terça-feira, 29 de setembro de 2026

Serviço público

 

Imagem retirada do Canva

Costumo brincar e dizer que o meu blog é serviço público. É gratuito, não aceito publicidade (como os canais de serviço público nacionais não deveriam aceitar, mas...), tem espaço de comentários para que possam ativamente discordar do que eu digo e trato de temas tão diversos como a atualidade política e os males do coração. Este é um espaço de encontro e de partilha que já leva 20 anos de estrada e que mantenho, não porque sinto que seja altamente amado (ou conhecido), mas porque julgo que as pessoas que o visitam merecem essa permanência, e que eu mereço dar a mim mesma a irreverente liberdade de não desistir, apesar de tudo o que me poderia motivar a fazê-lo.

 

Antigamente, mantinha-me muito atenta. Por mais do que uma vez me avisaram de que estava a ser plagiada. E, nessa altura, pesquisas bastante simples mostraram-me que isto era verdade: por muita gente... principalmente em espaços online, mas também em livros... e nem todos os autores eram desconhecidos do grande público.

 

Não vou mentir. Anos e anos levei na senda de acusar, de denunciar, de enviar emails para esta e aquela entidade, fazendo valer o que era meu por direito: a autoria. Chorei, senti o coração apertadinho no peito... e desisti de andar à caça de imbecis. Mas, recentemente, descobri alguns trechos meus assinados por outras pessoas e, mesmo querendo largar o assunto com um simples “coitadinho do imbecil tal e tal, que não sabe escrever e provavelmente rouba para alimentar a ilusão, que ia morrer de fome”, confesso que me magoou... outra vez... não chorei, mas tive vontade. O coração redescobriu a arte de se apertar no peito. Males de humano... que a IA certamente não se importaria...

 

Acredito que toda a gente tem talento para alguma coisa. Fico com pena que algumas pessoas tenham este: o talento de roubar propriedade intelectual, seja minha ou não. Não sei se criam a ilusão de que o texto verdadeiramente lhes pertença ou se convivem harmoniosamente com a mentira. Não sei se o fazem à procura de elogios, porque lhes falta a inspiração, ou simplesmente por falta de caráter.

 

No final, o texto continua a ser meu. Saiu da minha cabeça, pelos meus dedos. Nasceu. Vive. Dá-se aos outros.

 

Quero sempre dar aos outros...

 

Mas dar, não é dar os textos... Não é dar o direito de pegarem nas minhas palavras e fingirem que são suas. É dar o que os artigos trazem. Permitir que os sorvam e os sintam. Que os amem, odeiem, releiam ou esqueçam.

 

Então, fico com vontade do dia em que tenha de me bater de frente com quem rouba estes bocadinhos da minha alma e provar inequivocamente que os meus textos são meus. Porque eu sei que é darem-me um papel, uma caneta e cinco minutinhos... do que precisarão os meus plagiadores para provarem que os textos roubados são seus?

 

Este não é um artigo simpático, nem algo que a maioria dos meus leitores precisasse de ler. Mas é um assunto do qual não se fala o suficiente. E o meu coração apertado precisou de desabafar. Isto, senhores, é o serviço público que o meu blog também me presta. O de me dar espaço para ser fundamentalmente eu. Com as minhas palavras e as minhas emoções.

 

(Pode também encontrá-las como se fossem palavras e emoções de outros, numa Internet perto de si.)


Marina Ferraz



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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Gastar a palavra já gasta

 

Imagem retirada do Pixabay

Raro fenómeno, este de querer gastar a palavra já gasta. Mas hoje quero. Quero afagá-la um pouco mais, rumorejá-la, deixar que o seu eco ressoe nas paredes do mundo por um bocadinho. Um contributo gratuito para a sua erosão, talvez... e sabe quem me conhece que não gosto da agressão de dizê-la, embora talvez ninguém saiba que é um instinto de autoproteção que me faz calá-la.

 

Quando digo amor, solta-se-lhe uma camada mais de essência. Sai da fímbria dourada que o evolve e, no vento, parece só mais um raio de luz. Ninguém gosta de coisas gastas. Se o amor fosse roupa, já estaria nos contentores de doação da rua ou, pior, num caixote do lixo qualquer. O que as pessoas não sabem é que, quando digo amor, se me solta também uma camada mais de essência. Sai da película cutânea que me envolve, parece só poeira. E eu também estou gasta. Mas ainda não inventaram contentores para depositar gente. Só esquinas e becos... e torna-se difícil encontrar um vazio. Estão todos cheios de miséria e mágoa.

