terça-feira, 21 de maio de 2013

Em Paris



Vamos ser infelizes em Paris. Dizem que é melhor lá. Que o Sena acalma as mágoas e elas saem pintadas em sorrisos de Monalisa. Vamos ser tristes junto ao triunfo alheio dos arcos de pedra e caminhar por entre as iluminações amareladas que se fundem com o negro da noite e da nossa alma. Paris. Vamos ser infelizes em Paris?
O sol brilha de forma diferente pelas ruas azuis e brancas de Paris. Como se a cidade se prendesse em nós e reflectisse apenas o que de melhor existe dentro dos corações quebrados. A alegria é um reflexo na nossa pele, ecoa e escorre. Permanece. Assusta. E a mágoa, tão presente, faz-se de esquecida nos recantos da nossa mente e revive em espasmos sem sentido, de volta em vez, em frente aos campos e jardins floridos que se estendem junto ao rio.
A arte vive em Paris. E tem telas e cores. Tem um sem-fim de formas e de desejos. Mora nas roupas, nas pinturas, nos teatros e nas óperas. Vamos ser tristes lá, por entre a arte triste que mói e entra nas veias, correndo, parando, correndo de novo. Vamos ser miseráveis na pulsação de uma cidade que acorda de noite e que festeja o desespero da escrita, do teatro, da música...
Vamos ser infelizes em Paris. Paris esbate a tristeza com um toque de superioridade imortal. E o amor faz-se em luxúria junto aos moinhos de mundos escarlates e lembra-se novamente que é amor no topo das torres férreas de onde se vê até ao infinito.
Se somos infelizes aqui, por entre o negro e o sujo, por entre a podridão e as trevas, porque não ser infeliz lá, onde o céu é azul e o rio corre livremente, espelho de milhares de luzinhas encantadas?
Vamos ser infelizes antes lá. Lá, em Paris. Se não podemos decidir quando se dará o fadado encontro fortuito com a felicidade, se não podemos apressar o momento em que a dor atenua e esbate e desaparece. Se não podemos arrancar um sorriso dos confins da nossa alma. Se somos tão impotentes, possamos ao menos ser tristes noutro lugar.
Escolho Paris. Lá a tristeza soa a contentamento e artistas cheios de mágoas dizem-se taciturnos com um sorriso. Anda. Vamos. Sigamos passo a passo, tristemente, rumo a essa cidade de luz.  Se é para ser triste, que seja em Paris...

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet

6 comentários:

Tânia disse...

Muito original e bem escrito. Quero mais textos destes! ;)

Albertina Vaz disse...

É verdade mesmo: começa a ser impossivel ser feliz em qualquer parte do mundo. Por mim acho que temos de nos agarrar às coisas pequeninas do dia a dia e fazer delas a nossa felicidade. Olhar uma flor no campo, uma ave que planeia, um flamingo que se espraia. E viver com o a partilha do pouco que se tem com o outro, aquele que à nossa volta vive também. Muito interessante: gostei

Glória Almeida disse...

A sua escrita é sempre tão profunda e eu entro tanto dentro dela, que consegui ficar angustiada com este texto.
Mas eu não me revejo nele felizmente...eu consigo ser feliz na mais recôndita aldeia :)
Gostava de lhe dar só um pouquinho que fosse... <3

Jennyfer Aguillar disse...

Texto incrível,eu amei a escrita,o contexto,tudo.Um encaixe perfeito :D
Cada vez mais me orgulho de poder ler vossos textos.
Parabéns querida
Amo-te beijinhos Jenny ♥

AnaM.Gnoatto disse...

Eh verdade ........hoje está muito difícil ser feliz ,mesmo em nossas lares .....vamos viver o dia como se fosse sempre o último,porque o amanhã ninguém sabe ...seu texto eh muito original e tem um "que " de verdade ......venha sempre às cumadinhas .........ficamos felizes
....bjs

Alice M. disse...

Amei demais esse texto, sua forma de escrever é inexplicável!
Postei uma parte desse texto no meu Facebook, e recebeu várias curtidas! Parabéns, texto muito bom mesmo.

http://confidencegp.blogspot.com.br/