terça-feira, 3 de julho de 2012

De olhos fechados



Quando fecho os olhos, eu vejo o mar. O horizonte. Os vales encantados da memória, onde floresce a ilusão de um amanhã mais puro. Quando fecho os olhos, eu ouço a voz das árvores. Vejo o sorriso das flores. Respiro melhor.
Quando fecho os olhos, eu vejo mais do que o mundo permite. Voo por céus de eternidade. Atiro-me de falésias de esperança. Corro sobre as nuvens mais altas.
Quando fecho os olhos, enrosco-me no teu abraço quente. Sinto o teu cheiro. O teu sabor. A tua insanidade e a tua força. Quando fecho os olhos, sou tua. Tu és meu. Juntos somos donos do para sempre e filhos de uma Natureza divina.
Abrir os olhos é morrer. Morrer no horizonte cinzento de uma estrada de alcatrão. Morrer na cidade pardacenta. Morrer na voz de quem não entende porque roubaram a voz de quem sabe melhor. Abrir os olhos é estar sozinha. É estares longe. É não sermos nada nem de ninguém.
Vou fechar os olhos. Correr por esse prado verde, onde as flores silvestres começam a nascer sob as gotas do orvalho da manhã. Vou seguir o rio. Vou dar-me a beber à poesia.
Vou abrir as asas. As minhas asas de veludo negro. As minhas asas de imensidão. Vou voar no céu azul-escuro do fim da tarde. Vou passear sobre o arco-íris.
Quando fecho os olhos sou a pessoa mais simples de todas. Ando descalça sobre a relva e sob a chuva. Rodopio loucamente no desapego do óbvio. Rio às gargalhadas, até a barriga doer e os olhos lacrimejarem. Sou tão feliz, quando fecho os olhos.
Então, não tenho medo da morte. Gosto da vida que tenho no fechar dos olhos. Quando me canso do mundo. Quando me canso de esperar que o mundo se torne outra coisa ou que seja melhor. E morrer é fechar os olhos de vez.
Quando fecho os olhos, eu vejo a vida que não tive. A vida que nunca vou ter. Não é o tempo nem o local para se ser um servo da Natureza. Para se ser um filho do divino. Para se ter uma fé inabalável no amor. Nasci no sitio errado para ter os olhos abertos. Nasci no tempo errado para admitir o que encontro quando os fecho.
E quem me entende? Quem pode entender que falo com plantas e espero amores perdidos? Quem pode entender que me ria das certezas dos que se afogam em teorias comprovadas? Quem pode entender que eu acredite no invisível, no indizível, no inadmissível e não consiga ter fé na ciência?
Quando fecho os olhos, entro num mundo de magia. Pode não ser real. Mas é real para mim e isso basta. Chegará o dia de fechar os olhos de vez. Nesse dia riam comigo. Nesse dia festejem. É de olhos fechados que sei ser feliz. Foi de olhos fechados que aprendi que a cegueira é uma doença para quem acredita que ter os olhos abertos é o mesmo que não acreditar em nada. Foi de olhos fechados que aprendi a ver...

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

2 comentários:

Amanda Santos disse...

Sempre textos lindos aqui no blog, e esse é mais um que eu recomendo a todos. Continue assim sempre. beijo

Amanda Santos disse...

Esse é mais um texto lindo, que eu recomendo a todos. Continue sempre com toda essa inspiração! beijo