Monstros como nós.
Não servem ninguém. Dizem, algures, que não servem para nada. É mentira. Servem! Servem para isto. Para não estarmos sozinhos na nossa solidão. Para sabermos que caminham. Nas mesmas ruas. Nas mesmas praias. Nas mesmas florestas. Rumo ao mesmo horizonte. Monstros como nós.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Um texto incrível,nós andamos por aí pensando estarmos sozinhos,quando na verdade,ainda somos muito parecidos.
Monstros,que não demonstram,mas que sofrem em silêncio,ainda assim,monstros tão parecidos.
Muito bom mesmo <3
Beijinhos,Jenny ^.^