Tentarei ser breve.
Costumo ouvir isto de pessoas
que se alongam. Não sei se é obrigatório ou não. A gramática está sempre a
mudar e a introduzir regras parvas. Pelo sim, pelo não, mais vale fazer como se
vê fazer. Então, tentarei ser breve.
Ontem, quando começou a
falar-se de retirar a obra de Saramago das leituras obrigatórias no ensino
português, levantou-se toda uma maré de indignação nas redes sociais... e eu
fui bombardeada com perguntas sobre como me estava a sentir, como se, em vez de
mera leitora (e discípula) de Saramago, eu fosse detentora de uma parcela dos
direitos autorais ou uma artista patrocinada pela herança do homem. (Aos
interessados, não sou!)
As perguntas sobre como tudo
isto me fazia sentir foram mais rápidas do que os meus sentimentos. Porque,
para que se sinta, é preciso entender. Sentimentos avulsos, impulsivos, trazem
geralmente uma dose de superficialidade. Para vermos algo concretamente, penso,
é preciso que olhemos essa mesma coisa de vários ângulos. Embora, geralmente,
se cheira a censura, parece censura e diz que se chama censura... seja
evidentemente uma tentativa abnegada do
Estado para melhorar o sistema, a pensar no bem de todos os portugueses e
portuguesas que compõem esta valente raça.
Há indignação, primeiro. Claro
que há. Quando o Nobel da Literatura português passa a ser uma sugestão de
leitura, temos de nos indignar. Mas proponho que olhemos para isto de outra
forma. Só por um bocadinho, pode ser?
Deixa de ser uma leitura obrigatória.
A minha primeira é pergunta é:
a leitura deveria ser obrigatória? Eu
também andei na escola, o lugar por excelência onde se adjetivam livros como
sendo uma seca, oh não e, não menos
importante, veículos para os compêndios de resumos. Na era do livrinho amarelo,
era giro ver alguns colegas passearem o Introdução
Ao Estudo d' Os Maias – e elogio aqui o Professor Carlos Reis, que escreveu
uma introdução que, para ser entendida, precisa de usar um descodificador
chamado ter efetivamente lido o livro.
Mas isto é raro. A maioria dos livros de resumos são o que se chama papinha feita, servem para pensar por
quem não quer pensar. E, ao fazerem aquela coisa a que atualmente se chama dar spoiler não só retiram o prazer da
escrita, como impedem toda a valorização linguística e cognitiva que, por
norma, vem com um livro.
As pessoas não são preparadas
para ler e muito menos para retirarem prazer efetivo das suas leituras.
A rapidez do digital torna o
produto-livro mero ornamento de estante, porque amar um livro demora. Implica a
calma de nos sentarmos com ele, não para falarmos, mas para ouvirmos. Se não o
fazemos em conversas de café, vamos realmente permitir que um autor nos entre
na cabeça e fale... só fale? Muitos não o fazem. Séries, filmes, reality shows, festas, concertos... tudo
isto é mais rápido, menos invasivo. Acaba e acabou. Os livros são horríveis
também por isso: não acabam quando acabam... porque no convívio diário com
eles, mudam algo em nós, que fica e invade o pensamento de quando em vez.
Isto começa de pequenino. Com a
criança criada por pais que também não têm o gosto da leitura ou, se o têm, não
têm tempo nem cabeça para ler. Rotinas de corrida, de trânsito, de problemas
financeiros, de stress e de exaustão.
Os pais nem têm gosto pela maternidade e paternidade, quanto mais pelos livros.
Não há tempo. Atira-se ao puto qualquer coisa que o distraia, dão-se prendas
para substituir a atenção. E, conclusões de génio: não substitui!
As pessoas não deviam ser
obrigadas a ler. Deviam construir, ao longo da vida, o desejo de fazê-lo. Na
falta disto, porque – sejamos honestos – também não interessa que as pessoas queiram ler obras como as de Saramago, o
processo de estupidificação está iniciado e de boa saúde. Pouco importa, na
verdade, que peguem nos livros de Saramago – e isto justifica que eles se
mantenham numa categoria de livros sugeridos – porque quem pegar no retangulozinho todo cheio de palavras já
vem bem preparado para: um: desistir; dois: não entender; três: não questionar.
