terça-feira, 24 de janeiro de 2023

As coisas

 


Uma sala vazia pode estar vazia. Uma sala vazia pode estar cheia. Uma sala cheia pode estar vazia. Uma sala cheia pode estar cheia. Está tudo certo, desde que o peito não esteja cheio de vazios...

 

 

Entro. São 70 metros quadrados. Uma cozinha. Uma sala. Um quarto. Uma casa-de-banho. A casa está cheia. Cheia de móveis. Móveis cheios de livros. Cheia de caixas. Caixas cheias de recordações, mantas e sapatos. Cheia de humidade. Humidade que se espalha. Paredes com humidade. Chão com gotículas ocasionais de condensação. Janelas embaciadas. A gata gosta da condensação na janela. Lambe-a como se a água da taça não servisse. As janelas ficam cheias de marcas de patas e línguas rugosas. Felizmente a casa está cheia de gata. É isso que a vai tornando um lar.

 

Com o tempo, móveis e caixas, roupas amontoadas que nunca uso e tralha de muitos anos começa a pesar-me como a toxicidade das conexões que quebrei. Nem todo o lixo é imundice. Algum é só perpetuação do passado. Mas o passado já foi. E eu não o quero em casa, da mesma forma que não o quero em mim. Então, vou esvaziando. Até que sobre só a roupa que eu uso. Até que fiquem só os tachos que servem. Até que fique só o que, olhando, me arranca um sorriso. A gata está confusa com o vazio e as caixas que enchi. Vendo-as desaparecer torna-se protetora do arranhador velho, tentando esconder essa peça de um metro de altura atrás dos seus míseros centímetros de fofura negra.

 

À medida que a casa vai ficando um espaço de essenciais, que se torna um lar quando a campainha toca e a gata adormece no meu colo, descubro tempo para pensar. Descubro o prazer de acender as velas que eram só decoração. Descubro como é bom usar os sabonetes e géis e sais de banho oferecidos e que se guardavam para o dia especial que, entretanto foi e passou e voltou a vir e a passar. A minha casa fica cheia de agoras à medida que se esvazia de ontens. O agora é presente por um motivo.

 

De olhos colados ao mundo – porque assim vivo e não sei viver de outra forma – apercebo-me de que as coisas são ainda o refúgio de muita gente. Noto-o no rosto alegre de quem compra artigos de saldo e na voz de quem lista tudo o que tem. Sinto que se prendem com grilhetas ao medo de as perder ou de não poder tê-las. Que procuram o novo como se fosse abrigo e, nele, a confiança que não têm, o respeito e a valorização que lhes falta. Penduram o seu próprio valor nas roupas de marca, nos acessórios da moda, nos artigos para a casa. Querem sentir-se parte de alguma coisa. E são. São parte das coisas que desejam, pelas quais lutam e que lhes comem o eu que seriam, se as coisas não fossem o seu epicentro.

 

As pessoas adoram coisas. E eu, que embora não seja a maior fã de coisas (ou de pessoas, em alguns dias), vou percebendo que nada nos fica realmente. Olho para o que fica nesse auto de fé que vou dando às coisas, à medida que me torno cada vez mais minimalista. Dou por mim a olhar para diários antigos, para poemas antigos, para cadernos e cadernos de história sobre a pessoa que fui, perpetuados sem motivo. Acendo a lareira. Deixo que ardam e respiro fundo. Tão mais leve. Saiba eu ter a sabedoria entre o que é essencial e o que me pesa. Peço. Saiba eu ter a sabedoria de distinguir entre o que me é fundamental carregar e o peso morto que me abranda.

 

Uma sala vazia pode estar vazia. Uma sala vazia pode estar cheia. Uma sala cheia pode estar vazia. Uma sala cheia pode estar cheia. Está tudo certo, desde que o peito não esteja cheio de vazios... Eu estou a deitar fora o que me deixa sem mim. São 70 metros quadrados. Uma cozinha. Uma sala. Um quarto. Uma casa-de-banho. A casa abre espaços que estavam cheios. Agora parecem vazios. Mas a gata vem para o meu colo. A campainha toca perto da hora de jantar. Cozinhei com amor e servi um vinho – daqueles que talvez tivesse guardado outrora – porque acho que hoje, como ontem e amanhã, é um dia especial. São 70 metros quadrados de uma casa tão cheia de sentidos que parece um lar.

 

Disse alguém que “as coisas mais importantes não são coisas”. Eu também acho que não são. Mas vou manter o arranhador... pelo sim, pelo não.


 Marina Ferraz




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terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Mar à porta

 


“Não tenho medo de tempestades, pois elas me ensinam a navegar.”

- Louisa May Alcott

 

 

Avisaram-me que não atravessasse a soleira da porta. Fizeram isto com gestos. Alertaram-me para a tempestade. Encarcerando-me dentro de casa, com inundações de expetativa. Eu tinha mapas e bussolas, astrolábio e balestilha. Uma vontade imensa de navegar. Arderam. Na fogueira das expetativas dos outros. Das vontades dos outros. Nesse perpétuo estado de achar que eu devia ser não sendo. Ou, pelo menos, não sendo eu.

