terça-feira, 17 de abril de 2012

Memórias no vazio


A memória riu baixinho, enquanto atravessava a sala deserta. A mesma sala deserta que estava apinhada de fantasmas tristes. A mesma sala deserta onde se amontoava a poeira do tempo. A mesma sala deserta onde ela estava sozinha. Sozinha como os fantasmas e a poeira e o deserto de uma alma despojada de sonhos.
Apoiou-se nos braços do sofá velho e gasto e olhou para ela. Bem dentro dos olhos apáticos. Bem dentro da alma carcomida pela saudade e a distância. Ela não reagiu. Não pestanejou sequer. Então, a memória beijou-a. Primeiro levemente, carinhosamente. Depois, com ansiedade. Finalmente com uma necessidade crescente de fazer parte do vazio que ela tinha nos olhos.
O ondear claro e óbvio da saudade anunciou-se nesse beijo e, qual intruso, foi sentar-se discretamente ao lado dela. E uma lágrima caiu-lhe dos olhos e percorreu-lhe o rosto exactamente ao mesmo tempo que um sorriso aflorava, quebrando a apatia.
Depois do beijo, o vazio. O vazio incoerente. A apatia acentuada. O medo desmedido que surgia na forma de lágrimas despidas de sensações.
E a memória abraçou-a e deixou-a chorar, enquanto a saudade adensava e se tornava corpórea, ganhando forma dentro dela.
Cansada. Demasiado cansada da vida. Demasiado cansada de não sonhar. Demasiado cansada da sala deserta onde ela não era mais do que outro fantasma com corpo. Demasiado cansada de ter de respirar. Foi no cansaço que ela recebeu a saudade e no cansaço que ela deu a mão à memória e a seguiu, deixando o corpo para trás.
E a memória deu-lhe a mão, limpou-lhe as lágrimas, arrancou-lhe um sorriso e sorriu também. Depois, qual amantes, deixaram a sala deserta. A mesma sala deserta onde os fantasmas tristes tinham adormecido e a poeira ainda adensava. A mesma sala deserta onde ela fingira viver durante tanto tempo. A mesma sala deserta onde ela já não estava. Onde já não estavam as suas memórias saudosas e a sua alma despojada de sonhos.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

4 comentários:

Pully Deracco disse...

Cada vez que leio algo seu....descubro o quanto eu sou pequena, o quanto ainda falta pra eu crescer!!!! Amo muito tudo isso, beijos

Wanderly Frota disse...

As vezes sentimos uma falta de tudo, um vazio grande ou uma vontade de ser mais, de acreditar mais nos sonhos, de buscar mais belezas...
Linda a profundidade das palavras tuas!
Encantada!

Anónimo disse...

serás a minha memória e eu a memória de ti. Bem hajas por isso.Muito boas histórias.

Anónimo disse...

E incrivel e assustadora a forma como as palavras desta escrita de Marina Ferraz nos assaltam o coracao... Recente descoberta e simplesmente fantastica... Adoro. Parabens... Ja agora gostava de saber como adquirir o livro. Ibrigada