Tenho a sala cheia de mortos.
Gosto de os alinhar, de olhar para eles e planear com qual falarei a seguir.
Adoro as conversas matinais que mantemos. Nelas, contam-me histórias, filosofias, pensamentos. Falamos de tudo o que não se diz a ninguém. Estamos todos mortos. Não há o risco de virem os vivos, com as suas críticas, as suas guerras, as suas malsões.
Os meus mortos dizem-me que não sou um defeito de fabrico, o ovo podre que eclodiu, a erva daninha que desfeia o jardim dos outros. Ou, quando dizem que o sou – também temos dias desses – acrescentam prontamente que o são também, que o são comigo, que desfeamos o mundo em conjunto. Fazem-me sentir que pertenço àquele alinhamento empoeirado, mesmo que me falte o requinte e a sabedoria para pertencer ao seu eclético núcleo. Não devia precisar deles para me sentir inteira, para sentir que pertenço, que sou gente... Eu sei! Não devia precisar deles... Mas, por favor, ninguém venha dizer que nunca acordou com a necessidade de misturar, no seu café, um pouco de amor.
Tenho a sala cheia de mortos.
Não têm todos a mesma idade. Não têm todos a mesma altura. Não têm todos o mesmo sexo. Não têm todos o mesmo género. Não têm todos o mesmo intento. Não têm todos a mesma voz. Nenhum deles quer saber destas diferenças! Contam-me histórias distintas. A maioria fala do tempo em que estava vivo. Alguns falam do agora, como se o tivessem vivido. As suas certeiras previsões atacam todos os meus medos. Eu choro. Eles choram comigo. O dolorido das suas lágrimas deixa, por vezes, marcas na minha pele e na deles. Peço desculpa por ser tão fraca. E eles respondem com todas as palavras, agitando-as num sopro. Tornam-se muralha. Tornam-se exército. E eu sobrevivo a mim mesma.
Tenho a sala cheia de mortos.
Gosto de todos eles, alinhados no repouso da estante, cada qual na sua sepultura feita de capas moles e folhas gastas. Gosto de todos eles, embora o coração tendencioso diga José e Vergílio com uma ternura que acorda as inseguranças dos outros.
Para os acalmar, gosto de lhes arejar os caixões. Abro-os e escuto o que têm para dizer.
Cada caixão tem a profundidade da cova, mas repousa na superfície da pele. Os mortos não se importam com o cultuar de Janus. Deixam-se ser eles mesmos e o seu contrário, na mais pura enantiossemia. Dizem palavras como esta, que quase ninguém conhece. E, realmente, não me parece que se importem de que os acusem de pedantismo. Dizem que há um espaço entre o eruditismo e a erudição, infelizmente perdido nas mentes mais rasas.
Tenho a sala cheia de mortos.
Olho para eles. Amo-os. Digo-lhes que tenho medo de estar viva. Já não há lugar para os vivos... Explico, seguindo mentalmente o fio do pensamento, mas em silêncio. Mesmo os mortos... parece que só sobrevivem em estantes como as minhas, frequentemente servindo de ornamento. Eles ouvem o que digo e o que calo. Acalmam os meus medos. Estarás morta um dia...
Tenho a sala cheia de mortos.
Vou perguntando se, um dia, serei também uma caridosa morta na sala de alguém, na estante de alguém. Se haverá alma que me areje o caixão. Eles não sabem responder-me. Mas contam-me a sua própria história. E, de alguma forma, é como se dissessem que é também a minha.
Tenho a sala cheia de mortos.
Em dias como o de hoje, só estes defuntos me entendem. Só eles me oferecem o silêncio de que preciso. As palavras de que preciso. Só eles sabem o valor da tranquilidade. Só eles sabem existir sem ocuparem o meu espaço. Estar sem me colonizarem.
Os vivos cansam-me.
Tenho a sala cheia de mortos.
Eles mantêm-me viva.
A minha sala é o Panteão Universal.
E na estante repousa o segredo da imortalidade.
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