terça-feira, 1 de outubro de 2019

O homem que lia romances policiais




Havia um romance policial pousado ao lado do cinzeiro. E cinza no cinzeiro. E uma mão que segurava um cigarro despreocupado, com os mesmos dedos que virariam as páginas do romance, em busca da resolução de um crime, depois de humedecidos na ponta da língua. E a vida era pacata. Fumo sem fogo, poderia dizer-se.

Ele era um homem de postura firme e sorriso amável. Que gostava de romances policiais. E de cigarros. E dos netos. Não na mesma medida. Na ordem inversa. Mais dos netos. Depois dos cigarros. Depois dos romances policiais. E apenas para quem sabe a forma como ele sorvia os cigarros, em contínuo e sem ligar aos excessos, pode um dia compreender a totalidade louca do amor que ele dava às criaturas que a filha tinha trazido ao mundo.

Não era um homem como os homens são. Era um avô. Como os avôs devem ser. Daqueles que, passo a passo, nos ensinam a ser gente. Daqueles que sabem sempre resolver os problemas. Mesmo quando os problemas são mundanos, mecânicos ou de saúde…

Recordo. Todos os problemas, para ele, facilmente se solucionavam. Ele acreditava nisso. Na solução que tomava forma em uma de duas maneiras: ou com arames ou com álcool etílico.

O carro não funciona? Usa arames!
A cadeira partiu? Enrola arames!
A persiana não funciona? Tenta arames!
A minha avó reclama? Ir aos arames.

O mesmo se diria da saúde.

Uma ferida? Álcool etílico em cima.
Dores de cabeça? Álcool etílico nas têmporas.
Dores de garganta? Álcool etílico na região externa ou, em casos extremos, diretamente nas amígdalas.

Não pode exatamente dizer-se, do homem que lia romances policiais, que fosse mestre de mecânica ou profissional de saúde. Mas o facto é que as pessoas se habituavam a não adoecer (ou a fingir que não adoeciam) e que até os objetos tinham medo de avariar ao pé dele.

Então, no dia em que o cinzeiro ficou sem cinza e o livro ficou pousado e triste, sem que ninguém o lesse, eu achei que a minha mágoa talvez pudesse, aos poucos, resolver-se também com os ensinamentos desse homem que me ensinara a ser gente.

Os anos passam. Com o cinzeiro sempre vazio. Com o romance policial eternamente parado na mesma parte da história. Aquela em que a falta de desfecho é, em si, a mais perpétua das conclusões.

Os anos passam. Não consigo remendar o coração com arames. Nem sarar a alma com álcool etílico. Nem tão pouco prender as memórias com arames. E matar a saudade com álcool etílico.

Consigo sentar-me em frente à mesa e pegar no livro. Folheá-lo sem o ler. E ouvir a tua voz. Sentir o teu olhar. E o aroma do cigarro. E ouvir a minha voz: “Eu quero ser escritora”. E a tua, outra vez. “Então, escreve.”

E o livro pousado sobre a mesa. E o cinzeiro com cinza. E eu, criança novamente. Inconsciente do dia em que quereria as tuas soluções milagrosas para as curas de todos os males.

Talvez a escrita seja o meu arame e o meu álcool etílico.

Então, escrevo.

Hoje escrevo para o homem que lia romances policiais. E que acreditava que tudo tem solução. Tudo. Tudo tem solução. Se não for arame; é álcool etílico.






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