terça-feira, 2 de agosto de 2016

Viver sem ti



Tem sido difícil viver sem ti. Quando acordo, com o beijo do sol e o calor da manhã. Quando pouso os pés na madeira limpa do soalho. Quando canto fado no chuveiro. Às vezes, sorrio. E, depois, lembro-me que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
Tem sido difícil sair à rua. Saltar de pedra em pedra, feito criança, brincando ao jogo das cores. E palmilhar as ruas sem destino, à procura dos sonhos nos recantos entre os azulejos toscos e as rachas das paredes. Não ter hora para voltar. Não ter compromisso que me prenda. Fico a ver o mundo que passa e o rio que corre. O trânsito que flui. Às vezes sorrio. E, depois, lembro-me de que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
Às vezes chego inesperadamente depois das sete a casa. E abro a porta sem cuidado. Chego depois das sete. Mas nunca chego atrasada. Não há horário. Nem hora certa. Nem obrigações. Entro em casa, dispo-me a caminho do quarto. Uso a minha camisola velha e os calções de desporto. Os pés nus no soalho. Ponho a rádio na estação de músicas lamechas e salto do sofá quando as baladas dão lugar a uma música dançável. Faço desfiles pelos corredores. Janto morangos com chocolate negro. Às vezes sorrio. E, depois, lembro-me de que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
A minha mãe liga às terças e quintas. Na sua voz, a comiseração cortada e contada nas frases do costume: “não precisas de nada?”; “estás bem?”; “tens de aguentar firme!”. Aos fins-de-semana, os amigos arrastam-me para os bares. E repetem, feito oração, as premissas do costume: “tens de superar!”; “eu sei que não estás bem, mesmo que digas que sim…”; “depois de uma montanha, espera uma maior.”.
Eu olho ao espelho. À procura da dor. À procura da solidão. À procura da vergonha. Mas tudo o que vejo sou eu. Ponho a língua de fora. Sorrio. E, depois, lembro-me. Não devia sorrir. Devia chorar. Dizer que tem sido difícil viver sem ti. E talvez seja. Mas sabes? Foi mais difícil viver sem mim quando estava contigo.
Sorrio. E não tenho vergonha de sorrir. Tem sido perfeito viver sem ti.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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