terça-feira, 7 de março de 2017

Voyeurismo



Espreitam. Pelo buraco da fechadura. À medida que me cai aos pés a camisa de dormir e o pudor. E que as mãos se lançam na descoberta dos recantos da alma que se sobrepõe e provocam nas arestas baunilhadas da pele.
Espreitam. À medida que o sol me beija a nudez. Subindo pelos tornozelos até alumiar as curvas da anca e se perder no voluptuoso lugar das horas perdidas.
Espreitam. Pelo buraco da fechadura. Enquanto passo pelo corpo os cremes e os desejos, em igual quantidade e pelo mesmo motivo. A sede. Tenho a pele seca de amores e paixões. E passo-as, de luxúria, com as pontas untuosas dos dedos que querem sofregamente atingir a plenitude. Não tenho medo de mim e isso assusta os outros. Sou mulher e não quero ser outra coisa. Sou inteira e querem pedaços segmentados de mim. E há os dedos que se movem…
Espreitam. À medida que as costas se arqueiam e o braço se estende no infinito de uma busca. Lança-se na procura e traz de volta o segredo da nudez permanente. Vestir a alma. Sobre o corpo. Ali, exposta. Onde incomoda quem olha. E onde incomoda mais ainda que eu não me importe que olhem. Visto a alma. E a roupa lavada. Com aroma a sabão e à falta de falsidades. Contra a pele, parece senso comum a alegria incompleta das vestes. Mas não é! É apenas conforto.
Espreitam. Pelo buraco da fechadura. E eu ponho batom nos lábios. Negro nos olhos. Beijo o retrato do espelho. Apaixonadamente. Devotamente. E digo a mim mesma, em voz alta, que talvez seja a mulher mais bonita do mundo. Sou-o. Por dois segundos. Meus. Só meus. Não tem mal nenhum. Sê-lo. Ainda que seja apenas nos olhos assumidos do meu reflexo.
Espreitam. Não me acham bonita. Têm medo de mim. E eu calço os pés nus. Assumo a postura de guerreira. Vou buscar a mala e os óculos de sol.
Espreitam. Pelo buraco da fechadura. Abro a porta onde se encostam olhares. Sem cuidado, de rompante. Faço-lhes um aceno. Não me importo que olhem! Não me importo que julguem. Mas, por favor: se ficarem, deixem-me passar! Tenho pressa de ir ser feliz.

Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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1 comentário:

Angel disse...

Deliciosa malha de palavras... adoro