 

Vi arder as minhas vontades na agrura constante da chuva que caía. Não percebi que as nuvens pesadas eram justamente geradas nesse querer que os outros queriam, tão diferentes do que eu queria e do que eu queria querer. Sentei-me junto à lareira, aquecendo as mãos e os pés nos sonhos que queimavam, lentamente...

 

Na maioria das vezes, frases soltas começaram por “eu não” ou “eu só”. Justificações ocas sobre as grilhetas de vento e chuva, que me prendiam à ação, aparentemente tão inocente, tão inócua, tão inofensiva. As justificações serviam-me justas e apertavam-me a alma. E o inofensivo das palavras quase me sufocou. Ia morrendo. Mas as palavras eram lenha. Queimando-me os sonhos. E dizendo. Mais. Ainda bem que não foste. Podias morrer.

 

Choveu durante meses. Ininterruptamente. Até que comecei a afogar-me no amplo das divisões da casa. Protegeram-me das inundações da rua, cimentando as janelas e prendendo tábuas de madeira à porta. Nenhum inimigo entrará. Palavras de proteção. Nenhuma tempestade será parte dos teus dias.

 

Demorei a perceber que amava a tempestade. Mais do que a proteção. Que preferia as nuvens aos tetos. Que preferia as águas às mágoas. Que preferia morrer no mar do que morrer de marasmo.

 

Um dia, arrombei a porta. Descobri que à porta, a tempestade não criara inundação, mas mar. Não tinha já mapas e bussolas, astrolábio e balestilha. Tinha cinza e oceano e horizonte. Avancei.

 

Ainda me disseram que não navegasse. Justamente porque chovia. Porque já não tinha mapas e bussolas, astrolábio e balestilha, mas apenas os restos de pó. Mas eu tinha aprendido a lição. Fui. Porque queria ir. E queria fazê-lo sem mapas e bussolas, astrolábio e balestilha. Porque me queria perder. Pelo menos mais uma vez. E estar perdido também é navegar... parar por medo é naufrágio.

 

Fui. Fui num veleiro desorientado, levada pelo destino e a vontade dos Deuses. Segui por esse mar à minha porta. Finalmente perdi-me. Finalmente encontrei-me.

 

 

Abençoado seja quem tem o mar à porta. E coragem de navegar.


 Marina Ferraz




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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Algo que eu não goste

 


...essa é uma das muitas coisas que gosto em ti. – olhas-me, perguntas – quais são as outras? – Deuses! Olho-te e a resposta está no reflexo de ti nos meus olhos. Inteira. – Na verdade – respondo – ainda estou à procura de algo que não goste. Os teus olhos abrem de espanto. E eu espanto que te espantes. Nunca me senti mais transparente.

 

 

 

Olhaste-me pela primeira vez. Quando me olhaste pela primeira vez, eu estava quebrada e tu também. Mas tu não o sabias. E eu não to disse. Eu não o sabia. E não mo disseste. Sabíamos ambos que a vida era difícil. Apenas isso. Apresentámo-nos casualmente. Ou deixámos que o fizessem por nós. Deixámos o difícil no bolso. Lancei-me à profecia autodeterminada de uma arte que não era a minha. E lembro-me de pensar como seria, aos teus olhos, toda a minha incompetência. Só que, quando olhavas para mim, não havia traço de juízo. E, claro, como julgar o que não se conhece? Mas não era apenas isso... porque, de alguma forma, eu sabia que vias algo debaixo da minha pele. Ou seria no meu movimento? Ou seria nas minhas palavras? Senti que era transparente nos teus olhos e que, ainda assim, não me julgavas. E pude ser livre. Livre por entre uma prisão que talvez soubesses – por intuição - que eu tinha.

 

A debilidade e as chagas invisíveis que trazemos dentro são, muitas vezes, caminho para a efemeridade do corpo. E foi assim – indisposta e com alguns queixumes breves nos lábios – que conheceste de mim a fragilidade. Olhando-me, com esses olhos que atravessam a fronteira-pele, nunca senti que me achasses fraca. Não houve traço de condescendência. Não foste mais brando nem indulgente. De ti, apenas compreensão e equidade. De uma forma tão natural e simples que era fácil. O trabalho. A conversa. A pausa inesperada para comer – sem fome – e descobrir que, afinal, o alimento me dava a energia que faltava ao corpo e à alma.

 

Daí à descoberta. À falta. Ao saber que ia sentir falta. Do trabalho. Do espaço. Das conversas. E, quando me permiti admiti-lo, de ti. Da falta, à palavra. Novamente a simplicidade. Conversas. Momentos. Sentir-me Cinderela no momento antes do soar da meia-noite. E serem três da manhã. E ficar tanto por dizer na despedida debaixo das luzes e das estrelas.

