quarta-feira, 13 de abril de 2016

Espelho meu


Se não fosses tão bonita, encontrarias no caminho das flores os espinhos e, nas ruas da fidelidade, os contornos da dor pejados de crueza.
Se não fosses tão bonita: Em vez de sorrisos, pedras. Em vez de palavras, silêncios. E tropeços. E rasteiras. Pedaços reiterados de injustiça nos jardins da serenidade.
Se não fosses tão bonita. Mancharia a pele branca o negro da mácula e trarias sob o olhar a insónia tatuada das noites choradas.
Se não fosses tão bonita: solidão de fel na promessa de alguém. A pessoa que diz que vem e não chega. Aquela que chega e te rasga a fé. Aquela que vai e te rasga a alma. Pedaços de lâmina entre as pulsações, cortando o peito por dentro. Palavras de desagrado, mentidas, oleadas nas mãos secas da desumanidade.
Se não fosses tão bonita, olharias o horizonte para descobrir a parede de betão e concreto. Cada passo seria a luta de uma eternidade. Um avanço duro, esgotado de forças, esgotado de ti. E o sangue nas mãos que embatem contra o destino que se não move. Fumo em vez de nuvens. Penhascos em vez de céu.
Espelho meu, espelho meu. Se não fosses tão bonita. Nas tuas palavras de atrito. No teu pensamento interrogativo. Na tua forma de ver o mundo. Se não fosses tão bonita. Na brusquidão da tua sinceridade. No erguer do sobrolho da tua inquietude. Na profundeza da tua mente irrequieta. Nas tuas perguntas dispersas, que descentram os limites e incomodam as pessoas. Se não fosses tão bonita...
Amei-te a alma. Lá, no jardim dos espinhos. Por entre as pedras, e os silêncios, e os penhascos. Espelho meu, espelho meu. Um medo que atordoa. Um pensamento que mói. E plantei flores no jardim da mágoa, construí muralhas com as pedras do caminho, cantei canções nos silêncios ancorados do mundo. Dos penhascos fiz asas. Dos espinhos fiz armas. Não sabia que serias tão bonita.
Espelho meu, espelho meu. Pela beleza do teu rosto que te suaviza a rudeza das palavras. Pela leveza do teu corpo que emerge as noções do teu questionamento. Pela forma ténue dos movimentos que agradam mesmo aos pobres de espírito. Sou eternamente grata aos Deuses.
O mundo que embateu contra mim, embala-te. As pessoas que me pisaram, elevam-te. O mundo que me destruiu, coroa-te. Mas ainda és espelho de mim. Não te perdeste no embalo do mundo nem te iludiste com a realeza das vénias.
Se não fosses tão bonita... o mundo seria diferente se não fosses tão bonita. Mas tu não. Tu serias igual. E ainda terias as asas, e a música, e a muralha. Ainda terias um jardim de flores plantadas. E ainda me terias ao lado, empunhando as armas de espinhos. Chegarias ao horizonte. Nem que te levasse ao colo.
Espelho meu, espelho meu: se não fosses tão bonita, ainda serias o meu mundo.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

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1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Que texto lindo Mah :D
Essa suavidade das palavras,as nuances,ficou tudo incrível junto :)
Eu nem sei o que dizer,porque tudo parece muito pouco para expressar a profundidade e grandiosidade das suas palavras,literalmente me deixou sem fala hehe
Meu trecho preferido foi "Espelho meu, espelho meu. Pela beleza do teu rosto que te suaviza a rudeza das palavras. Pela leveza do teu corpo que emerge as noções do teu questionamento. Pela forma ténue dos movimentos que agradam mesmo aos pobres de espírito. Sou eternamente grata aos Deuses."
Parabéns :D
Beijinhos,Jenny ^.^