segunda-feira, 19 de maio de 2014

Parar



"Toda a gente precisa de parar um pouco". Foi com esta frase que construí o desassossego. O desassossego de saber que parar não é morrer mas antes olhar para a vida. O desassossego de saber que o cansaço de horas e horas de trabalho não me consumiriam o bastante para cair no confortável refúgio de um sono pesado. O desassossego de saber que, parando, não haveria nada que me desse a paz de não pensar.
"Toda a gente precisa de parar um pouco". Esta frase enunciada, em tom aviso, na voz inconformada de quem julga que é preciso mais do que a rotina imparável para que a vida possa ser vivida. Esta frase, duplicada, num tom amargurado e triste, pela voz daqueles que, olhando, não conseguem já ver além do negro arroxeado das minhas olheiras. Esta frase dita, em tom de súplica pelas vozes e repetida, até à exaustão, pela minha mente cansada.
Continuo. Não posso parar. Então continuo, simplesmente. De um lado para o outro, numa busca incessante pelo cansaço. Com o desejo sobre-humano de encontrar a paz. Com a intenção inquebrável de encontrar ordem no caos que fica do lado avesso de mim. Não posso parar. Parar é não procurar nas esquinas de mim pelas saídas. Parar é ser obrigada a pensar no tempo e na vida e nos desalentos. Parar é entrar na roda viva das memórias que massacram o que devia ter ficado algures num passado que nunca passou.
"Toda a gente precisa de parar um pouco". É o que dizem. É o que dizem com tom de certeza, expressando uma sabedoria anciã. E eu ouço. Mas não acredito. Talvez eu seja a excepção a essa regra. Não preciso de parar. Parar um pouco seria dar ao corpo permissão para sentir a mágoa. Parar um pouco seria dar à alma um pretexto para se deixar cair nos abismos da saudade. Parar um pouco seria permitir que os fantasmas adentrassem a divisão fria do meu coração e que brincassem insensatamente com as resenhas impossíveis das minhas muitas desilusões.
Parar. Parar seria aceitar a queda. Aceitar que se pode cair, mesmo já estando de rojo, no chão rugoso da dor. Então vou. Talvez caminhe para o abismo, passo a passo, tarefa a tarefa. Talvez arraste comigo o cansaço e ele atrase a minha demanda pelos reinos da felicidade. Não importa. Não posso parar. Não posso ceder ao sono, à quietude, ao torpor.  Não posso deixar que levem de mim a única coisa que sobrou.
Não quero parar um pouco. Não quero dar a mim mesma a satisfação de encontrar a preguiça que se move lentamente pelas veias, em vez de sangue nem quero dar aos meus olhos o gosto de chorar pelo passado. Não quero parar. Quero continuar a fazer o que puder. Quero continuar a ser eu. Pararia, com facilidade, se o mundo não fosse um lugar tão cruel e a vida não fosse a história que eu quero passar à frente. Pararia, sim! Mas o que é que vou fazer quando parar e tu não estiveres aqui?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet



Música e Letra de Helder Godinho
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1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Realmente "Toda a gente precisa de parar um pouco". Respirar e pensar melhor. Amei o texto. Parabéns minha querida,como sempre textos magnificos.
Beijinhos Jenny ♥