quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

"i" - "!"



Um dia. Um dia, eu escrevi um “i”. Esse “i” foi uma porta. Essa porta levou a uma estrada. Essa estrada levou a um futuro. E o futuro tinha muito passado dentro dele. E o passado tinha muitas histórias. E as histórias eram feitas de verdade e de mentira e de imaginação. Um dia. Um dia eu escrevi um “i”. Estava vestida de preto. Por cima da saia de folhos. Por cima do corpo miúdo. Por cima do coração que batia. E pendiam-me os cachos do cabelo, em caracóis imperfeitos. Com laçarotes de fita. Ao xadrez.
O quadro era de ardósia. O olhar era de complacência. Os passos eram ofegantes preces, na direção do estrado. Os risos eram dor. E as palavras eram mudas. E eu não tinha nada. Além do giz. Além da mão. Além de mim. E do “i”. Esse que escrevi. E que estava certo.
Um dia. Um dia escrevi um “i”. O “i” foi um alfabeto inteiro. O “i” foi um dicionário inteiro. O “i” foi universalmente galardoado como senhor de todos os manuais. Havia milhões de possibilidades. Em cima do estrado. No meio do quadro. Na pintinha feita com a mão a tremer. Um dia. Um dia, eu escrevi um “i”.
Disseram-me que a vida era do direito. E eu tentei pôr o tempo parado no espaço da ilusão, que começava com “i”. Guardado para mais tarde, quando me faltassem vogais. Mas as consoantes da vida não bastam. E vêm consoante a história. Não são bem assim. Tomam sentidos diversos e pintam cenários que não são. O “i” não. O “i” era vogal. E uma vogal é só isso. Inspirei. Fui buscar inspiração a histórias. Fui invisível no processo. Tudo bem.
Eu sabia. Tinha escrito um “i”. E a vida não era vida sem esse “i” que eu tinha escrito quando, aos seis anos, decidi a minha vida toda.
Decidi que a vida não era do direito. Virei a vida ao contrário. Escrevi novamente esse “i”. Virei a folha ao contrário. O “i” passou a ser “!”, um ponto de exclamação. E passei a ser o que, insistentemente, me disseram que era impossível. Decidi que “impossível” é a única palavra com “i” que eu não quero na minha vida.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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