E, para o garantirem, deixando que entre uma dose gigantesca de opinião
pessoal, escolhem obras que promovem isso mesmo. Não se enganem. É claro que o Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis são
excelentes livros. São obras magníficas! Para leitores frequentes, que leem,
que têm cultura geral, que se interessam, que têm um vocabulário mais extenso e
uma capacidade interpretativa provinda de muitas leituras anteriores. Se os
miúdos lessem, estas seriam obras perfeitas para o Ensino Secundário... mas,
como não leem, são a sepultura onde a réstia de vontade de ler (se ainda havia
alguma) vai para morrer. Eu não mando nada, não sou linguista, nem educadora,
nem parte dessa elite das decisões... mas diria, com base nos (muitos) livros
de Saramago que li, que talvez se tivesse mais sucesso com As Intermitências da Morte ou o Ensaio
Sobre a Cegueira. Ou deverei dizer, para os efeitos pretendidos pelo
Estado, menos sucesso?
E, depois, entramos na velhinha
questão. O grupo que defende que isto já deveria ter sido feito, usando uma
frase simples, mas que nos diz que aquela pessoa, tão proativa na defesa do
pobre Governo, também não lê. Acho bem,
ele nem usava vírgulas. Senhores. Vocês não só não leem, como nunca abriram
um livro de Saramago. Rest my case!
Isto é sobre política. Nisto
concordo com muitas das opiniões que li. Mas não é de agora. Isto faz parte de um ciclo. Isto faz parte de uma
desumanização das pessoas para que não cultivem em si amor pelo saber. Primeiro faz-se com que não
tenham tempo para ler, o que leva a que não gostem de ler. Depois,
introduzem-se alternativa poucochinhas.
Depois, obriga-se as pessoas a lerem coisas de que não gostam de ler... só
porque o Ministério da Educação diz que tem de ser. Pessoas que não gostam de
ler, ganham aversão à leitura. Depois, caridosamente, afasta-se o instrumento
da tortura, o livro, e garante-se que seja só sugerido.
Imagino que, se Saramago fosse
vivo e aqui estivesse, teria palavras para dizer em privado... e só muito
dificilmente viria criticar a decisão em público. Talvez escrevesse (outra vez)
sobre esse vazio das pessoas. Não me parece que se espantasse. Rir-se-ia? Gosto
de pensar que sim.
Saramago escrevia. Não me
parece que conseguisse conter todo o entendimento que tinha do mundo dentro do corpo
magro. Fez-nos este favor: deixou que a obra viesse ao mundo. Mas só veio ao mundo
para se dar àqueles que querem esse mundo. Que querem entender também. Para aqueles
que querem ouvir o filósofo que residia nos seus ossos. Para aqueles que querem
ouvir, mais do que falar... para aprenderem a não ser cegos.
Tenho uma imensa dívida de
gratidão a Saramago. É por isso que lhe chamo Mestre. Muitas vezes sinto que ele escreveu para que eu o lesse.
Muitas vezes me salva da vida e do mundo que, tal como ele dizia, é péssimo.
Adorava que toda a gente
aceitasse a sugestão de ler Saramago. Adorava que não precisássemos de obrigar
as pessoas a ler.
Vivo de utopia sim. Como os
autores dos livros que eu gosto de ler. E é para isso que leio. Para saber que
não sonho sozinha nesta Jangada de Pedra
que, por vezes, em vez de me afastar da Europa, me afasta de todos os outros.
Não fui breve. É a vida! Diz-me
a experiência que este texto é longo demais para o digital e que a maior parte
das pessoas não vai lê-lo. Também aqui acho que vou aprendendo com Saramago.
Que se lixe. Eu quis escrevê-lo. Em todo o caso, não é de leitura obrigatória.
Estão cheios de sorte!
Marina Ferraz
Fiquem atentos ao meu
Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!