segunda-feira, 26 de maio de 2014

Directamente nos olhos


Olha-me directamente nos olhos. Não para os meus pés. Não para as minhas mãos. Olha-me directamente nos olhos. É lá que estão as lágrimas que plantaste no meu coração. É por lá que escorrem e se estendem e expandem. Por isso, se fazes favor, larga o tecto, o chão, as paredes. Olha para mim. Olha-me directamente nos olhos.
Se choro é porque magoa. Não é porque quero que tenhas pena de mim nem porque fantasio ver o arrependimento no teu rosto. Se choro, é porque algures, no centro dessa tua insatisfação constante com o mundo, saí ferida. E a dor, aprende: ela permanece nos recantos do meu corpo, sem dar tréguas e acumula e escorre pelos olhos na forma de água e sal.
Então, se a culpa é tua, se me fizeste chorar, não me faças sentir que tenho de esconder o rosto na almofada ou de limpar a cara com as mãos tristes e fingir que estou bem. Se a culpa é tua, pelo menos olha-me para o rosto erguido, onde deixo correr livremente o rio das desilusões. Olha para mim. Olha-me directamente nos olhos.
Eu sei que a imagem do céu, do mar, das pessoas te conforta. Mas não olhes para o conforto. Olha para os meus olhos. Olha para o local onde semeaste terrores maiores que o tempo. Olha para eles e sente, ainda que momentaneamente, aquilo que também eu sinto. Não é conforto. Não é felicidade. Então, não: não sinto céus e mares e pessoas. Porque não foi nada disso que me deste. Deste-me apenas o motivo das lágrimas. E o motivo das lágrimas é a dor. E eu não fiz por merecer a dor. Pois não?
Não te acobardes atrás de olhares de soslaio para aqui ou ali. Não te indignes com o rosto molhado da pessoa que feriste. Encara-o. Encara-me. Olha-me directamente nos olhos.
Para que queres tu a paz que me roubaste? Serve-te, agora, de consolo? Para que a queres? Porque não quiseste antes, quando dos teus lábios saía apenas o desatino frio das horas, as palavras duras e impensadas, gritadas, ecoando pelos recantos trémulos de ti. Se me deste a raiva, deixa que te pague em lágrimas. Aceita o retorno com a mesma força que imprimiste nessa desnecessária amostra de cólera.
Olha-me directamente nos olhos. Espelhos descontentes do teu próprio rosto enfurecido. Espelhos diluídos das palavras que disseste. Não busques o conforto do que não é reflexo de ti. Não busques o conforto do que não te chora a brutalidade louca dos momentos que passaram há dois segundos atrás. Estou aqui. Olha para mim. Olha-me directamente nos olhos.
Não vou baixar o rosto. As tuas palavras eram negras. As minhas lágrimas são transparentes. As tuas palavras eram cobardes. As minhas lágrimas são fortes. É por isso que não deixo o olhar quedar no chão. É por isso que, mesmo chorando, de olhos desfocados e loucos, olho para a tua busca constante pelo conforto. Não procures. Olha para mim. Olha-me directamente nos olhos.
Olha-me directamente nos olhos. Lá, onde estão as lágrimas que plantaste no meu coração. Porque elas estão lá por isso mesmo. Porque tenho coração. Porque to dei. Porque sabes que podes plantar nele o que quiseres. Porque hoje escolheste plantar nele a dor e não consegues, sequer, olhar-me directamente nos olhos.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

4 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Ahhh,é um texto lindo. Profundo e tão triste que tem uma beleza infiguravel.
...olha-me directamente nos olhos....
Simplesmente perfeito. Parabéns querida.
Beijinhos doces Jenny ♥

Jessica Aguillar disse...

Muito bom, cheio de emoção ♥♥

Jessica Ellen disse...

Muitoo lindo, profundo e emocionante... todos os seus textos passam uma verdade incontestável, um sentimento que nos invade...
Parabéns!

LIRIO DO CAMPO disse...

Profundo...triste em sussuros lindo...um setimento incontestavel...