 

Portanto, este raro fenómeno de querer falar de amor, este ímpeto que me acomete e me deixa erodida na superfície da vida, não faz sentido nenhum. Seria melhor silenciar-me. Tenho-me tornado cada vez melhor nisso. Na arte do silêncio. Deveria, provavelmente, perpetuar esse hábito. Fazer como fiz até aqui, neste texto, protelar a ideia, arrastá-la no vácuo de um discurso tão desguarnecido de conteúdo, tão oco de fundamento, que até um político poderia dizê-lo.

 

Mas quero gastar a palavra já gasta e deixar que ela gaste a pessoa já gasta que eu sou. Amor.

 

E, hoje, falar de amor é dizer às paredes que comecei a viver num dia de calor e sol. Nesse dia, a brisa era parca e sufocante. O suor formava pequenas gotículas na pele. E eu ignorei todo o desconforto. Tocaram-me a pele sem que ela doesse. Beijaram-me os lábios sem que eu quisesse esconder-me. Abraçaram-me sem que eu me sentisse presa. Hoje, falar de amor é dizer que no dia em que, por fim, chegou o fim, a solidão me apanhou de surpresa... que eu, de só, só conhecia a solitude e o imenso prazer do vazio que ficava na partida. Admitir, no entanto, que não parei de viver, apenas suspendi a vida num desejo de não estar nela, como quem quer acelerar o tempo até ao descanso perpétuo, mas não o faz... seja por esperança ou desesperança, por loucura ou excesso de sanidade.

 

Sim. Quero gastar a palavra já gasta. Perdoem. Gastá-la para dizer que a ausência nunca matou o amor. Que o regresso da solitude afastou a solidão, mas nunca a saudade. Nasci, comecei a viver e levo a vida rumo ao futuro certo que é de todos...

 

Mas, hoje, incomodou-me a ideia da lápide gravada. De sabermos exatamente quando uma pessoa nasce e morre. De imortalizarmos o vazio dessas datas em pedra, para que durem. E de esquecermos, com tanta facilidade, o momento em que começou a viver. Não se grava o amor na pedra. Talvez porque a palavra amor esteja gasta. Talvez porque o vento e a chuva sejam agentes de erosão eficazes. E, então, os corpos desfragmentam-se sem alma, debaixo de um túmulo que não nos diz nada sobre o ser que trilhou os caminhos da vida.

 

Eu estou gasta. A palavra está gasta. Qualquer dia, há de se degradar, aos poucos, um nome e duas datas sem alma, num cemitério qualquer.

 

Raro fenómeno, este de querer gastar a palavra já gasta. Mas hoje quero. E quero fazê-lo apenas por um motivo. Para lembrar que as pessoas moídas e as palavras banalizadas e os túmulos carcomidos podem transformar-se em pó. Mas o amor? O amor não se desgasta. Permanece. E, em alguns dias, acorda-nos de saudade, para nos lembrar que nascemos e havemos de morrer, mas que, principalmente, a vida se nos acordou nos ossos num dia de calor e sol.


Marina Ferraz



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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Elogio à solitude

 


– Estou cansada.

 

Digo-lhe isto e ele, silenciosamente, olha-me através da sala. Nenhum movimento na minha direção. Nenhuma palavra. Deve conhecer-me. Sabe-me até ao âmago. Não ousa mais do que a sapiência da imobilidade, à qual se agarra firmemente, fingindo que não tem dentro uma sabedoria antiga, quase extinta.

 

– Acho que me vou deitar.

 

Continua. Escutando-me a agonia de um corpo que se arrastou de tarefa em tarefa por demasiadas horas. Lembrando o grito do despertador, ainda a cidade mergulhava na noite. Lembrando o arrastar dos ossos para fora das cobertas e o abrir dos estores e das janelas para refrescar a casa antes do sol abrasador trazer de novo o infernal sopro de Lúcifer. O seu silêncio, observando-me agora na noite vaga. O mesmo silêncio da madrugada. Estendo-lhe a mão e acede ao toque com a lisura do espanto.

 

– Anda.

 

Caminhamos juntos e deitamo-nos sobre o mesmo colchão, debaixo da mesma luz, do mesmo teto disforme, das mesmas rachas e manchas. E as minhas mãos exaustas abrem-lhe o verbo. E ele fala, finalmente.

 

Partilhamos, na noite, a intimidade das palavras que jorram e se entregam. Até que nos fechamos num cansaço lânguido e contente. Até que nos aninhamos, desligando a luz. Digo-lhe:

 

– Boa noite.

 

Ele não responde. Talvez porque tenha adormecido. Será que os livros dormem? Haverá descanso para as vidas que têm por dentro?

 

A gata salta para a cama. Esqueço depressa o silêncio no acorde ronronado do seu conforto. Entre mim e o livro dorme agora uma massa de pelo e contentamento. No apagar do dia, depois de tudo, se isto não é felicidade, eu não entendo o que seja...


