segunda-feira, 9 de abril de 2012

Alma quebrada


Toma. Leva também a minha alma. Leva-a juntamente com os sonhos que te dei e com o coração que me roubaste num beijo. É assim que deve ser. Não há outra maneira...
Leva-a. Leva a minha alma, mesmo rasgada, mesmo ferida, mesmo vazia de tudo o que algum dia foi bom. Leva-a nessa bagagem leve de memórias vãs que esquecerás na primeira estação. Mas leva-a. Mesmo que a percas. Mesmo que a deites fora. Não importa!
Leva a minha alma, da mesma forma que me levaste a esperança. Leva-a da mesma maneira como, tão subtilmente, fizeste de mim criada dos desejos insensatos do mundo. Não consigo trazê-la mais comigo.
Sorrisos, lágrimas e tantas, tantas memórias. É isso que estou a oferecer-te. Os meus sorrisos que eram teus, as minhas lágrimas tontas e desesperadas, cheias de promessas, e as memórias que guardei. Memórias de desenhos e de flores e de mil brincadeiras. Rir até chorar, sorrir num choro magoado, dar até uma gargalhada dorida por entre as piores coisas da vida. A minha alma é capaz de tudo isso. Então, por favor, leva-a contigo. Não preciso dela! Já não preciso de me rir ou de chorar ou de recordar o que quer que seja. Estou cansada... Tão, tão cansada...
Toma. Leva também esta alma suja, encardida, feita de trevas. Leva-a na maleta ou na algibeira. Leva-a, seja como for. Já não me importa. Mas leva-a, com cuidado ou aos tropeções, onde quer que vás. Porque, então, se alguém me perguntar como está a minha alma, poderei dizer que está contigo, sem ter de explicar que está quebrada e dorida.
Leva-a. Leva-me esta alma que já não me serve os dias nem as noites. Esta alma que já não me encara e que já não me responde. Esta alma que me odeia por tudo o que lhe fiz. Leva-a contigo e deixa-me só. Preciso de esquecer...
Os olhos ficam abertos, cansados das lágrimas, cansados da dor. O mundo gira e a alma pesa-me. Leva-a. Leva-a para longe e deixa-me dormir. Estou cansada... Cansada de ser uma pessoa e de ter uma alma ferida. Cansada de ser deixada para trás, com tão pouco como um peito dolorido que já gastou todo o amor que tinha para dar. Por isso leva-a. Leva a alma. Leva-a como levaste os sonhos que te dei o coração que roubaste. É assim que deve ser. Não há outra maneira.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

6 comentários:

Thayzinha Nobre disse...

parabéns ao texto, vc é ótima!!

Ana Quintas disse...

Vejo-me completamente nesse texto. Parabéns e obrigada!

Cassye disse...

Lindo!!!E tentando, sem conseguir, serei redundante...um texto com ALMA!!!

Anónimo disse...

que lindo vc esta de parabens,deu te abençoe,q ele continue te ilumindo. bjokas.

Anónimo disse...

Parabéns! ótimo texto...

Cidália Rocha disse...

Adorei