terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A estrela cadente




Um dia, viste uma estrela cadente. À medida que os teus passos te levavam das nossas palavras para os braços que te embalavam, já sem toque de carinho, apenas com a memória. Afastavas-te de mim e viste uma estrela cadente. E soubeste, se não o sabias antes, que havia algo no firmamento que o dizia. Que o ditava. Eu era tua. Tu eras meu. Isto era certo.

Olhando para o mesmo céu, numa distância que nos doía, demos por nós a sentir o que não se diz. Que é tão errado cobiçar o que já tem braços em redor. E tão errado querer viver o carinho que fica além dos braços que nos embalam. Mas o errado só o é quando o firmamento não quer que seja certo. E havia a estrela cadente. A que viste. E te disse. Eu era tua. Tu eras meu.

Lutando contra tudo. Contra nós mesmos. Achámos o lugar onde a estrela tinha caído e chamámos-lhe casa. Nela, fizemos rituais de café na cama. Nela, fizemos do amor um verbo que se sente e se faz. De mãos dadas, demos por nós a embater contra o mundo. Primeiro. E, depois, um contra o outro. Éramos o mundo um do outro. Imprimimos tanta força nessa demanda pela plenitude, que erodimos a rocha que nos ligava. E perdemos, estou certa, muitas estrelas cadentes, enquanto deixávamos cair tudo o que nos tornava certos um para o outro.

Até que os braços que te enrolavam, com o toque de um carinho que não sentias, eram os meus. E a distância te chamava, como sopro na distância, era a voz feminina da liberdade. Fingiste que esse murmúrio era estrela e que o universo dizia outra coisa. E foste. Primeiro para o abraço libertador da solidão; depois para quem, numa solidão igual à tua, te fez sentir menos só. E são esses braços que te envolvem, com o toque do carinho que eu quero dar-te e não posso.

Desejo-te esses braços e esse carinho, com uma honestidade tão pura que me tolda os olhos e me deixa cega. Mas ainda olho o céu, à procura da permissão egoísta que me deixe sonhar com a ideia de poder envolver-te mais uma vez. Olho o céu. E lá está ela. A estrela cadente. Para recordar que as pessoas mudam depressa, mas os astros não. O firmamento dizia. Ditava. Eu era tua. Tu eras meu. Isto era certo.

A estrela passou. Ficou a mágoa em mim. E uma ausência difícil de engolir. Porque quero ardentemente a tua felicidade e não pude dar-ta, parece errado agora senti-lo. Mas há a estrela cadente. E o destino é o que é.






Sigam também o meu instagram, aqui




terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Mais um dia




Olha, amor. Nasceu mais um dia sem ti. E o sol não sabe. Tento manter a verdade dentro dos limites frios das paredes. Para que ele brilhe.


Não é mentira, entende. Omito apenas a mágoa das verdades que me povoam o peito, para que possas sair e dançar. Mão na mão sem a minha mão. Sorriso no rosto sem o meu sorriso. Passos moles sobre areias rijas do tempo que eu já não tenho.

Não é mentira. É apenas vontade. Vontade de que o sol te beije o rosto que eu não agarro. Te pouse nos lábios que não beijo. Te aqueça as mãos despidas de mim e que se revoltam na ideia do regresso. Vontade que o sol te abençoe os amores e as escolhas. Vontade de que ele não saiba das minhas asas dilaceradas e feitas em pó, que se acumulam no fundo das fogueiras de Inverno.

Mas olha, amor. Nasceu mais um dia sem ti. E o sol não sabe. Às vezes noto que alguém avança, intempestivo, feito nuvem, para o céu onde ele brilha. Faço feitiços. De sal e de sálvia, gastando saliva e tempo e segredos só meus. E impeço que essa nuvem te chova com o turbilhão de arrependimentos toscos que trago no peito. Um aviso deserto de brandura. Ninguém se atreva a dizer ao sol que nasceu mais um dia sem ti!

Caminhando no morno abraço dos raios que se quedam do céu, imagino-te feliz. Nasce um sorriso molhado no meu rosto de pedra. Desapareço nos lábios que nem sabem sorrir. Mergulho neles, como quem mergulha na mágoa. Uma ideia demorada no espaço onde o nunca e o nada procriam. E nasço eu, na posição fetal de uma dor que não se explica. Sorrindo. Porque, algures, sob o sol, também sorris. E tens quem sorria de volta. Nessa bênção que eu peço e dou todos os dias. Esses dias em que não digo – e não deixo que ninguém diga – a verdade ao sol. Essa de que nasceu mais um dia sem ti.

O sol cresce, ergue-se, ponteia o céu em todas as posições. Engraçado como gira a Terra que eu piso e a minha mente, de formas tão similares, sem que ninguém se aperceba. E também o sol não se apercebe. Nem do movimento terreno, nem da minha dor, nem que nasceu mais um dia sem ti.