 

O som cantante de palavras cheias de especiarias e as especiarias que trouxeram palavras cheias de som. E, depois, o silêncio. Amadrinhado pela Lua Crescente e por todos os grãos de areia. Com o mar a fazer-se testemunha e a tomar forma na pele, vez-após-vez.

 

Descobrir o cuidado. Com as coisas. Com os outros. Contigo. Com a vida. Com ser. Encontrar sonhos-mundo que se pintaram de silêncios no entender do espaço da respiração. O sonho aqui e agora. E todas as casas de madeira nas florestas virgens. O pensamento fora do molde-social e a arte.

 

O sorriso mais bonito do mundo. Cabe tanta verdade nele que não pode escrever-se. E, ainda assim, não mais bonito do que alma doce – nunca dócil nem domável – que lhe fica dentro. E o riso, num gomo de toranja, que a adoça. E a candura, na sapiência erudita que se simplifica com muitos silêncios entre frases. A doçura e o carinho e o plano para amanhã, descomplicado.

 

Cortar a lenha já morta e abraçar as árvores que dançam. Alimentar os seres que rastejam. Cuidar o verde e fazer brotar vida das sementes inertes. Dar nomes às árvores – mesmo se anãs – e encontrar beleza até nos recantos mais improváveis. Atentar aos pormenores. E pintar luas e auroras boreais no teto para dormir com as estrelas.

 

 

...essa é uma das muitas coisas que gosto em ti. – olhas-me, perguntas – quais são as outras?

 

 

Não sei responder. São tantas...

 

É que às vezes, quando acordo, abro os olhos devagarinho. E o teu semblante está lá. Adormecido. Sinto que acordo para sonhar. Imagina só. Eu que agradecia à noite, quando o dia terminava, dou por mim a agradecer na manhã, quando ele começa. Deuses, não sei como é que isto aconteceu. Como tive tanta sorte. Mas obrigada por mais um dia.

 

 

Acredita. Ainda estou à procura de algo que não goste. Procuro. Procuro mais um bocadinho. Por algo que não goste em ti. Mas é muito difícil, sabes? Não gostar de ser feliz!


 Marina Ferraz




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terça-feira, 3 de janeiro de 2023

A senhora Miau

 


Depois do Natal, as resoluções de Ano Novo... e depois delas, o retorno.

 

 

Voltamos ao mesmo. Voltamos sempre ao mesmo. Dizemos que não vamos voltar. Mas voltamos. Ao mesmo. Precisa e inequivocamente o mesmo. Porque a memória humana é curta e televisão deixa de nos recordar, em horário nobre, que ser uma boa pessoa importa.

 

Então, depois do Natal. Dos gestos de Natal. Das prendinhas de Natal. Dos votos de Natal. Da caridade natalícia e da atenção redobrada, pintada de eufemismos toscos, sobre quem vive a guerra, a pobreza, a fome... Depois do Ano Novo e das resoluções sobre ser melhor, sobre ser no ano vindouro o que faltou ser no presente... depois de tudo isso, o retorno.

 

 

 

Todos os dias, quando faz o caminho junto ao rio, levando a comida aos animais, ela retorna. Retorna à bondade. Ao cuidado. À caridade. Aos atos desapegados de si, que servem apenas os outros. Não espera nada. Recebe carinho. Mas não o espera. Não vai porque o espere. Vai porque quer dar. Porque quer dar-se. Tudo o que recebe é lucro.

 

Tem um sorriso quente no rosto, embora esteja frio. E tira as luvas com gentileza para receber os amigos do costume. E os novos. E quem vier. Não lhes dá nomes. Não lhes dá nomes porque não pode levá-los para casa e não quer apegar-se. Não quer apegar-se mais, isto é... Eles, por outro lado, sabem o nome dela. Chamam-na todos ao mesmo tempo. E eu, que só observo. Que não a conheço. Fico assim a saber que ela é a senhora Miau.

 

A senhora Miau coloca cuidadosamente comida nas taças improvisadas. Água nas taças improvisadas. Deposita duas ou três festas entre as orelhas alegres de cada um. Deixa um comentário solto. Não sei o que lhes diz. Mas sei que, na sua condição alegadamente irracional, eles parecem parar para ouvir. Lembro-me de poucos humanos que o façam. Parar para ouvir.

 

Orientando a atenção para a comida deixada, deixam à senhora Miau cabeçadas breves e miados suaves. Com eles e o seu sorriso quente, ela volta a colocar as luvas nas mãos, agora frias. Faz o caminho inverso, com a mala mais leve e o peso da idade.

 

Passou o Natal e o Ano Novo sozinha. Dá para ver no seu rosto cansado que os passou sozinha. Dá para perceber nos passos arrastados que os passou sozinha. Dá para ver, nem sei como, traços de solidão nos jeitos de caminhar. Ainda lança um olhar aos amigos de bigodes. Obriga-se, talvez pela centésima vez, a não lhes dar nome. Lembra a si mesma que, daí a alguns anos, já não existirá para dizer os nomes deles a outrem. Fica triste porque não sabe se, então, alguém lhes dará de comer.

