quarta-feira, 20 de junho de 2018

Nuvens à espera



Estou farta de te ter colado à sola das minhas sapatilhas como se tivesse pisado uma pastilha elástica. Sinto que aprendi a andar sozinha. Sinto que aprendi que posso voar. E ainda me colas ao chão. Há jardins de insanidade por explorar nas nuvens. Deixa-me ir.

É uma sensação estranha, feita de uma palavra que pulsa digitalmente e nunca se transfigura em carinho concreto. Mas que me cola os olhos ao ecrã. Até amanhã. No hoje. E no bom dia que não é bom. Pulsa. Pisca. Olá. E as nuvens à espera.

Estou farta de te ter na distância segura de poderes voltar. Como se um passo de proximidade assustasse e um passo a mais te roubasse o fôlego. Meu menino, acorda. Eu não sou ar para ninguém. Nunca fui. Sou sufoco. Será que tens saudades do fôlego que te roubava? Daquele perdido em beijos intensos, por entre o suor e as palavras de desejo? Ou daquele que quase te roubou a alma e te fez esquecer quem eras? Eu não sou ar. Não me respires. E não me impeças de respirar. Deixa-me ir. Há sonhos por sonhar. Nas nuvens.

Demoras o olhar quando pensas que eu não noto. E eu finjo que não noto até não notar. Algures, de garrafas nas mãos, sorrimos o fresco de gargantas humedecidas e doces, porque a vida já pouco tem de sabor, embora esteja refrigerada no limite do congelamento. E constatas o óbvio. E eu rio do óbvio. E as nuvens passam com o vento. À medida que os ponteiros troçam. Não usas relógio. Eu também não. Parámos na ideia do amanhã. E já passaram dezenas de amanhãs. A piada óbvia deles, somos nós. E deve ter mais piada do que as tuas e as minhas. Essas das quais as nuvens fogem.

Estou farta de te amar. Estou farta de te amar sem poder dizer que te amo. Como se tivesse engolido silêncios e vácuos em cima dos sentimentos. E me engasgasse neles cada vez que abro a boca. São passos calados. Passos calejados. Com pés que me colam ao chão. E que não sonham já voar até às nuvens.

Faço compromissos comigo mesma e estou presa a ti. E não penso que estou presa a ti, porque tenho esse compromisso comigo. E ando às voltas da história eterna do que eu não sou. Olhando as nuvens. Fechando as asas. Eternas possibilidades. Que não o são. Não contigo colado a mim.
Estou farta. Farta de te ter colado, feito pastilha elástica, à sola das minhas sapatilhas. Deixa-me em paz.

Descalço-me. De ti. Despeço-me. De ti. Adeus. As nuvens estão à espera. 

(E nunca me abandonaram).





*Imagem retirada da Internet



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2 comentários:

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