terça-feira, 1 de outubro de 2013

Dominó



Para o meu avô

Dominó. As peças distribuíam-se. O olhar perdia-se nas pedras. O sorriso vinha, tímido. Os dedos encardidos pelo tabaco eram ágeis no movimento. Pousavas uma pedra atrás da anterior. Fazias chocar os extremos com um baque seco sobre a madeira da mesa. Semicerravas um pouco os olhos no sorriso e dizias, num tom de aviso claro e doce, "é a tua vez".
Tardes e tardes a fio, ritmadas pelo baque das peças, pelos olhares de ternura, pelas palavras aveludadas. Era a minha vez. Depois a tua. Depois a minha. Intercalávamos movimentos até as peças estarem dispostas sobre a mesa, sem que nenhuma sobrasse nas nossas mãos. E quando já não havia peças nas mãos, havia uma corrida de dedos, virando-as de novo, distribuindo-as de novo, olhando de novo, jogando de novo...
Nunca nos cansávamos. Às vezes, falávamos de tudo e nada. Outras vezes, silenciávamos as palavras. As nossas palavras eram amor. O nosso silêncio era conforto. Não havia nada em nós que não fosse feliz e completo.
É disso que me lembro melhor: do amor e do conforto. Dos pormenores. Pormenores como a forma ágil com a qual jogavas dominó. Pormenores como o cheiro à folha do tabaco, que de tão natural em ti, parecia doce. Pormenores como os teus dedos encardidos, quase sempre segurando o cigarro seguinte. Pormenores como o olhar calmo e perdido no horizonte do invisível. Pormenores como o tom e a doçura com o qual me informavas de que era a minha vez.
Eu era menina. Tu eras ancião. Sabias do dominó e da vida muito mais do que eu sabia ou viria a descobrir com os anos. Sabias que eu era criança mas viria ser mulher. Sabia que eras homem mas podias ser criança. E sabias que eu havia de recordar essas horas que me marcaste com o preto e branco da simplicidade.
Era realmente simples. Abria-se a caixa do dominó. Misturavam-se as peças dançantes. Distribuíam-se  com rapidez. O teu olhar perdia-se nas pedras mal o jogo começava. O sorriso vinha, tímido, brindar a primeira jogada. Os teus dedos. Ah, os teus dedos estavam encardidos pelo tabaco e nunca se cansavam de agarrar o cigarro seguinte. Mas eram ágeis no movimento e moviam as peças sobre a mesa. Pousavas a pedra atrás da anterior. Fazias chocar os extremos com um baque seco sobre a madeira da mesa. Semicerravas um pouco os olhos no sorriso e dizias, num tom de aviso claro e doce, "é a tua vez".
Ouço-te a voz. Ainda a ouço, a dizê-lo. Ouço-a e, por ser a minha vez, escolho construir-te, pormenor a pormenor, nas pedrinhas do jogo de dominó que guardei para mim, qual tesouro de prata e rubi. Sinto a saudade adensar e o amor intacto. É a minha vez. Agora vai ser sempre a minha vez porque não posso dizer que é a tua e esperar que o ouças. Mas a memória fica e, quem sabe? Talvez um dia, nessa terra distante onde é sempre Verão, possamos sentar-nos numa mesinha de madeira, com sorrisos leves para retomarmos esse jogo preto e branco, de amizade e amor, de palavra e silêncio, de avô e neta...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Minha querida este texto é de longe perfeito,gostei muito de vossas palavras e do modo como os sentimentos transpassaram as palavras.Traz saudade,amor,carinho e ternura.É doce e me fez bem ler.
Parabéns,foi um dos melhores textos que já li,além é claro,de todos os outros.
Beijinhos Jenny ♥