 

Não houve prendas no seu Natal e a velha televisão tanto dá como não dá. Por isso não a liga. Ouve antes o rádio à noite. Dá fados e discos pedidos com músicas do seu tempo. Não tem pachorra para as notícias. Então, ninguém lhe lembrou que ser boa é coisa do Natal. E, sem o saber, ela continua a retornar a essa arte. A de o ser. Só porque o é. Sem que exista prazo para ser.

 

Vendo-a a afastar-se, penso que talvez devêssemos todos pensar os dias como se valessem todos o mesmo. Retornar. Já que é para retornar. Retornar. Mas retornar como ela retorna, diariamente, a essa arte de se ser melhor.

 

 

  

Depois do Natal, as resoluções de Ano Novo... e depois delas, o retorno. O retorno à falta de empatia, ao egoísmo, ao olhar sobre o umbigo. O retorno ao colocar na nossa própria taça o alimento da superioridade. O retorno à recusa de tirar as luvas seja por quem for.

 

É tudo muito bonito no Natal, quando somos todos boas pessoas. É tudo maravilhoso no Ano Novo quando fazemos resoluções sobre transformar o Natal numa época permanente.

 

Mas, e se fosse sempre assim? E se este ano fosse diferente? É este o ano em que muda? Será que, se eu perguntar, me dizem que sim? Não importa! Não vou perguntar... ainda faltam três meses inteiros para o Dia das Mentiras...


  Marina Ferraz




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terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Votos de ano novo

 ou Filosofias de uma flor que ninguém arrancou




 

O que quero para o próximo ano? Bem...

 

 

Antes de ela sair de casa, a mãe gritou-lhe. Leva o casaco. Logo quando vieres, estará frio.

 

Nesse momento, outra menina levantou-se do lugar para o ceder ao idoso quando entrou. O autocarro ia cheio. Empoleirou-se levemente, com a parca extensão de braço, nos pequenos ferros colocados para o efeito. Pousou os olhos na rua.

 

Na rua, o mendigo saía da loja, contando moedas pretas e com uma lata de comida para o cão que o esperava à entrada, junto ao passeio mal cuidado.

 

Mais à frente, a senhora levava sacos cheios da loja e tinha enterrado o salto num espaço aberto entre duas pedras. O cavalheiro olhou-a nos olhos, reconhecendo uma espécie de tristeza funda nos olhos dela. Baixou-se e ajudou-a a libertar-se. Sem mais, despediu-se, cortês e atrasado, na direção do emprego.

 

Irritado com a vida, com o mundo, com o potencial de chuva anunciado na televisão, o patrão ameaçou novamente o cavalheiro de que iria despedi-lo por ser um inútil, deixando um espaço de mágoa que o levaria à varanda para chorar sem vergonha.

 

Na varanda, a colega de longo prazo acabou de engolir a penúltima bolacha do pacote – as favoritas dele - e estendeu-lho, oferecendo a última. Depois, afastou-se para lhe permitir que tivesse privacidade. Ele sorriu levemente e pousou os olhos delgados na rua.

 

Na rua, passava uma senhora idosa com uma criança pela mão, ensinando-a a acariciar as flores sem as arrancar. E, ao passar, impaciente, um jovem gritou com ela. Sai da frente velha! Ela pediu desnecessariamente perdão e a menina, percebendo-lhe o ânimo triste, convidou-a a ir até à rua perpendicular, dar uma moeda ao sem-abrigo que tinha o cão.

 

No final do dia, o idoso contou à esposa que uma menina lhe tinha cedido o lugar no autocarro. E a mulher respondeu que, na sua saída com a neta, tivera encontros menos simpáticos. Quando a filha chegou, para ir buscar a menina, falou do gentil cavalheiro que lhe tinha poupado complicações, ajudando-a a libertar-se no passeio. No mesmo passeio, o sem-abrigo depositou uma festa entre as orelhas caninas e deu uma trinca grande na sandes que comprara com o dinheiro que a senhora gentil e a menina bonita lhe tinham dado.

 

A flor, que ainda estava viva e que ninguém tinha arrancado, comentou então com as ervas e à árvore mais próxima:

 

É curioso.

As pessoas que melhor entendem o amor são as que não tentam explicá-lo.

As pessoas que estão lá nos momentos mais complicados, são as que nunca to prometeram.

As pessoas que conhecem o mais fundo da tua alma são as que nunca tentam definir-te.

As pessoas que te criticam são as que têm maiores problemas de autoestima.

As pessoas que respeitam o teu espaço são aquelas que, sem tentar, conquistam mais espaço em ti.

As pessoas mais bondosas são as que passaram maiores provações.

As pessoas mais rudes são as que ficam desarmadas com carinho.

As pessoas que se calam mais são aquelas que têm mais para dizer.

E as histórias que estas pessoas contam trazem gente dentro, como contos para crianças adultas que ainda têm fé numa humanidade que as trai.

