terça-feira, 21 de maio de 2024

Morrer na praia

 

Imagem gerada por I.A.

Venha morrer na praia. Eis um excelente slogan para uma funerária. Ou para o Turismo de Portugal. Ou para o SEF.

 

 

Portugal. 943 quilómetros de costa atlântica. 594 praias marítimas. 220 praias fluviais. Temos 31 restaurantes com uma estrela Michelin. 8 restaurantes com duas. Também temos um dos melhores locais do mundo para observação astral – mais concretamente no Alqueva. E mais de 10 mil pessoas que dormem diretamente debaixo das estrelas, para o comprovar. Viver na rua, ao que parece, é lifestyle… que o diga a falta de medidas para apoio a pessoas a viver em condição de sem-abrigo …

 

Está tudo estudado. Investimento estratégico para os estrangeiros porem o olho em Portugal. E os residentes nacionais irem para o olho da rua… mas sem que ninguém seja evidentemente culpado. Um lobbyzinho aqui. Um golpezinho acolá. Processos cuidadosamente postos a trabalhar na bem oleada roda, onde a dignidade humana é posta para adoção, sem que ninguém veja muito bem como. Neste processo, a habitação acessível torna-se a mentira do século. Ter casa é um luxo. Ter dinheiro para a renda é um luxo. Ter créditos é essencial à vida. A corda ao pescoço é o novo acessório de moda. E a dívida é encarada com naturalidade.

 

Pobres que tentam ajudar outros pobres dão por si mais pobres. A pobreza envergonha-se de si mesma e a escravatura – que o país se orgulha de ter precocemente abolido, como se não tivesse sido dela percursor – toma novos formatos, à medida que as desigualdades sociais e económicas separam os eleitos e os desgraçados, como se a matéria que forma os corpos não fosse a mesma. E o mundo não fosse de todos.

 

E mais uma criança nasce, à beira-praia, trazendo consigo esperança. E mais um imigrante passa a fronteira, trazendo consigo esperança. Mas o vermelho na bandeira ainda impera. E todos sabemos que é vermelho-sangue e não vermelho-cravo. Ensinamos à criança que fomos heróis e ao imigrante que fomos hospitaleiros. Mas não somos heróis. Nem hospitaleiros. Destinamos um futuro de parca expetativa a ambos. E damos uma palmadinha nas costas nos feriados.

 

De repente, todos os problemas passam a ser culpa “dos outros”. Entenda-se que “os outros” somos nós. Mulheres que não querem seguir papéis tradicionais. Pessoas que querem amar quem bem lhes apetece, fora da convenção arcaica da monogamia heterossexual. Estrangeiros ou nacionais cujo tom de pele indiquem proveniência de outras regiões do globo. Portadores de deficiência. Artistas. Pessoas que pensam pela sua própria cabeça. O problema somos nós, “os outros”, porque não somos simplesmente capazes de aceitar que está tudo perfeito… e que o país é lindo… e que o verão está quase a chegar e é preciso estender a toalha sem uma única preocupação nas ventas.

 

 

Fala-se muito das alterações climáticas. O clima está a mudar, sim. Sentem-se os ventos da direita a soprar obscenidades populistas que varrem a mente de milhões. Neste país à beira-mar plantado, sente-se o retorno aos tempos da Outra Senhora. Ataques que ferem todos, incluindo os de mente varrida. E há tanto ódio. Tanta mágoa. É um país que chora. Pequeno demais para tanto sal.

 

 

Venha morrer na praia. Eis um excelente slogan o Turismo de Portugal ou para o SEF.

 

Talvez só para o Turismo de Portugal.

 

Os imigrantes, agora, parece que os querem mandar morrer longe…

 

 

 

943 quilómetros de costa atlântica. 594 praias marítimas. 220 praias fluviais. 31 restaurantes com uma estrela Michelin. 8 restaurantes com duas. Um dos melhores locais do mundo para observação astral.

 

Por favor, ponham os olhos nas imagens promocionais que se seguem. Verão que não é tão difícil ignorar os 10.773 sem abrigo.


Marina Ferraz




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