terça-feira, 13 de maio de 2014

Longe do meu coração



Eu quero-te longe do meu coração. Onde não possas ferir-me. Mas o amor foi um caminho sem retorno que percorri sozinha. Nessa solidão a quatro pés, acorrentei-te às paredes da minha alma e deixei-te lá, até te fundires com as paredes e te tornares parte de mim.
Eu quero-te longe do meu coração. Quero que desapareças na confusão das memórias. Que te enterres no meu esquecimento. Tão fundo, tão longe, que o teu nome me soe apenas a desconhecido e o teu rosto seja tão vago como o de qualquer vulto fugaz que por mim passou na rua.
Eu quero-te longe do meu coração. Quero-te na distância segura do não chamamento. Onde não fique à espera das tuas palavras e tu não fiques à espera dos meus regressos. Onde não haja retorno possível nem frases feitas. Quero-te no olvido do passado. No olvido do presente. Como se nunca tivesses existido.
Mas o amor? Esse amor sem retorno que percorri sozinha. Esse amor sem sentido que cultivei em mim, como se dele pudessem vir bons frutos. Esse amor traiu-me. És o meu coração. Tens o meu coração. E comandas sobre as sombras incautas desse mono existencial sem batimentos nem pulsações.
Gosto de pensar que sobrei. Que sobrei depois de terem destruído tudo. Que sobrei e me basto. Mas eu não sou a sobra do amor. Eu sou o amor. Esse amor ridículo que ecoa dentro do meu vazio. E, como o amor foi um caminho que percorri na solidão dos dias, vagueio por entre a inexistência de tudo, em busca de quem nunca caminhou comigo.
Quero-te longe do meu coração. Mas tu és o meu coração. Continuas preso nas suas paredes, a comandar cada batimento, a ferir em cada latejo triste.
Nunca te tive e és tudo o que tenho. Nunca me amaste e és tudo o que sei sobre o amor. E não faz sentido. O amor não faz sentido. Quero-te longe do meu coração, onde não possas ferir-mo. Mas és o meu coração e, sem ti, sem batimento, sem pulsação... só resta a ferida, só resta a dor, só resta a morte.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

2 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Ameii,muito bom,é tão triste e tão bonito que é como se uma cena passasse a frente de cada um de nós,mesmo daqueles que,assim como eu,não passaram pelo amor.
Parabéns querida.
Beijinhos Jenny ♥♥

MIDTCLA disse...

este texto meche como se arranca as as crostas de um doce tão docinho passa a misturar -se com o queimado do fundo esquecido ao fogo do coração...inerente que amplia ao âmago do momento...