 

Apagou-se a luz na casa do cavalheiro. Chegando à janela, observou a lua. Descrente do mundo e lembrando o olhar fundo de tristeza da senhora que ajudara e o toque compassivo da colega que o deixara chorar. Lembrando o cão que batia o rabo contente aos pés do mendigo que o alimentava.

 

Os comprimidos que tinha sobre a mesa eram parte do plano da noite. Parte de um plano de fim. Desistiu da ideia. Pensando neles. Neles e nesses pequenos gestos de bondade. É que, quando os pensava, ainda encontrava, no mundo, aquele restinho inebriado de fé.

 

Este é o segredo dos segredos que ninguém conta. Visível para quem olha com a alma. Ainda há pessoas que parecem árvores. São elas que alimentam o mundo de oxigénio. São elas que fazem com que valha a pena acordar novamente amanhã.

 

Por isso, sei exatamente o que gostaria que acontecesse no próximo ano! E os desejos são estes: Que para o ano, alguém acarinhe a flor sem a arrancar. Que alguém ceda o lugar do autocarro a quem precisa mais. Que alguém tenha um ato de bondade com um estranho na rua ou com um conhecido que precisa de apoio. Que alguém dê uma moeda a um sem-abrigo. Que alguém fale sobre o que de bom encontrou no mundo naquele dia.

 

Quanto a mim... que a minha mãe continue a lembrar-me de levar o casaco quando sair... para que eu possa manter o corpo e o coração quentes, mesmo no Inverno mais frio!


  Marina Ferraz




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terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Casa (sem som)*

 



Agarro, no ar, todos os conceitos. Bato levemente sobre o peito. No lado esquerdo do peito. Onde moram ilusões. Onde moram segredos. Amores. Eternidades. Cheguei. Digo. Cheguei. Lá. A casa...

 

O coração bate. Cada batimento é isso. Casa. Casa. Casa. O lugar onde se guarda o todo. O lugar onde se guarda o tudo. O lugar onde a família é amor. Onde o amor é pleno. Onde o amor é sempre e para sempre.

 

Casa. Um batimento de coração, solto. O espaço que a mão toca, para acender a luz da alma. O recanto onde os dedos se dão, enlaçando as estrelas com todas as possibilidades do amanhã.

 

Existe um ritmo cardíaco acelerado nessa palavra que se diz sem som. Casa. Casa. Casa. Um aceno de “bom dia”. Um beijo de “boa noite”. Um aviso lento para não te esqueceres do casaco nos dias frios. Um aviso morno para não te esqueceres do guarda-chuva quando as nuvens estão carregadas. Um aviso ténue para levares um abraço quando o dia é triste.

 

Amor. Casa é amor. Amor é casa.

 

E amar é encontrar uma casa. Essa que fica aqui. No lado esquerdo do peito. Onde moram ilusões. Onde moram segredos. Amores. Eternidades.

 

Repete-se, até ser canção. Não tem voz. Não tem som. Tem pulsação. Casa. Casa. Casa. Casa.

 

Constrói-se. Repete-se. Vive-se.

 

Melhor do que ter casa, é ser casa. Nesse batimento cardíaco que acelera. Tocando em silêncio. No lado esquerdo do peito.

 

Estendo-te a mão.

 

Vem comigo. Digo. Vem comigo. Anda!

 

Vamos...

 

... para casa.


  Marina Ferraz


*Texto inspirado por uma aula de Língua Gestual Portuguesa, 

sobre o gesto relativo à palavra "casa",




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terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Somos o que amamos?

 


Somos o que amamos.

 

Foi esta a frase que ela me disse. E depressa se apressou a acrescentar. Vi esta frase num livro que estou a ler e achei lindo. Acho que daria um texto incrível.

 

Olhei longamente para ela. Para a frase, isto é. Mergulhei nela. Deixei que o frio da sua simplicidade chegasse aos olhos e pensei. Eu não concordo.

 

A palavra amor vive desconexa e limitada. São as pessoas que a tornam desconexa a limitada. Palavra de todo o uso, que nem consegue definir, hoje em dia, o seu próprio significado... quanto mais a mim!

 

Todo o universo de coisas que eu sou não cabe no que eu amo. E não deveria ser quem e não no que? Somos quem amamos? Existe amor que se ligue a coisas? Que se esgote nas coisas? Que tenha a ver com algo material? Que não se trate de uma conexão de almas? Não sei...

 

Claro. Posso facilmente assumir que amo escrever. E não é gente. Mas também não é tarefa. Nem objeto. E talvez eu nem ame escrever. Talvez me ame e escrever faça parte disso. Não creio que se amem coisas...

 

O mergulho sufoca-me brevemente enquanto corrijo a frase. Somos quem amamos. Mas o frio da simplicidade corrigida, ao chegar aos olhos, ainda me fez pensar. Nó de peito. Uma espécie de azia. E pensei. Eu não concordo.

