segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Bailado azul



Ele. Uma coisa que devem saber sobre ele é que ele não sabe dançar. Sim. É importante. Ele não sabe dançar. Afirma-o com convicção. Reafirma-o quando alguém o rebate com a expressão feita do "toda a gente sabe". Ele diz que não. Que não sabe dançar. Que tem dois pés esquerdos. Que é descoordenado. E isto não é um pormenor. Isto é algo que devem saber sobre ele. Algo que precisam de saber, para entenderem a vastidão de sentidos que lhe compõem o eu. Ele não sabe dançar.
Conheci-o. Primeiro com olhares fugazes e sem que se trocasse uma palavra. Depois, com palavras ondeando sem que os olhares se cruzassem. Conheci-o e ele disse-me, algures entre letras e músicas, que não sabia dançar. Mas sabia da vida. Sabia de música. Sabia dos pormenores gigantes que tornam o mundo especial. Sabia de ciência. Sabia que não sabia dançar.
Tinha os olhos azuis. Não levemente azuis, como vulgarmente aparecem por aí. Mas azuis. Aquele azul que é mais azul que o céu e o mar somados. Um azul profundo. Qualquer coisa entre índigo e turquesa. Uma cor que ainda não tem nome. E, quando as palavras se misturaram com o olhar, numa proximidade que nos permitia falar e perdemos as horas a mergulhar nos olhos um do outro, o coração acelerou. O meu coração que não sabia que podia seguir acelerou, enquanto o dele, que estava certo de não saber dançar, fazia o mesmo.
As nossas palavras e os nossos olhares não se mantinham numa temática. Era o meu melhor amigo e falávamos sobre tudo. O mais trivial e o mais importante. Falávamos sobre o estado do tempo, do país, da vida, da alma. Às vezes, por entre as conversas, lá vinha a frase, a eterna frase que devem manter em mente: "não sei dançar". E é importante saberem isso sobre ele. Ele não sabe dançar. Dizia não saber. Acreditava piamente nas palavras que dizia.
Não saber dançar era o escape imediato para não ver que já dançava. Conheci-o em olhares fugazes, vendo-lhe os dedos a dançar num teclado de piano. Os dedos dançavam como os seus olhos compenetrados, cujo brilho ondeante tinha valsas de contentamento e realização. Dançava sim. Atrás das teclas pretas e brancas do piano, ele dançava em arcos-íris de cor. Sorria, com leveza, às vezes. Deixava o rosto tenso, nas outras. Mas o importante era isto: deixava os dedos dançar.
Descobri, quando passámos dos olhares fugazes, sem palavras, às palavras fortes, sem olhares que ele também fazia dançar as palavras. "Fui eu que escrevi a letra", contou-me, certa vez. Havia nas palavras, inerente, a dúvida. Ele não sabia que as palavras, tão simples e tão complexas, também lhe dançavam. Mas eu sabia. Sempre soube. Mesmo quando ainda não sabia que queria ser o par dessas danças de eternidade.
Um dia, quando as palavras e os olhares já se cruzavam e ele dizia "eu não sei dançar", o coração dele dançou. Dançou com o meu. Compassado, enérgico. Os passos dos nossos corações não eram simples. Eram tangos, valsas. Tinham um quê de ballet, de contemporâneo, de danças do mundo. Mas eles dançaram com simplicidade porque, mesmo que não o soubéssemos, era em sintonia que dançavam. Dançavam no uníssono que nos ligava as raízes que, entretanto, haviam de se enlaçar, escondidas sob a terra, como se não pudessem mostrar-se ao mundo.
Até que, já de palavras, olhares e danças cruzadas, as nossas certezas se uniram na compreensão de que a felicidade era um lugar a dois. E era. Então, com movimentos simples e subtis, caminhámos, pé ante pé, na direcção do contentamento.
Ele. Uma coisa que devem saber sobre ele é que ele não sabe dançar. E isto é realmente importante. Ele diz que não sabe dançar. Que tem dois pés esquerdos. Que é descoordenado. E, não, acreditem em mim: isto não é um pormenor! Isto é algo que devem saber sobre ele. Algo que precisam de saber para entenderem a vastidão de sentidos que lhe compõem o eu. Ele não sabe que sabe dançar.
Devem saber isto sobre ele para compreenderem uma coisa: ninguém dança melhor do que ele. Todos os dias de manhã, quando me diz "bom dia", eu sinto a alma dançar um bocadinho com a dele. E, quando me abraça, os nossos corpos enlaçados vibram numa qualquer coreografia. Quando os nossos lábios se tocam, tocam também as canções que nos fazem discorrer em movimento sobre salões de baile. E vamos dançando, todos os dias. A todo o momento. Vamos dançando juntos, em valsas de alma e coração.
Ele. É isto que realmente devem saber sobre ele, para poderem compreender. Ele diz que não sabe dançar. Não vale a pena contrariar as suas palavras convictas. Mas, apesar do que diga, a verdade é que ele sabe. Sabe e dança comigo como nunca ninguém dançou. Faz a minha alma dançar como nunca ninguém fez. Deixa a dele dançar com a minha. E se, olhando para ele, não virem a dança constante dos seus olhos, dos seus dedos, das suas mãos, dos seus sorrisos, da sua alma, do seu coração, verão sempre apenas a fachada bonita dos olhos azuis, sem nunca o verem. Olhem melhor. O importante é isto: ele realmente dança... e nem o sabe.

Marina Ferraz
Imagem retirada da Internet

2 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Que lindo minha amiga,é um texto tão bonito e leve,me fez refletir bastante.A descrição dos olhos azuis é perfeita.
Parabéns querida,beijinhos Jenny ♥

Jessica A. disse...

Texto perfeito,as palavras escolhidas são muito boas. Amei tudo :)