Raro fenómeno, este de querer gastar a palavra já gasta. Mas hoje quero. Quero afagá-la um pouco mais, rumorejá-la, deixar que o seu eco ressoe nas paredes do mundo por um bocadinho. Um contributo gratuito para a sua erosão, talvez... e sabe quem me conhece que não gosto da agressão de dizê-la, embora talvez ninguém saiba que é um instinto de autoproteção que me faz calá-la.
Quando digo amor, solta-se-lhe uma camada mais de essência. Sai da fímbria dourada que o evolve e, no vento, parece só mais um raio de luz. Ninguém gosta de coisas gastas. Se o amor fosse roupa, já estaria nos contentores de doação da rua ou, pior, num caixote do lixo qualquer. O que as pessoas não sabem é que, quando digo amor, se me solta também uma camada mais de essência. Sai da película cutânea que me envolve, parece só poeira. E eu também estou gasta. Mas ainda não inventaram contentores para depositar gente. Só esquinas e becos... e torna-se difícil encontrar um vazio. Estão todos cheios de miséria e mágoa.
Portanto, este raro fenómeno de querer falar de amor, este ímpeto que me acomete e me deixa erodida na superfície da vida, não faz sentido nenhum. Seria melhor silenciar-me. Tenho-me tornado cada vez melhor nisso. Na arte do silêncio. Deveria, provavelmente, perpetuar esse hábito. Fazer como fiz até aqui, neste texto, protelar a ideia, arrastá-la no vácuo de um discurso tão desguarnecido de conteúdo, tão oco de fundamento, que até um político poderia dizê-lo.
Mas quero gastar a palavra já gasta e deixar que ela gaste a pessoa já gasta que eu sou. Amor.
E, hoje, falar de amor é dizer às paredes que comecei a viver num dia de calor e sol. Nesse dia, a brisa era parca e sufocante. O suor formava pequenas gotículas na pele. E eu ignorei todo o desconforto. Tocaram-me a pele sem que ela doesse. Beijaram-me os lábios sem que eu quisesse esconder-me. Abraçaram-me sem que eu me sentisse presa. Hoje, falar de amor é dizer que no dia em que, por fim, chegou o fim, a solidão me apanhou de surpresa... que eu, de só, só conhecia a solitude e o imenso prazer do vazio que ficava na partida. Admitir, no entanto, que não parei de viver, apenas suspendi a vida num desejo de não estar nela, como quem quer acelerar o tempo até ao descanso perpétuo, mas não o faz... seja por esperança ou desesperança, por loucura ou excesso de sanidade.
Sim. Quero gastar a palavra já gasta. Perdoem. Gastá-la para dizer que a ausência nunca matou o amor. Que o regresso da solitude afastou a solidão, mas nunca a saudade. Nasci, comecei a viver e levo a vida rumo ao futuro certo que é de todos...
Mas, hoje, incomodou-me a ideia da lápide gravada. De sabermos exatamente quando uma pessoa nasce e morre. De imortalizarmos o vazio dessas datas em pedra, para que durem. E de esquecermos, com tanta facilidade, o momento em que começou a viver. Não se grava o amor na pedra. Talvez porque a palavra amor esteja gasta. Talvez porque o vento e a chuva sejam agentes de erosão eficazes. E, então, os corpos desfragmentam-se sem alma, debaixo de um túmulo que não nos diz nada sobre o ser que trilhou os caminhos da vida.
Eu estou gasta. A palavra está gasta. Qualquer dia, há de se degradar, aos poucos, um nome e duas datas sem alma, num cemitério qualquer.
Raro fenómeno, este de querer gastar a palavra já gasta. Mas hoje quero. E quero fazê-lo apenas por um motivo. Para lembrar que as pessoas moídas e as palavras banalizadas e os túmulos carcomidos podem transformar-se em pó. Mas o amor? O amor não se desgasta. Permanece. E, em alguns dias, acorda-nos de saudade, para nos lembrar que nascemos e havemos de morrer, mas que, principalmente, a vida se nos acordou nos ossos num dia de calor e sol.
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