 

Assuma-se que se sente. Amor. Não o sucedâneo que se vende nas telenovelas e nos romances de cordel, nem tão-pouco as cápsulas temporalizadas de sentimento-instantâneo que se vende pelos Tinders e Companhia. Amor. Assuma-se que estamos a falar do amor incondicional – mãe-criança, irmã-irmão, alma gémea-alma gémea – o que define isso de amar alguém? Se o amor for despido de posse. Se o amor for despido de condição. Se o amor for despido de tudo até ser só ele próprio... Ser quem ama não é ser quem se ama. Ser quem ama não é ser de quem se ama. Principalmente não é – nunca será – um possessivo.

 

Risco mentalmente a minha própria correção e percebo que saber o que é a plenitude do amor e o que é a plenitude do eu são, possivelmente, as duas únicas definições impossíveis. Mas não somos o que amamos. Não somos quem amamos. Não somos de quem amamos. Quem somos então.

 

Busco em mim definições que não há sobre a minha própria identidade e corrijo. Somos quando amamos. Parece melhor, mas pressupõe que sejamos em função do outro, ainda que seja apenas em função do que o outro nos faz sentir. E não. Não! Não concordo! Não concordo com a redução tosca do eu-em-função-do-sentimento. Porque também sou o que fica quando o corpo adormece e só as funções básicas de mim me tornam gente.

 

Percebo que sou o corpo que dorme e o que acorda. O sonho inusitado. A realidade viva. O rosto maquilhado ou desmaquilhado em função do dia e da vontade. Sou a vontade. E o desejo. E o que sinto. E as razões pelas quais sinto o que sinto. E o que quero. E as razões pelas quais quero o que quero. E o que ambiciono. E o que digo. E o que faço. E as razões pelas quais o ambiciono e digo e faço. Sou as minhas escolhas e minha reação quando não as há. E sou tudo o que, agora, os meus dedos não sabem para transformar em letras.

 

Penso um pouco e sei. Sei que não sei quem sou porque estou a caminhar para o que quero ser. E sei que a raiz mora dentro do meu próprio peito e é o que me permite amar os outros.

 

Olha, desculpa. Mas eu não concordo com essa frase do livro e, por isso, não escrevi um texto incrível. Escrevi só um texto. Para te dizer. Não somos o que amamos. Somos. Quando nos amamos. E, mesmo assim... somos o quê? Ninguém sabe... mas é maior do que isso!


  Marina Ferraz




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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Das nove às cinco

 

Foto de Cento4ka


Parei. Eu que nunca paro, porque tenho um emprego de inteiro tempo. Parei. Parei para o ouvir falar. De chá. De azeite. De licor. E são os momentos que nos detêm, nos minutos que o dia já não tem, que valem. Estou tão feliz com as escolhas que fiz...

 

 

A feirinha tinha um aroma outonal, feito de canela e gengibre, de castanhas assadas e de vinho quente. Os cheios quentes e o ar frio contrastavam, criando texturas no ambiente, que se sentiam. Juntava-se a tudo isto o toque inebriante das luzes e a música entoada pelas vozes felizes, que tartamudeavam ideias para prendas de Natal.

 

Os passos apressados levaram-me a uma das banquinhas, gerida por uma amiga. Ali, enquanto ela sai da concha, as conchas transformam-se num pouquinho dela. É um pedacinho dela passível de levar para casa, em caixinhas e embrulhos. Cada peça denota muitas horas de trabalho e um acabamento a resina e amor. Escondida dentro do espaço, as mãos dela lançavam-se à tarefa, com uma atenção e foco que a impediram de me ver, até que a chamasse. Mas depressa me lançou o olhar, sem que os olhos perdessem o brilho que já tinham quando os pousava nas conchas, nos búzios, nos ouriços e na esperança do amanhã. Olhei longamente o mostruário antes de escolher uma prenda para oferecer. Pacientemente, ela aguardou que as minhas indecisões se transfigurassem em escolha, sem deixar de me mostrar as peças que ainda estava a terminar. O sorriso dela brilhava tanto quanto as iluminações de Natal e, para não a impedir de trabalhar por mais tempo, acabei por sair e caminhar um pouco, enquanto tentava tomar a derradeira decisão sobre a prenda ideal para alguém importante.

 

Passando pelas várias banquinhas, fui apreciando, não as peças e os produtos, mas os rostos. Em torno das peças, víamos interesse e satisfação. Atrás dos balcões, no entanto, havia muito mais. Sorrisos simpáticos orgulhavam-se de cada elogio. Palavras de entusiasmo acediam aos pedidos e respondiam às perguntas. E todos os olhos eram parte da decoração natalícia, iluminando a rua em que eu caminhava.

 

Caminhava. Mas parei. Parei. Eu que nunca paro, parei. Parei para o ouvir falar. De chá. De azeite. De licor. Algo na forma como o fazia, dando a conhecer a marca, enaltecendo o design dos frascos, a qualidade dos produtos e os ingredientes – evidentemente naturais e livres de químicos – me travou. Contou-me que não era aquela a sua primeira profissão, mas que gostaria que fosse. E eu entendi, pela milésima vez, que as pessoas vão para os seus empregos das nove às cinco e deixam o coração noutro sítio. Talvez fosse isso, concluí. Dentro das barraquinhas da feira, havia corações com gente. E cada produto era sístole e diástole, num (em)bater sucessivo, em luta pelo sonho.

