terça-feira, 4 de agosto de 2026

Livro intonso

 

Imagem gerada por IA

Comprei um livro antigo. Um livro intonso. Desculpem lá o palavrão, mas não se inventou ainda palavra mais moderna para isto. Muito provavelmente porque, hoje, este método de produzir livros já não se usa. No livro que comprei, as folhas nunca foram abertas. Podia talvez ter começado assim. Comprei um livro triste. Um livro que envelheceu, que amareleceu, e nunca foi lido.

 

Lembro-me ainda de ver o meu avô a cortar as folhas dos livros que lia. Fazia isto com a navalha que trazia sempre. Um gesto-ritual. O abrir da navalha, o cortar das folhas cuidadosamente, para que não rasgassem, para que ficassem retas, para respeitar o livro. E, depois, a rugosidade da canelura, tão diferente da suavidade dos olhos que liam, dos dedos que seguravam o cigarro – quantas vezes apagado? – e o pousavam para virar a página.

 

Numa banca de velharias comprei uma memória que era velha e um livro antigo que era novo. Ainda bem que fiquei com a navalha do meu avô. Hei de me sentar com este livro intonso. De lhe abrir as folhas com o mesmo gesto-ritual e de o fazer cumprir, por fim, o seu destino de livro, que é ser lido.

 

 

Tirarei assim o A Leste do Paraíso do lugar vazio que lhe deram, a Leste do Paraíso, numa estante esquecida e sem finalidade. Terá, é certo, uma canelura mais rugosa, mas, depois do beijo agressivo da lâmina, avançarei para ele com olhos suaves e curiosidade. Não terei um cigarro na mão, mas agarrarei a memória.

 

Gosto de pensar que salvei um livro.

(E é tão importante salvar livros! Ainda mais agora, que a moda é a “digitalização destrutiva” pelas grandes empresas de IA.)


Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)" - agora na 2ªEdição

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com



Sem comentários:

Enviar um comentário