terça-feira, 12 de junho de 2018

A minha gata




Há uma presença na minha casa. Dá passos sofisticados e calmos. E passa despercebida a quem não sabe. Depressa se faz sombra num canto e desaparece. Depressa se deixa ficar adormecida num espaço qualquer ou se silencia, absorta, fixando o tudo e o nada, fora da janela. E tem sempre uma postura feliz. Seja na contemplação ou na brincadeira. Não fala e não escreve. Na maioria dos dias, simplesmente está e existe. Nesta simplicidade, ensinou-me muito sobre a vida.

Costumo sair cedo. Mais por hábito do que por obrigação. Deixo para trás uma taça cheia de água e outra com meia dose de comida. Despeço-me em voz alta, como se ela respondesse. E ela espreita-me, geralmente do quarto, girando a cabeça para o corredor e soltando um miado. Imagino que me diz “não vás”. E penso sempre que, no regresso, amuada e triste, por um qualquer tipo de despeito, me vai ignorar. Mas volto para ela. E ela espera-me à porta. Encosta-se às minhas pernas. E corre à minha frente, para onde quer que eu vá. Celebra a minha presença, incapaz de me guardar rancor pela ausência. E deita-se no meu colo, implora pelas minhas festas, devolve-as em lambidelas de lixa e com cabeçadas pontuais. Ela ensinou-me sobre o apego desinteressado. Sobre como receber alguém que se ama. Como cultivar afeto onde poderia haver ressentimento. E faz da minha casa um lar, cada vez que volto, à espera de encontrar paredes vazias e divisões silenciosas.

Eterna menina negra, ela não se deixa crescer. Dos brinquedos espalhados pela casa faz companheiros de viagem, que começam a ter nomes. E vai, desta forma, permitindo que me habitue a outros ritmos e outras vontades além da minha. Tropeçar em mini peluches e em collants rotos que ela não me deixou deitar fora torna-se comum na minha casa; tal como se torna frequente que eles me sejam depositados em cima das teclas do computador, para jogar “ao busca”. Tentei dizer-lhe que ela não é um cão. Mas ela não percebeu. Porque não conhece o preconceito nem os estereótipos. Quer apenas brincar “ao busca”. E, brincando com ela, eu aprendo que os rótulos são uma idiotice da nossa cultura.

Quando a vida atormenta, cansada e despida de energia, dou muitas vezes por mim a brindar a solidão com gotas de lágrima sobre a cama. Ou simplesmente no olhar seco sobre as paredes e as lombadas dos livros poeirentos. Talvez porque ouça muito mais do que fala ou porque se deixe sentir o outro e toda a sua energia, ela sabe quando eu não estou bem. E, logo ela, que me procura sempre por interesse próprio, seja para o carinho ou para a brincadeira, junta-se a mim apenas para dar, sem pedir nada. Traz todas as formas de ternura que conhece. Rodeia-me com os brinquedos dela, sem se mostrar interessada na brincadeira. Sobe-me para o colo e encosta a cabeça à minha. Ou simplesmente senta-se a meu lado, olhando para mim. E há mais entendimento do que dúvida nos seus olhos. Diz-me, sem qualquer palavra, que posso chorar ou não… mas que, de qualquer forma, não estou só. Com estas demonstrações de amizade, ela ensina-me que cuidar de alguém é simples.

Quando calha agitar-se, corre pela casa toda como se fugisse de assombrações, atira ao chão peças metálicas, entorna metade da água e mia em vários tons, volumes e intensidades. E não adianta dar-lhe mais água, mais comida, mais mimo. É um botão encravado no mio que só desliga quando ela quer. Certa vez, miei de volta e ela desapareceu durante meia hora. Foi também uma lição sobre como podemos ofender alguém se não conhecermos o seu idioma e não fizermos ideia do que estamos a dizer.

No final do dia, temo-nos uma à outra. Ela olha para mim como se tivesse sido um bom dia e faz-me sentir que o foi. Acabamos as duas relaxadamente a olhar para o nada. O pelo dela, entre os meus dedos, faz-me sentir que a suavidade da minha história ainda não terminou. Deitada aos meus pés, aquecendo o frio de um verão por chegar e de um sol que se apagou, ela mostra-me o toque da lealdade e do amor. E aprendo, com ela, que a felicidade se escolhe.

Do preto do seu pelo ao brilho da alma que eu sei que tem, não existe nada nela que me seja azar. Sinto, quando me espera à porta, que tenho uma razão para voltar para casa. E sinto, quando volto para casa, que a posso transformar num lar. É a minha companheira e a minha amiga. Torna-se família a meus olhos. Torna-se parte de mim. E, enquanto escrevo este texto, deitada no arranhador junto à janela, ela observa as árvores que se agitam. Não se importa com o vento frio deste Junho. Boceja e revira-se, olhando para mim. Faz um trejeito de miado que se perde a meio, num segundo bocejo, que termina com a língua e um dentinho de fora. Fecha os olhos com leveza. Tudo nela é tranquilidade. Ela ensina-me. Eu aceito aprender. Ser feliz é isto.




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