 

Apaixonei-me, assim, com rapidez, pela paixão daquelas pessoas. Porque quando se ama o que se faz, não é um emprego a tempo inteiro mas um emprego a inteiro tempo. Das nove às nove. Das cinco às cinco. Vinte e quatro horas por dia. Sete dias por semana. Coincide com as horas do riso e do choro. E deixa ficar, nos intervalos do tempo que ninguém sabe que existe – a física quântica talvez explique – a eternidade da plenitude nos dias que se somam.

 

Gostava que esse perpétuo da paixão pela tarefa pudesse ser o emprego a tempo inteiro e não só o emprego a inteiro tempo das pessoas. Gostava que, como eu, outros pudessem viver, não só com o sonho, mas do sonho. Gostava que a escolha do coração fosse a regra. Gostava que o mundo refizesse as regras que levam tantos a procurar um emprego das nove às cinco, quando não é isso que querem.

 

Escolhi a prenda na banquinha das conchas mais bonitas do mundo. Trazia comigo chá e licor de figo. Palavras e sentimentos que valem a pena. E a certeza de que precisava de falar sobre o amor incondicional de quem, apesar do emprego das nove às cinco, oferece o tempo que sobra aos sonhos.

 

Ainda não fiz chá, nem abri o licor. Mas sei que sabem a Natal. Ainda não ofereci a prenda. Mas sei que a pessoa vai adorar. Ainda não tenho tempo. Mas parei. E são os momentos que nos detêm, nos minutos que o dia já não tem, que valem.

 

Estou tão feliz por ver outros a amarem o que fazem.

Estou tão feliz com as escolhas que fiz...

 

Ainda bem que parei.

 

 

  Marina Ferraz




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terça-feira, 29 de novembro de 2022

Falemos (de canalhas)

 

Fotografia de bigweirdboxstreetart


Falemos de filhos da puta. Ou melhor. Falemos de canalhas, de patifes, dos seres que não merecem o complemento de “humanos”. Sim. Desses. Porque as mães deles – independentemente da via profissional - eu tenho quase a certeza de que não tiveram culpa nenhuma dos grandes idiotas que acabaram por se tornar.

 

 

A senhora pousou-me à frente o sumo de laranja. Olhou para mim, com um olhar vago, e perguntou-me se queria mais alguma coisa. Sorri. Relembrei-lhe. A empada. A mesma que tinha pedido que me aquecesse. E que ela prontamente levara para a cozinha. Espantou-se. Sobressaltou-se. Correu a buscá-la. Pousou-a e preparou-se para me dar outra. Aqueceu demais. Explicou. Garanti-lhe que estaria ótima para mim e que não precisava de me dar outra. Até gosto mais bem quente. Justifiquei. E arranquei-lhe um sorriso subtil por detrás do rosto cansado, manchado de preocupação e empatia. Obrigada. Sabe? Estou transtornada e não foi comigo. As injustiças doem-me.

 

Também a mim doem. Quis dizer-lhe. Mas não disse. Não disse que me doíam na pele, como as feridas abertas. Disse apenas. Só não sabe quem nunca atendeu ao público. Mas o público, neste caso, não era o problema. O problema era o sistema. As pessoas por detrás do sistema, que continuam a agir como se o mundo fosse todo feito da massa que modelam nas mãos. Fazendo dos outros um quase-nada para terem quase-tudo.

 

Olhou a colega e eu reparei, pela primeira vez – somos todos um bocadinho cegos hoje em dia, não é verdade?! – que ela tinha os olhos meio vermelhos e uma expressão de angústia profunda. Reparar doeu. Também a senhora a olhou, mas não falou dela. Respeitando-lhe a privacidade dos acontecimentos – fossem eles quais fossem – ela falou-me antes de si.

 

Contou-me como o contrato assinado, na casa onde trabalhava há mais de vinte anos, a obrigava a estar disponível para mudar de loja em loja, dentro de um x número de quilómetros. Contou-me que o patrão tinha várias marcas e que já tinha, por isso, servido várias casas, sob uma mesma chefia. Contou-me que no mês antes o marido tinha morrido. E contou-me que, tratando das formalidades na Segurança Social, descobrira que, de todas as vezes que a relocam num novo estabelecimento, acabam por apagar todo o seu histórico de serviço, o que a impede de ter acesso aos benefícios básicos relacionados com os anos de casa e até aos subsídios essenciais.

 

Os olhos marejados, ao contar a história, diziam-me também que o filho – engenheiro – passava igualmente, apesar do título mais sonante e dos muitos estudos, por situações de injustiça e exploração. Contavam que ele lhe tinha dito, até, que não podia exigir outras condições se queria manter o trabalho.