Marina Ferraz



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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Lições mais simples

 

Imagem retirada do Pixabay

Para o Ramiro


Ele estava ao fogão. Era o mesmo rapaz que, um dia, ainda no começo da juventude, tinha ensinado à menina que eu fui como um bocado de pão, ketchup e tudo o que há no frigorífico – fiambre, mortadela, queijo, azeitonas, sobras de frango, pasta de fígado... – dá para fazer uma piza e esquecer que o resto da nossa família saiu para um funeral. Era o mesmo rapaz, mas, agora, mexendo o tacho, ele tinha altura de homem, voz de homem, e cozinhava para a namorada que viria a tornar-se mãe da sua primeira filha.

 

Quando entrei, não reparei logo nisto. (Talvez não tenha reparado de todo. Há detalhes nos momentos de que só nos apercebemos quando, passado muito tempo, os olhamos à distância.) Ele mexia o tacho com a sabedoria do nome que herdara do avô e uma alma pura que queria acordar a benevolência e a paz em todos os locais do mundo.

 

Não pensemos que mexia uma iguaria tradicional ou que executava uma receita aclamada pelo Guia Michelin. No fundo do tacho, a textura rica da fórmula esbranquiçada da farinha Maizena. Naquele tempo, não se conhecia a marca branca e o açúcar ainda não tinha sido listado como Inimigo Número Um. Então, o aroma que enchia a cozinha era adocicado e quente, sabia bem no fim da tarde já escura daquele inverno frio e decadente.

 

Com as mãos firmes, ele elevou o tacho e verteu uma porção num prato fundo de sopa para a namorada. Depois olhou para mim. Sorriu-me. Os olhos verdes dele, ainda jovens, já tinham algumas ruguinhas de expressão, que só apareciam por isto. Porque ele sorria aos outros. Queres um bocadinho? Eu queria, mas recusei. É pouco até para vocês. O sorriso adensou-lhe mais no rosto. Pousou o tacho, abriu o armário e tirou mais um prato. Dividiu o que faltava entre mim e ele, soltando um simultâneo: Por muito pouco que seja, dá sempre para dividir.

 

Esta é uma história do quotidiano, mas também é a história do mundo. A história de gente simples que nasce e vive e ensina as lições, sem que os compêndios escolares recordem o seu nome ou a memória coletiva os imortalize.

 Cabe-me, portanto, imortalizar esta história. A história de um rapaz que se foi fazendo homem, trazendo bondade nos gestos e sabedoria na voz. É só um texto. É muito pouco. Mas, por muito pouco que seja, dá sempre para dividir. E, além disso, é doce demais para guardar só para mim...


Marina Ferraz



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terça-feira, 1 de setembro de 2026

A escarpa

 

Imagem retirada do Pixabay

Há um tipo de cansaço que é maior do que as palavras. Ainda que juntemos ao léxico todos os idiomas humanos e os somemos aos dos entes que povoam o universo. Um cansaço que é maior do que o universo e que, como ele, se expande. Além dos poros, além dos poços, além dos povos. É um cansaço que não passa porque reside, que não reside porque é nómada de si mesmo e caminha, escala... São só montes e montanhas e picos. Sobem-se de mão rasgada na pedra, galgam-se a suor e sangue. Leva tempo e destrói-se na queda. A queda poderia ser rápida e pôr fim à dor, mas é uma queda no vácuo. Já não se faz fundo para as montanhas de hoje. Talvez as montanhas do cansaço sejam cozinhadas como os bolos de arroz, que antes tinham papel no fundo e agora não têm nada.

 

Se olharem a escarpa, é aí que eu estou. Eu e toda a minha vontade de gritar. Eu e as vozes que o vento traz, sugerindo soluções mágicas, nas quais só um sábio pensaria. Descansa. Cuida de ti. Soluções perfeitas. Como foi que me escaparam? Para baixo, o abismo. Para cima, a interminável encosta. Descansar é chegar ao topo? Largar a rocha? Ficar ali, segurando-me rente à pedra, sem me mover? Sim, eu descanso. Cuido de mim. Mas como?

 

É o mundo. É o afundar do mundo e da esperança. É o estilhaçar do mundo, da esperança, do amor. E isto. Isto que eu sou. Um pequeno aglomerado de matéria a ocupar um espaço ínfimo de um cosmos exausto, exausta como ele.

 

Mesmo esgotada, eu vejo. Na mesma escarpa. Outros ínfimos pedaços de matéria a tentarem sobreviver enquanto estão vivos. Com uma mão, agarro a caneta, espeto-a no próximo intervalo, vou de sulco e sulco. Às vezes, a única motivação é essa. Continuar. Para que esta multidão me veja ao longe, se reconheça, e também não desista...


Marina Ferraz



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