Lá longe. Dizes. Aqui perto. Respondo. Desentendemo-nos ao falar da guerra. Criamos uma guerra aqui mesmo. Palavras não são munição. Dirias. E, no entanto, aqui estamos. Achas-me sempre muito filosófica. Eu acho-te sempre portador de uma mediocridade estreita, tacanha e desajustada. Mas nem tu me acusas de filosofia, nem eu te acuso de miopia intelectual. Em perspetiva, estamos os dois muito maduros. Parabéns aos nossos pais... (Os teus e os meus, entenda-se... que não queremos cá misturas estranhas que nos denotem uma fraternidade inexistente! Até porque podes bem ser alérgico à palavra, acusando-a de ser woke ou, pior ainda, comunista!) Parece que conseguiram criar-nos de forma a que, pertinho dos 40, consigamos censurar os insultos, guardá-los nos bolsos e fazer como se vivêssemos no tempo da outra senhora.
Não vivendo nesses tempos idos, parece que dele bebemos qualquer coisinha. Digestivos indigestos. Incluindo esse de limitadamente olharmos para o mundo como se ele tivesse a estreiteza das fronteiras. As da Europa. As do país. As da cidade. As da nossa casa. As do nosso corpo. As do nosso pensamento. E que pequeno é o espaço envolto nessa linha fronteiriça. Tão pequeno que se ouve, por aí, que há outra guerra. Desesperos desentendidos de uma realidade na qual a paz escasseia desde, provavelmente, o começo da história da humanidade. E tens o desplante de dizer lá longe. No tom de quem diz não interessa. Interessa, meu querido, acredita que interessa.
Pergunto-te, nestes longes e pertos discutidos em tom de confronto, onde raio achas que existe uma guerra. Falas-me da Rússia e da Ucrânia. De Israel. Da Palestina. Do Irão. Dos Estados Unidos. Começas com o debitar tosco do que leste, do que ouviste, do que viste. Espírito Santo de Orelha te proteja, livre e guarde. O Santo Jornalismo te ilumine. E eu deixo-te falar. Cinco minutos. Dez. Quinze. Deixo de te ouvir ao fim de vinte. Mas ainda vou deixando que fales. Toda a verborreia velha e gasta, em segunda mão, em terceira mão. Fala, criança, que para isso se fez Abril. Finalmente, depois de ditas e reditas todas as sentenças que sensatamente ignorei, habilmente disse o mesmo que poderia ter dito antes de começares. A guerra é na tua sala de estar. Nem acabei a frase quando tentas interromper-me. E eu esperava-o, pelo que continuei, marchando por cima das palavras que querias dizer, apaixonado eterno pela tua própria voz, como tanta gente o é... que a arte de falar sem nada para dizer é muito mais prolífera do que a de ouvir os outros. A guerra é na tua cozinha. No teu quarto. Provavelmente na tua casa de banho. Olhas-me como se fosse louca, mas eu sei que não sou. Onde há uma televisão e um telemóvel, tens essa guerra. E essa guerra nem é a guerra, mas a escolha ponderada da guerra que querem que tu aches que existe. E é justamente por isso que a situas lá longe.
Queres saber se sei algo sobre a guerra que não saibas. Se sou dona e senhora da verdade, com informação privilegiada sobre o que é a realidade por detrás do cenário montado pelos profissionais do ofício informativo. Asseguro-te que não. Que apenas encontro na cloaca noticiosa a certeza de que o mais importante não está a ser dito e pior... que o que está a ser dito está a ser dito porque interessa que se diga. Sei pouco da guerra. E sei que sei pouco da guerra. Tu sabes pouco da guerra e achas que sabes muito da guerra. Por isso me dizes: Lá longe. Por isso te respondo: Aqui perto.
No final do dia, a guerra que eu vejo é na sala de estar. É esta discussão que não leva a lado nenhum. É a incapacidade de ver além das imagens que nos mostram, somada à capacidade de olhar para corpos esventrados sem isso interromper uma colherada de sopa. A guerra que eu vejo é inação, inércia e falta de sentido crítico. Ainda não nos caiu uma bomba em cima e já estamos mortos. É como se estivéssemos mortos... Irrito-me, por isso, quando me dizes lá longe, enquanto olhas as sombras na parede da caverna, mesmo que inevitavelmente dê por mim a olhá-las a teu lado.
Sobre a guerra e as sombras, tenho o mesmo pensamento. Tantos anos de alegada evolução humana. E não aprendemos nada!
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