terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Nunca te dei nada



"Nunca te dei nada", disseste. Mas disseste-o sem saberes o que dizias. Sem sonhares, sequer, que me dás mais do que eu alguma vez tive. E eu sorri, quando o disseste, não porque concordasse com as tuas palavras mas porque sabia a verdade e a verdade era, para ti, uma desconhecida a passar nas ruas do desassossego.
"Nunca te dei nada". Como é possível?! Deste-me, para começar, o brilho aos olhos que permaneciam baços, presos à moldura desfocada de um passado que não o merecia. Deste-me as palavras, quando a caneta que passava no papel desenhava apenas riscos e desenhos sem sentido, na busca da inspiração. Deste-me uma oportunidade. Uma segunda oportunidade. Uma terceira... deste-me mil oportunidades, por entre as desventuras das separações do mundo. E voltaste sempre. Deste-me a presença. E nunca ninguém ma tinha dado.
Deste-me um pedaço de ti. Primeiro, deste-mo em amizade, depois em paixão, depois em amor. E, de forma inconsciente, deste-mos todos ao mesmo tempo, fazendo desse pedaço de ti um pedaço meu.
Deste-me a felicidade. A felicidade que eu não sabia se existia, aonde estava ou, sequer, se era real. Deste-ma. Deste-ma, enquanto me davas a certeza de que as coisas boas também são tangíveis. Deste-ma no ensinamento das premissas mais sensatas do mundo, enquanto me ensinavas que tudo o que não nos faz sorrir não merece o parco tempo da nossa existência efémera no mundo. Deste-me um sorriso nessa partilha constante e sábia. Deste-me um sorriso e a capacidade de olhar melhor para as mesmas coisas.
Deste-me a segurança de saber que existe um amanhã melhor, depois de um hoje perfeito e deste-me algo por que vale a pena viver e morrer. Deste-me o alento de lutar em batalhas, a sabedoria para escolher as guerras e a consciência de que posso vencer sempre, desde que o meu coração comande tudo o resto.
Deste-me a força de mil homens e a sensibilidade da Natureza, em abraços que prometiam que eu podia ser sempre eu, sem ter medo nem barreiras. Deste-me a mão e aceitaste-me a alma, à qual deste alento para acreditar que, além das estrelas do céu, existe um Universo que só encontra par no teu coração infinito.
"Nunca te dei nada". Deste-me estas palavras. Mas eu não as aceitei. Não as aceitei porque, quando as disseste, tinhas dado a tua mão à minha e o teu olhar ao meu. E tinhas-me dado o calor do amor, o brilho ao olhar e a esperança do futuro... Disseste "nunca te dei nada" mas eu não aceitei. Não aceitei e não aceito. Porque me dás mais do que alguma vez sonhei vir a ter... e estou a usar o sorriso que me deste.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

4 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Achei o texto lindo,é aquilo de a pessoa pensar em apenas ter nos cativado,mas sem poder nos retribuir,o que é claro que é mentira,pois quando somos cativados qualquer mínima coisa basta.
Perfeito,parabéns Marina
Beijinhos Jenny ♥

Anónimo disse...

Tenho gosto,muitos parabéns
realmente bom e traduz mor parte do sentimento dos amantes.

Jessica A. disse...

Seu texto é maravilhoso, gostei muito :)
♥ ♥

LIRIO DO CAMPO disse...

Muita emoção nos a nos remoer...faz lagrimejar ahh...lindooo...