quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Pássaro da manhã



Há uma dimensão da vida que me cansa. Cansam-me os dias que não começam mas acabam, os dias que parecem não acabar nunca, os dias... Cansam-me as horas a olhar para a parede e as horas a pensar. Cansa-me o tempo e o pensamento que voa sobre as sombras cálidas das manhãs que nunca começam de manhã.
Por vezes, gostava de ver o sol nascer. O primeiro murmúrio de um pássaro livre a ecoar no silêncio de uma noite que se afasta com o clarear azul de um céu perfeito. Por vezes, gostava de respirar o ar frio e húmido dessa manhã que chega e de poder despedir-me com maior facilidade do beijo ténue da almofada no meu rosto.
Mas há uma dimensão da vida que me cansa. Que me cansa tanto que não posso fazer mais do que dormir e não querer voltar a acordar. É nessa dimensão que caio todos os dias, quando a noite se transforma em madrugada e os meus olhos não fecham para dar descanso à alma. É nessa dimensão que caio todas as madrugadas, quando finalmente o meu corpo desliga deste mundo imortal e desumano. E nunca acordo para a vida, para a viver, para querer vivê-la... estou sempre cansada de tudo. Estou sempre tão cansada de mim.
Talvez seja eu a culpada dos meus medos, das minhas dores, das minhas angústias frias e das minhas vontades mornas que nunca explodem em chama e nunca se mostram ao mundo.  Talvez eu seja essa dimensão da vida que me cansa e me atira para o desespero de não haver manhãs. De que me valem as manhãs? Não sou livre como esse pássaro que canta no silêncio e que pode ir onde quiser. Estou presa nas entranhas das minhas raízes. Estou presa num solo infértil onde não pode crescer mais nada além da minha própria mágoa.
Há uma dimensão da vida que me cansa e vivo nela. Sempre. Talvez um dia o sol dessa manhã fria venha acordar as raízes podres e as folhas orvalhadas e secas que trago no meu peito. Talvez. Não sei se algum dia a escuridão cortante vai transformar-se na luz do sol. Não sei se algum dia vou ser o pássaro que canta no primeiro indício da manhã...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

6 comentários:

Tânia disse...

Espero que sim. Tens o poder de seres esse pássaro, de seres o que quiseres - a tua tristeza não tem de ser nem é maior do que tu própria. Gostei muito do texto, conseguiste surpreender-me com a forma como consegues tornar um assunto comum tão original, mais uma vez. :) Beijinho*

Anónimo disse...

Perfecto,maravilhoso,incrível.Amei,parabéns Marina,minha linda escritora
Beijinhos Jenny ♥ ♥

Junice Souza disse...

Amiga MArina...vc traduz td q tb sinto...acho que nunca serei nem verei o passaro destas manhas....me consumo na minha agonia....que neste momento chega a doer

Pattry disse...

A Marina tem essa qualidade de escrever a alma dos outros..revejo-me em praticamente todas as suas letras..
Só tenho uma palavra : PERFEITO!

Selma Nascimento disse...

passando para visitar vc e seu blog.

como sempre colocando coisas lindas.

apareça no meu cantinho http://3fasesdalua.blogspot.com

selma

BRANCA disse...

como sempre surpriendente a profundidade dos teus textos fazes usando as lagrimas da alma e suas exencias....