terça-feira, 20 de agosto de 2019

Arame farpado


Modelo: Tânia Silva


Ninguém põe arame farpado nos muros para vedar caminhos. Qualquer manta amarrotada ou camisola velha torna o muro fácil de saltar. Não é preciso muita inteligência, nem ardis. Não é necessária destreza nem arte. O arame farpado não serve para vedar caminhos. Serve outro propósito. O do aviso: mantém-te à distância! E é isso que o teu silêncio é. Arame farpado.


Tenho muitas coisas para te dizer e nada que faça sentido dizer-te.

Gostava, por exemplo, de te contar que, no outro dia, andando pela rua, tropecei numa memória nossa e caí no chão asfaltado. Gostava de te contar que, desastrada como sempre me disseste que era, esfolei um dos joelhos e as duas mãos. E que as feridas não saram porque estou constantemente a mexer nelas, procurando na profundidade desses cortes a parte de mim que não sinto que tenho.

Gostava de te dizer que a memória na qual tropecei era boa. E que, por isso, enquanto caía, senti que voava. Até me estatelar. No chão. De asfalto. E de me lembrar. Da verdade dos dias. E de recomeçar o processo de maturação da mágoa. E de chorar.

Gostava de te dizer que houve quem acorresse. E me ajudasse a levantar. Quem me perguntasse se precisava de ir ao hospital. E de te explicar que agradeci a queda para não ter de explicar que as lágrimas não eram fruto do sangue da carne mas da seiva da alma.

Tenho muitas coisas para te dizer. Como esta. Mas não faz sentido. O teu silêncio é arame farpado.


Mantenho-me na distância segura. Para respeitar o aviso. Do silêncio. Para respeitar a sinalética luminosa presa na testa. A sinalética que é a única coisa que vejo brilhar no teu rosto, por entre sorrisos-verdade, sorrisos-mentira e olhos mate. Mantenho-me na distância segura. Afasto-me, pé ante pé, do arame farpado do teu silêncio. E, quanto mais recuo, mais perto fico do passado e mais te amo. Talvez já tenha recuado ao tempo antes de nós. E talvez por isso te ame. Em silêncio. Como antes. Só que pior.

Gostava de te dizer isso. Que te amo. Em silêncio. Como antes. Só que pior. Mas não faz sentido.


Tenho visitado muitas ruínas. Esta é outra coisa que gostava de te contar. Sabias que, aqui ao lado, uma quinta tem o nome do nosso passado e um palácio de contos de fadas? E sabias que sobra, de uma antiga aldeia, apenas a árvore anciã e que nela moram histórias? E sabias que debaixo da meia ponte romana existem folhas verdes e vermelhas, com formato de coração? Queria contar-te. Que saltando muros encontrei pérolas. E que valeu o risco da invasão. E que valeu o risco dos arranhões. E que valeu o risco das quedas. Queria contar-te. Mas não faz sentido.


O teu silêncio é arame farpado. E eu não tenho medo nenhum do arame farpado. Mas tenho respeito por ti. Não vou amarrotar mantas nem camisolas velhas. Não vou saltar o muro. Vou ficar a olhar. Para o arame farpado do teu silêncio. Toda cheia de palavras. E sem poder dizer-te nenhuma delas. Conheço bem as pérolas do outro lado desse muro. E amo cada uma delas. Ainda mais do que as folhas e as árvores velhas e os palácios feéricos. Amo-as. Mas não quero nenhuma delas, se não mas queres dar.


O teu silêncio é arame farpado. Ele deixa o aviso. Mantém-te à distância. E eu mantenho. Deste lado do muro. Durmo e acordo encostada a ele. Ao muro. Com a esperança. Uma única esperança. A esperança de que, um dia – silenciosamente e sem te incomodar - adormeça ali e não acorde mais.






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