 

A empada sobreaquecida arrefeceu na história e eu fui perdendo a fome. Não porque não saiba. Só esta semana, já ouvi as reclamações de uma senhora da limpeza num centro comercial e de um estafeta de uma marca conceituada de entregas... eu sei! Mas ouvir é diferente...

 

Portanto... falemos de filhos da puta. Ou melhor. Falemos de canalhas, de patifes, dos seres que não merecem o complemento de “humanos”. Sim. Desses. Porque as mães deles – independentemente da via profissional - eu tenho quase a certeza de que não tiveram culpa nenhuma dos grandes idiotas que acabaram por se tornar. Falemos deles, para os denunciar. Para denunciar a sua desumanidade. Para que as pessoas saibam que, nos locais que frequentamos, existem escravos.

 

A senhora disse-me. Só lhes falta o chicote. Não tenho a certeza que falte. Penso que, de material, têm certamente tudo. O que lhes falta, respondo, é empatia.

 

Mas não é empatia que falta. Falta-lhes serem responsabilizados pelas ações. Falta-lhes perderem o pedestal. Falta-lhes que se conte esta história e que se crie uma consciencialização. Falta-lhes que os escravos se apercebam de que são mais e lutem pelos seus direitos.

 

Estamos a chegar ao ponto de não-retorno. Por favor: falem dos canalhas, de patifes, dos seres que não merecem o complemento de “humanos”. Falem deles. Porque o silêncio dos oprimidos é a música que toca quando eles - os opressores - verificam o extrato bancário e a canção de embalar que lhes permite dormir à noite em lençóis de seda egípcia.

 

 Marina Ferraz




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terça-feira, 22 de novembro de 2022

Epitáfio de um quase poeta

 


Comecei a escrever poesia quando não sabia o que ela era. Se soubesse, naquela altura, talvez nunca tivesse começado.

 

 

Foi um choque. O dia em que percebi que a poesia era livre, mas não era liberdade. Comecei a escrevê-la, julgo, talvez porque achei que fosse. Liberdade. Ela riu-se, mas eu achei que era comigo e não de mim... Depois, tomou-me de assalto e sorriu de soberania. Sussurrou-me ao ouvido. Agora és minha. E eu era.

 

Com a necessidade insensata de me dar a ela todos os dias, eu fui-me esquecendo, aos poucos, de ser gente. À medida que me fazia poeta. Tentei avisar algumas pessoas de que estava doente. Com essa doença. De ser poeta. Mas os adultos pareciam impressionados e felizes com a ideia e nunca me arranjaram uma solução para o problema. Escreve, escreve... o incentivo à loucura. E eu, igualmente louca, frágil, continuava a escrever. Não porque me diziam que o fizesse, mas porque não tinha realmente outra escolha.

 

Fui desenvolvendo, a pouco e pouco, um amor pelas palavras que me mantinham em cativeiro. Como se, em vez de me torturarem e prenderem, elas me tornassem mais plena. Uma espécie de síndrome de Estocolmo. De repente, escrever era droga. E eu recorria a ela com a mesma sofreguidão louca de quem se arrasta nas ruas, pedindo temas e títulos como quem pede trocos, para os gastar mal-gastos nesse ácido do poema sem o qual – insisto – não sei viver.

 

Temos poeta. Diz uma voz no fundo da sala, quando imploro por ajuda. Dizendo. Isso. Que as palavras me escravizam. Mas não. Digo. Não sou poeta. Sou quase-poeta. Se fosse poeta aceitaria, de forma mais leve, a subjugação. Sem me apaixonar também pela Morte e a sua presença suave nos meus dias.

 

Comecei a escrever poesia quando não sabia o que ela era. Se soubesse, naquela altura, talvez nunca tivesse começado. Mas é a beleza da vida. Antes de sabermos, não sabemos. E, como não sabemos, avançamos. Temos curiosidade de descobrir. Como a criança tem curiosidade de saber o que acontece caso ponha os dedos nos buraquinhos da tomada. E é um choque. Descobrir.

 

Enquanto escrevo este texto, Poesia e Morte ocupam os espaços tensos dos meus ombros e sussurram ao meu ouvido. Discutem o meu epitáfio.

 

Aqui jaz uma artesã de textos

Aqui jaz uma amante do ocaso

Aqui jaz uma escrava de ideias

 

E eu aproveito a sua discussão, despida de mim, para morrer um bocadinho no espaço da respiração e ser. Sem complemento.

 

Lembro que comecei a escrever poesia quando não sabia o que ela era. Se soubesse, naquela altura, talvez nunca tivesse começado. Quase-poeta, hoje, proponho, então, um epitáfio melhor.

 

Aqui jaz.

 

Há uma simplicidade poética neste vazio. De ser um ponto final. Depois de um verbo. No fim de uma vida. De uma vida que, na verdade, não foi minha. Porque comecei. A escrever poesia. Sem saber que ela era livre. Mas não era Liberdade.


  Marina Ferraz




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