terça-feira, 12 de maio de 2020

Ser velho (quando se é novo)


Fotografia de Analua Zoé

Ele disse-me que ainda não queria morrer. E eu disse que não me importava. Tínhamos quase a mesma idade. Ele era novo e eu era velha. Era aí que residia a diferença.

É difícil ser velho. Principalmente quando ainda se é novo. O tempo alonga-se e cabem muitos dias num dia só. Cabem muitas vidas neles. Como se os sulcos na alma fossem rugas na pele e deixassem marcados anos-luz de vida. Como se esses mesmos sulcos fossem margens e no seu centro corressem rios, feitos de lágrimas salobras, solitárias e sós.

Ser velho, quando se é novo não causa cansaço mas desprendimento. Não existe o desnorteio de não saber para onde ir. Repleta de certos e de errados mas consciente de ambos, a alma sabe para onde se dirige e vai. Chega-se mais depressa, embora com passos mais lentos… porque se sabe o destino e não se busca a aventura dos labirintos que ficam nos trilhos mais demorados.

Ele disse-me que ainda não queria morrer. E eu disse que não me importava. Tínhamos quase a mesma idade. Ele era novo e eu era velha. Era aí que residia a diferença. Ele media a vida em momentos e eu media-a em essência. E ele perguntava “e se”, onde já não tinha espaço para interrogações.

Ser velho, quando se é novo faz com que as perguntas se substituam pela compreensão de que não existem respostas certas. A vida não é matemática, como querem fazer-nos crer. A vida é uma sucessão de incompreensões, que passa sem que entendamos metade e que nos é mais doce quando paramos de lutar contra ela.

Ser velho significa também isso. Parar de lutar contra a vida. Ir no seu embalo. Tentar ajustar as velas ao vento, apenas para que ela não fuja da rota da nossa consciência e dos nossos princípios.

Indo com a vida, descobrimos que ela se dá a quem se deixa ir. E o medo da morte desaparece porque, de repente, os sonhos foram cumpridos. Amámos, fomos amados, escrevemos, publicámos, ouvimos canções com palavras nossas e subimos a palcos com várias peles. Honrámos os Deuses que tínhamos de honrar, plantámos as plantas que tínhamos de plantar, colhemos os frutos que tínhamos de colher. E, depois disto, temer a morte parece ridículo. Porque ainda que nos sobrem experiências para viver, em essência sabemos que foi perfeito.

E, claro, disse-lhe eu, se houver mais, vou tentar aproveitar cada momento. Mas foi pleno o suficiente para que não haja “e ses”. Estou em paz comigo. Ele respeitou mas não entendeu. Mais difícil do que ser velho, sendo novo é entender o velho-novo quando se é novo-novo.

Ele disse-me que ainda não queria morrer. E eu disse que não me importava. Tínhamos quase a mesma idade. Ele era novo e eu era velha. De repente, quando se é velho, por mais que queiramos viver, já não é muito importante estar vivo. Mas, Deuses, eu também gostava de ter o amanhã para poder sentir, por mais um dia, a paz de poder morrer agora e estar tudo bem.





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