segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Acende a dor



Acende a dor. Acende agora a dor. Acende-a. Acende-a para o meu coração não estar vazio. Ouviste bem! Acende a dor. Prefiro estar magoada a estar sem mim.
Acende a dor. O fim começa sempre no inesperado. No inesperado de um beijo que não aquece. No inesperado de uma chamada que não chega. No inesperado das palavras ríspidas lançadas ao ar. O fim começa onde a eternidade se esvai. O fim começa onde marés de nada principiam. Acende a dor. Prefiro o sofrimento ao eco do vazio.
Não quero ser o fantasma do nosso velho amor. Não quero ser o espectro que sorri, em memórias sadias de tempos que não regressam. Não quero ser a menina de tez pálida que se recusa a ser mulher. Por isso, se ainda te resta um pouco de afeição por mim, eu imploro-te: acende a dor. Acende-a para o ódio substituir a paixão. Acende-a para o grito cobrir o silêncio. Acende-a para que as lágrimas substituam a perfeição do mais falso dos sorrisos. Se ainda te importas, se algum dia te importaste, este é o meu pedido. Acende-me a dor. Acende-a para o meu coração sentir algo além deste amor de fel.
Sofrer não é uma condenação. Os olhos sofridos de um poeta vêem o azul do mar mais claro e o horizonte mais perto. As mãos doridas de um escritor recebem o desassossego com um abraço sobre a caneta. E as palavras nascem, uma a uma, delineadas sobre a imperfeição do que se diz no papel.
Acende-me a dor. Eu sei viver com a mágoa e com o sofrimento. Trato por irmãs a saudade e a solidão. Acarinho o medo com as pontas dos dedos e afago o desassossego com ternura. Recebo em mim as maldições e canto as mais belas canções de embalar à tristeza. Mas não sei viver assim, sem sentir nada.
Por isso, acende-me a dor. Acende a dor para eu poder viver sem ti. Acende a dor para que ela possa colorir os espaços negros que em mim deixaste, quando a visão das tuas costas criou em mim este sentir que não é dor, nem medo, nem tristeza... mas apenas vazio.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

3 comentários:

Cris Costa disse...

Perfeito

Jennyfer Aguillar disse...

Gostei bastante,é um texto com muito sentimento,triste,porém belo.
A escrita é como sempre fantástica minha querida.
Parabéns,beijinhos Jenny ♥

Anónimo disse...

Tenho gosto,escrita profundamente emocionante,é boa do começo ao fim