segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Cor de âmbar


Para o meu avô

Sento-me na varanda. Há amendoins. Cascas espalhadas pelo cinzeiro, onde algumas beatas se deixaram e a cinza se desfaz. Tens o cigarro entre os dedos e olhas o mar. O pôr-do-sol raia nos teus olhos e confere-lhe uma cor de âmbar, semelhante ao do whisky puro que diariamente agitas no copo largo antes de beber um pequeno golinho. E olhas para o horizonte. Esse que se reflete nas lentes dos teus óculos. E que te deixa os olhos mais claros. Mais doces. Ainda mais doces quando largam o horizonte e se pousam em mim. A noite cai. Tu fumas. Eu como amendoins. Uma confusão de cinza e cascas sobre a mesa, agitados e movidos pelo vento. E o verão está todo no som da televisão, atrás de nós, que debita palavras de um mundo que começa a desfazer-se. Tu sabes que o mundo está desfeito e eu não. Eu sou só uma criança. Sentada na varanda a comer amendoins até que o sol desapareça e as sombras da noite cheguem.

Elas chegam. Mas eu não tenho medo da noite. Estás ali. E eu sei. Não há sombra noturna nem mundo desfeito que vença esse teu jeito de homem forte. Sinto-me protegida ao teu lado, com o cheiro acre do teu cigarro e o toque inebriante do teu copo de whiskey, agora vazio. Sinto-me segura com o teu sorriso e com os teus olhos castanhos. Sinto-me segura contigo.

Pergunto-te se amanhã podemos ir ao parque infantil. E dizes que sim. Não o dizes porque te apeteça cumprir os três passos que nos separam do parquezinho central, onde se agitam baloiços e gritam crianças mais desinquietas do que eu. Dizes que sim porque não sabias – e nunca soubeste – dizer-me outra coisa. Nem mesmo quando eu queria torradas com manteiga e Chocapic ao lanche, pelo gosto de molhar no leite esse universo gorduroso de manteiga, depois do travo doce dos cereais já o ter maculado com a tonalidade beje. Nem aí me dizias que não.

Tentei não abusar muito dos meus pedidos mas sei que o fiz. Sentada naquela varanda, que ainda permanece, porque a pedra não se desgasta ao ritmo dos homens, eu fiz muitos pedidos. E ali comi muitos amendoins ao pôr-do-sol, depois de dias de praia que começavam pela madrugada, depois do leite com chocolate e das padas com manteiga. E, um a um, foste acedendo a todos. Porque os teus olhos, que eram castanhos, tinham a tonalidade do âmbar quando o sol se punha. E todo o seu mel vertia na minha direção, como seu fosse o mundo.

O tempo passa. A varanda vendeu-se, com o resto da casa, para nos livrarmos da garagem inundada e da confusão da avenida. O tempo passa. E a varanda, que permanece, quase sempre sem vida, sem alma, vazia de tudo, ainda está lá. Enquanto que tu, com toda essa vida, toda essa alma, tão cheio de tudo, já não estás.

Sinto que vivi o âmbar dos teus olhos com pedidos feitos aqui e ali, na voz de criança que sei que tive e que tu recebeste com ternura. E sei que cresci a fazer pedidos nunca negados. Fomos novamente essas duas pessoas sem idade que se sentam na varanda da minha memória, quando eu já não tinha a varanda e tu já não tinhas a energia.

Uma noite, levantaste-te da tua cama de hospital. Vestiste a camisa e puseste o boné. Libertaste-te dos fios que te prendiam às máquinas e caminhaste até ao meu sonho. Sorriste. Eu sorri. Falámos com os olhos sobre o que sentíamos, porque nunca fomos bons a usar os lábios para falar de sentimentos. Deste-me um beijo na bochecha, em despedida. Tinhas novamente o reflexo do sol poente nos olhos cor de âmbar quando viraste as costas. E eu, que sempre te pedi demais, chamei por ti e disse: “despede-te também deles”.

Nunca me negaste um pedido.

Nessa noite, toda a gente sonhou contigo.

E o sol que se pôs nos teus olhos, nunca mais nasceu.



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