terça-feira, 21 de julho de 2026

G. e o burrinho

 

Imagem gerada por IA


Agora, sentas-te ali e ficas a pensar no que fizeste. O Povinho arrasta-se da cadeira para o canto e enfia as orelhas de burro voluntariamente.

 

O G. ri.

É o bully da sala. É mau. Só faz asneiras. Culpa os outros. Ri-se nas costas dos professores. Faz-se de santo quando é confrontado. E, logo a seguir, passa rasteiras, atira papéis, empurra quem espera na fila pela refeição do dia. Cochicha com os amiguinhos do peito. Faz planos mirabolantes para garantir que a sua barriga é a mais cheia, que os seus interesses são os primeiros a suprir, que têm um estatuto preferencial em todas as enfiadas. Ninguém ouse chamar-lhes Luís, Nandito, Aninhas... isso é para o Zé que, como já referimos, está ali metido à parede com orelhas de burro. Eles são os senhores, os chefes, os doutores, as excelências. Isto do respeitinho é bom e eles gostam.

 

O Povinho continua ali, com orelhas de burro. Sente-se um verdadeiro asno. Teve -3 no exame. É um burro mais burro que os outros. Houve a necessidade de criar notas ultranegativas para que ele soubesse isso mesmo. Que realmente é um burro e merece as orelhas, mesmo que tenha sido G a fazer merda.

 

O G. ri-se do burro. Aproxima-se. Parte-lhe as pernas. Ri-se. Garante aos professores que o Zé não será prejudicado. Que eles não serão prejudicados. O diretor queixa-se do seu comportamento e ameaça suspensão, mas bully que é, o G. nega e acrescenta com algum escárnio que o diretor não deve fazer-lhe frente, até porque é nomeado. Não é, é eleito... mas vamos esperar destes tiranos que saibam a diferença? Não! Falta-lhes tanto de vocabulário quanto de sensatez. Então, partem para a ameaça e ficam na sua.

 

Entretanto, o Zé, de pernas partidas, assume as novas orelhas, mas vai para casa porque é a final da copa. O G. também vai ver o jogo. Nisto, burros e bullies concordam. Se o mundo é uma bola, que gire no campo.

 

De futuro hipotecado, o Zé critica o mau perder da Argentina. Os senhores doutores não ligam tanto. Querem é ver porrada. A porrada distrai o Zé e, quando der conta, já acha que é culpado da má sorte que o acompanhará num futuro de coxeio. Mesmo manco, lembrar-se-á antes das camisolas rasgadas e das taças erguidas e das costas voltadas. Assim, o Zé resigna-se. Mais depressa a Argentina aplaude a vitória da Espanha do que o G. admite os seus erros.  

 

O Zé está cansado. O Zé quer dormir. As orelhas não assentam bem na almofada. Quer tirar as orelhas. Mas já estão pregadas. Criam raízes para dentro e vão comendo o cérebro como se fosse terra. O Zé não consegue dormir. Não tem futuro. Não tem esperança.

 

O Zé levanta-se. Olha ao espelho. Reconhece-se no reflexo. Aceita o aspeto de jumento. Na verdade, não é um semblante novo. Já tinha aquele aspeto no começo do ano, quando votou no bully para delegado de turma.

 


P.S.: Na sala, há outros Zés. Não votaram em G. Ou votaram, mas queriam não ter votado. Alguns detestam G. Mas quase todos têm medo de levar uma sova no intervalo. E ninguém faz nada.


Marina Ferraz



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