terça-feira, 19 de abril de 2016

Retoques


A mulher entrou. E era lindíssima. Mas o mundo não a via.

Com uma voz temerosa, apresentou a decisão: "Quero abandonar o que é único e selvagem em mim... preciso de uma vida mais fácil".

Sorriram. Sorrisos de plástico. Todos iguais. Anuindo. Como os cachorrinhos de plástico nas bagageiras dos carros. Entusiasticamente. Disseram-lhe: "Apenas alguns retoques e será perfeita". Por um preço. Ela queria pagar o preço. A invisibilidade pesava-lhe nas costas como um tormento de muitas eras.

Retoques.

Começaram pelas roupas. Despiram-na. Mas não a despiram apenas de roupa. Tiraram-lhe a gordura das ancas, da barriga, das nádegas, das coxas. Sugaram-na por tubos e tubinhos. Encheram-lhe os lábios e os peitos. Atenuaram os traços das rugas junto aos olhos, junto aos lábios.
Esticaram-lhe a pele. Corrigiram-lhe a miopia. Partiram-lhe os óculos e deitaram-nos fora. Mas olhos negros como os dela ficavam pesados numa mulher. Puseram-lhe lentes. De cor. Azuis.

Retoques.

Levaram-na para uma sala. Pintaram-lhe o cabelo. Esticaram-lhe o cabelo. Amaciaram-lhe o cabelo. Hidrataram-lhe o cabelo. Desfrisaram-lhe o cabelo. Fizeram-lhe madeixas no cabelo. Estipularam o lugar onde devia surgir uma ocasional onda no cabelo. Domaram-lhe o cabelo.
Aproximaram os lasers. Livraram-se dos pelos. Que chatice, uma mulher ter pelos onde devia ter apenas pele. Não há espaço para pelos na perfeição. Fizeram-lhe o buço. E as axilas. E as pernas. E as virilhas. E as zonas intimas.

Retoques.

Pintaram-lhe a pele esticada. Com pré-bases e bases e pós bases e pós para depois das pós-bases. Pós soltos. Pós compactos. Pós do tom da pele. Pós bronzeadores. Blushes. E puseram-lhe pestanas falsas. Arrancaram metade das sobrancelhas. Pintaram as sobrancelhas. Pintaram as falhas por entre as sobrancelhas. Maquilharam-lhe os olhos, agora azuis: sombras sobrepostas, esfumadas, esbatidas, aperfeiçoadas. Eyeliner. Máscara de Pestanas.
E nos lábios. Batom. Vermelho carmim, feito dentro da linha perfeita - também vermelha - sobreposto com uma camada de brilho voluptuoso.

Retoques

Vestiram-na com roupa justa, adequada ao novo corpo, ao novo look, ao novo penteado, à nova maquilhagem.

"Já sou perfeita?", perguntou, olhando para si. E a resposta foi rápida: "Apenas mais um retoque e será".

Retoques.

Tiraram-lhe o cérebro. Silenciaram-lhe a voz. Programaram-na para anuir. Tornaram-na portadora do "sim" perpétuo, fosse qual fosse a pergunta. E, de olhos presos no infinito do espelho, ela soube que tinha conseguido.

O autómato saiu. Agora, era perfeito. O mundo aplaudiu.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

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1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Nossa,não sei o que dizer desse texto *0* é incrível,verdadeiro e é uma lição que todos deveriam ler.As pessoas mascaram a própria alma pelo que entendem ser perfeição.Já dizia Renato Russo "Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade."
Enfim,ficou incrível,parabéns :D
Beijinhos,Jenny ^.^