Calo palavras alheias de revelação. O sol não sabe nem se quer que saiba. Shhhh… deixa-o ser feliz.

Aos poucos, ele adormece. Raio a raio. Anoitece e o sol, que sorri no horizonte, fervilha e não sabe. Uma pequena vitória num dia vazio. Ninguém disse ao sol que foi mais um dia sem ti.






Sigam também o meu instagram, aqui




terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Nunca mais




Nunca mais te vou dizer que te amo. Às vezes, não o direi por me lembrar, no último segundo, que não posso dizê-lo. Mas não vou dizer. Não o direi por respeito. Não o direi porque não faz sentido. Nunca mais te vou dizer que te amo. Mas não será porque não te amo.

Um dia, talvez o diga a outra pessoa. Num momento pleno de intimidade, sentindo paixão vibrante no corpo que se cansa da solidão. Sim! Um dia talvez diga a outra pessoa que a amo. Mas nunca mais vou amar. E não vou dizê-lo de propósito. Apenas porque me escapa a memória para o desejo de dizer-to. Apenas porque os lábios, desertos de ti, ainda decoram essas palavras e as murmuram, sem som, no quedar das noites. Alguém lhes dará som. Às palavras. Mas nunca mais vou dizê-las a quem, de direito, as cultiva.

Claro que as palavras ditas têm peso. E temo ouvir, de volta, um “também te amo”. Não farei por cativar amores no meu deserto. Tentarei explicar que sou a chama que aquece as mãos nas noites de Inverno, mas não o sol que ilumina os dias. E talvez, só eu sei como o espero, as mãos aquecidas saibam que eu não passo disso mesmo. Do calor notívago de uma paixão que esmorece, com prazo de validade estipulado e dezenas de senãos colados à sola do pé. Mas, se alguém o disser - “também te amo” – talvez eu sinta vontade de corrigir o teor frio das palavras que disse. Porque nunca mais vou querer ser dona das culpas completas de todos os erros do mundo.

Vendo-te passar, as minhas mãos agarradas a essas mãos desiludidas, talvez se libertem. Porque a extensão do meu corpo me dói. Peça mal encaixada num puzzle qualquer. Que não me preenche e não me define. Que me deixa mais vazia de mim do que alguma vez estive, mesmo nas noites sós. E talvez te cumprimente com dois beijos no rosto e um cumprimento alegre à mão que estende a tua. E talvez finja que não há, no meu peito, um lugar cativo que é teu. Mais uma vez, talvez sinta o desejo de dizer as palavras que nunca mais vou dizer. Mas não temas. Não as direi. Nunca mais as direi. Quero que vivas em paz. Vou sorrir apenas.

Sorrindo. Avançarei pelos dias sorrindo. Descobri o segredo da felicidade. Essa escolha inusitada que as pessoas teimam em não fazer. E escolho ser feliz todas as manhãs. Afastando a tristeza com um gesto: “hoje não, amanhã!”. Mas parece-me que todos os dias são amanhãs. Achas que estou à tua espera. Mas nunca mais vou estar à tua espera. Tal como nunca mais te direi que te amo. Estou só à espera da morte. Avanço para ela, um dia de cada vez. Um segundo de cada vez. Um pensamento de cada vez. Cada vez que me lembro que nunca mais te vou dizer que te amo.






Sigam também o meu instagram, aqui



terça-feira, 25 de dezembro de 2018

A família




Não gosto do Natal. Maioritariamente porque não sou católica. Mas não só. Caio frequentemente em conversas sobre o quanto não gosto do Natal. Especialmente quando saio para ir ver as iluminações de Natal. Ou para fazer as compras de Natal. Ao qual, já agora, chamo Yule.

Usualmente as pessoas não discutem o meu desamor natalício. Mas lá acontece, uma vez ou outra, cruzar-me com os espécimes raros no meu círculo, que mal ouvem a primeira canção de Natal, ainda em Outubro, já põe luzes na testa e guizos enfiados em locais que não se dizem para não ofender  os menores.

E lá calhou ouvir: “Eu gosto do Natal porque é o tempo da família”.

Ora. De todas as gotas que já me caíram no amargo do licor de bacalhau da consoada, esta foi a que fez o azeite subir e temperar-me as paredes do rosto inquieto. Que se fale de Natal, lançando a palavra para as ruas prostituídas da repetição, pouco me interessa. Porque não gosto do Natal. Mas gosto ainda menos de ouvir a palavra família assim gasta, rodada como os leitões no espeto, cada vez que precisamos de justificar a beleza da quadra natalícia.

O Natal não é o tempo da família.

A família é o tempo. E o Natal nem entra na frase.

