Prometo que esta reflexão será breve.
Ora... o meu prédio tem 10 andares, que equivalem a 13, já que as duas caves e o rés-do-chão são habitados, e a entrada se faz normalmente pelo piso -2. Eu moro no 8º.
Na semana passada, uma inundação no 2º andar provocou a avaria de ambos os elevadores. Faço uma pausa textual para os habituais comentários sobre antigamente também se vivia sem eles, da malta saudosista da idade da pedra. Retomando. Viver sem elevador custa. Mas viver sem ele não custa o mesmo para toda a gente.
Talvez quem mora nos pisos da entrada – sim, são dois – não se sinta sequer afetado por isto. Depois, a dificuldade acresce a cada piso. Mas, mesmo assim, não é igual para todos. Dei por mim a pensar nisto. Nas pessoas que têm cães para passear duas ou três vezes por dia; nas pessoas idosas, que mal podem caminhar a direito, quanto mais subir tantos degraus; nas famílias com crianças, que sobem transportando compras num braço e bebé no outro; nos cadeirantes, que ficaram em regime de confinamento.
Tudo isto me fez lembrar do autismo e de quem vive com ele. Desculpem voltar ao tema, mas somos sempre mais próximos dos nossos próprios estares, e este é o meu. Penso que o autismo seja a minha casa no 8º andar. E que alguns, como eu, subam só com as compras. Mas outros subam com outros pesos e dificuldades que eu ainda não tenho. É duro e desconfortável. É incómodo e piora, degrau a degrau, com o esforço. Esse esforço pode ser interação ou estímulo. São degraus feitos de barulho, de conversas inteligíveis, de coisas tão simples como lavar os dentes ou ir a uma festa de anos.
Vai sempre haver quem diga que não é uma situação assim tão má. É gente que mora nos pisos térreos do pensamento. Fica o convite para virem ao 8º. E, por favor, quando vierem, tragam o saco de areia para a Sam que deixei no carro...
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