Já não há. Nem estrelas no céu, nem no mar, nem nos olhos. Parece que alguém andou por aí, a apagar o brilho dos astros e das ondas e dos sonhos alheios. Senhores, tenham dó de quem caminha neste mundo. A voz sai-me pesarosa e densa. Chamam-lhe melodrama, mas não me ouvem. Recomendam uns ansiolíticos orais. Eu recomendo que os usem como supositório.
As estradas agredidas estão danificadas. Umas pelas chuvas, outras pelos ponteiros. As piores são as que se danificaram com as bombas. Mas não conduzo nelas. Há sempre alguém a meter betão nos olhos de quem acompanha a notícia ao longe, tentando tapar com matéria inócua os espaços onde poderiam proliferar culturas de pensamento ou, pior ainda, pensamentos com cultura. Senhores, tenham dó de quem entende este mundo. A voz sai-me pesarosa e densa. Chamam-lhe esgotamento, mas não me ouvem. Recomendam uns reality shows. Eu recomendo que os usem como supositório.
Um animal novo chamado ódio. Come empatia ao pequeno-almoço e arrota barbaridades até à refeição seguinte. Repete. Ora enlatando entre os dentes a bondade, ora a compaixão, ora o bom-senso. Rói tudo com gula e vomita-se a si mesmo. Há poças de ódio cuspido em todo o lado. Senhores, tenham dó de quem não quer estar só neste mundo. A voz sai-me pesarosa e densa. Chamam-lhe woke, mas não me ouvem. Recomendam-me a obediência cega. Eu recomendo que a usem como supositório.
O mundo é dos senhores. É o que dizem. Entre eles e os que querem estar no lugar deles há o espaço de muitas pobrezas. Uma miséria mais pesarosa e densa que a minha voz. Senhores, não tomaria o vosso lugar nem que pudesse... Chamam-me anomalia. Riem. Recomendam-me que aprenda outra anedota. Eu recomendo que usem esta, mas como supositório.
Estou cansada. O hoje é o ontem que tínhamos lutado para matar. Sobreviveu ao coma. De repente apagaram as estrelas, há estradas agredidas, um animal chamado ódio e uma casa senhorial que é o mundo. Mudou tudo. Eu, nem por isso.
E, por isso, sugiro que peguem em toda essa tirania e a usem como supositório também!
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Marina querida, consideras-te uma anomalia - animalia? aminalia? alinamia? analimia? Não sei, não faço ideia se isso seria coisa boa ou má. Mas sei, ah se sei que se ser anomalia é ser diferente, então fico feliz por seres mesmo diferente, por seres o que os outros não são nem nunca conseguirão ser. É isso que faz de ti essa pessoa encantadora que faz os outros admirarem-te, idolatrarem-te. E é tb por isso que o monstro, o tal monstro não és tu, mas sim todos aqueles que te querem conduzir aos caminhos feitos, todos os que te querem impedir de seres tu própria. Não os ouças. Ouve sempre primeiro o teu coração e vai onde ele te levar. Beijo grande. Zé
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