Há perguntas tabuladas, não há? Para os autores, diria eu, não existe entrevista sem a clássica o que o inspira a escrever? E eu, que por acaso ou destino até sou uma leitora de clássicos, sinto-me irritada com a clássica pergunta. Já li entrevistas suficientes para saber o que esperam de mim. O que pretendem. Esse é o bom das perguntas desinspiradas de quem entrevista. Sabemos o que aquele pombo come. É só dar-lhe o milho, bem distribuído entre nomes de autores e autoras, evidentemente, para que seja um milho menos agressivo para quem ouve e politicamente mais correto. Respondamos, então: Saramago, Jorge Amado, Huxley, Orwell, Cervantes, García Marquez, Vergílio... e deixemos para o fim Florbela, Sophia, Clarisse, Sylvia Plath, Jacqueline Harpman, Han Kang... Discorramos, então, respondendo à pergunta o que te inspira, como se nos perguntassem o que gostas de ler. Não me entendam mal! Não existem más razões para falar destes autores e de muitos outros. Mas, por eu gostar das suas obras, devo assumir que eles, com as suas mãos, vêm coordenar a minha sobre o teclado, transmitindo-me as ideias para o que salta para o papel?
Alguns dos testes para o Autismo – nota para quem não o sabe – estudam um fenómeno chamado masking. E eu tenho feito o exercício de me afastar do que acho-que-devia-ser e como-acho-que-devia-agir, na tentativa de me encontrar por debaixo dos mais de trinta anos de mascaramento. E, chegando à irritante pergunta, fiz a mim mesma outra pergunta. Não é uma pergunta melhor, mas, pelo menos, é mais original: qual seria a resposta honesta?
O que me inspira a escrever é a densidade simples de gente que nunca será conhecida. O meu irmão, com as lições mais simples que me ensina, a senhora que dá comida aos gatos e da qual nunca soube o nome, o condutor de TVDE que só queria ir ver a família e não consegue, os idiotas que põe a música demasiado alta nos centros comerciais, os pais que repreendem gratuitamente os filhos em locais públicos, a minha irmã que arriscou a vida para salvar a minha, os idosos em silêncio com o seu ananás, o copo de água que o meu avô me levava à noite, a minha mãe, para quem serei sempre pequenina, todas as pessoas sentadas na sala de espera dos hospitais.
Talvez nenhuma destas pessoas tenha escrito um romance. Talvez nenhuma delas seja um ícone digno de título para a entrevista. Talvez não abra espaço para se perceber que sou uma intelectual e uma leitora de clássicos. Mas, porra! São vidas. Vidas que não são ficção. E é nelas que a ficção se tem inspirado desde o começo dos tempos. Talvez para aligeirar a realidade, talvez para a adensar, quase sempre para nos dar a oportunidade de pensar sobre ela com um olhar novo.
O que me inspira são os sentidos hipersensíveis com que nasci. Olhar o mundo e vê-lo. Sentir-lhe os aromas e as mágoas a arder no nariz. Ouvir e escutar. Sentir tudo na pele, fundo, e coçá-la por causa das alergia, etiquetas e injustiças. Provar o azedo do mundo... cuspi-lo nas linhas.
Talvez não nasça daqui algo que os outros queiram ler. Já me resignei. O reconhecimento é coisa que não nasce do esforço ou do talento. O reconhecimento talvez já nem exista. Existe fama, que é outra coisa, dura pouco, vem dos sítios mais idiotas e muda com o vento. E, resignada, decidi mandar para um sítio – também ele nada politicamente correto – esse escrever com a inspiração dos grandes autores e de deus nosso senhor. Escrevo, inspirada por gente real, vidas reais, o mundo como eu o vejo.
Mas vou lendo Saramago, Jorge Amado, Huxley, Orwell, Cervantes, García Marquez, Vergílio, Florbela, Sophia, Clarisse, Sylvia Plath, Jacqueline Harpman, Han Kang... porque desconfio, ao lê-los, que odiavam a pergunta clássica tanto como eu...
E, se nunca o disseram numa entrevista, disseram-no mil vezes nas entrelinhas da sua obra.
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