Na minha casa, talvez não possamos sentar-nos todos à mesa, todos os dias. Mas fazemos por estar, sempre que podemos. Aniversários, festas, problemas e dificuldades. Não deixamos lugares abertos para que passem ventos. Nem ficamos à espera que existam prendas debaixo do pinheirinho de plástico dos chineses.

Discutimos feito idiotas muitas vezes. No nosso presépio sobrelotado, estou certa que todos nós já rodámos a personagem de um qualquer animal de manjedoura, em algum momento. E também todos nós já personificámos a estrela. E já todos nós derrubámos as paredes e as reerguemos. Como os porquinhos, que não fazem parte da história mas podiam fazer. Em cimento. Em madeira. Em palha. Com o que houver à mão. Porque sabemos que fazer algo pelo outro é importante, mesmo quando não temos meios para dar o melhor.

As nossas guerras são feitas de sal. Choramos feitos malucos porque a minha sobrinha fez 18 anos ou porque a minha mãe deu um murro no teto do carro a dançar o Mamma Mia. De rir, no segundo exemplo, mas ainda conta. E fazemos literalmente centenas de quilómetros para ver a miúda morder as velas ou aprovarmos a coreografia ilícita dos ABBA. A mesma que fazemos usualmente em trio feminino. Fazemos. Não porque é Natal. Porque nos amamos.

Tanto, mas tanto, que nem reclamamos – muito - de ter de ver 60 fotos desfocadas e consecutivas nos vídeos da primária do meu pai. Tanto, mas tanto, que ainda guardamos uma ou duas perguntas para aquela história que a minha avó já contou 100 vezes. Tanto, mas tanto, que desejamos loucamente a 101ª vez que ela vai contar aquela história.

A família é o tempo.

Estaria mal se a celebrasse no Natal ou se só a tivesse no Natal.

A família é tudo o que fica quando tudo o resto se vai.

Rotos, nus, descalços ou com os pés a sangrar iríamos ter uns com os outros ao inferno, se fosse preciso. E que se lixasse o Natal e todos os seus anjos celestes.

O Natal não é o tempo da família.

A família é o tempo. Porque tempo é tudo. E família também.

Tenho uma família de um. Estejamos onde estivermos, estamos sempre juntos. E seja que altura for, estamos sempre lá. Contamos uns com os outros e uns aos outros esta história que não se diz. No Natal, em redor da mesa, esquecemos até que é Natal. E só nos juntamos pela desculpa. Porque é mais uma desculpa na soma de todas as outras desculpas. E qualquer desculpa nos serve.

No Natal, lá damos um presente uns aos outros.

Mas é o ano inteiro que passamos a dar-nos uns aos outros.

O Natal não é o tempo da família.

A família é o tempo.

E o tempo é eterno.






Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Caído no chão




Se me encontrares algum sonho caído no chão, por favor apanha-o e deita-o fora. Não quero deixar o solo imundo por onde passo, com esses cacos de mim. Caem-me inadvertidamente dos bolsos. Assim, sem querer. Ainda pensam que são sementes e que, se caírem na terra, talvez possam crescer e dar frutos. Coitados. Ignora-lhes a loucura. Se me encontrares algum sonho caído no chão, por favor apanha-o e deita-o fora.

Larguei os sonhos aos teus pés. Nesse tempo. No tempo em que também eu – louca – pensei que eles pudessem ser semente. Descobri que eram vidro. Sob a bota da tua desonestidade, vi que quebravam. Apanhei-os de corrida. Movimento tão rápido e intuitivo que cortei neles as mãos. E neles quis cortar os pulsos, mas não consegui.

Do sangue das feridas cultivou-se algo de pútrido. Talvez não uma infeção mas uma desilusão que crescia na mesma medida. E fui metendo nos bolsos os cacos. Pensando. Talvez um dia desses um passo atrás. Nesse passo, como por magia, talvez se reunissem as peças do sonho e ele respirasse. Talvez fosse semente outra vez.

Tu és inquieto. Não sabes, como nunca soubeste, dar um passo atrás. Quando recuaste não foi um passo. Foi uma milha. Porque não me querias perto. Nem a mim nem aos meus sonhos quebrados, que pendiam nos bolsos.

Limpei os olhos às mãos e as mãos às calças. Tentei ensinar os meus pés a andar outra vez. Dormentes e sem destino, eles lá obedeceram ao som tremeluzente da minha voz rouca de mágoas e doente de frios. Tropeçando aqui e ali nas memórias de pedra. Escorregando aqui e ali na lama da saudade.

Da cabeça aos pés eu fiz-me e construí-me na falta de noção. Afirmei que a nudez era sonho. Que a sujidade era sonho. Que o ardor dos olhos era sonho. Porque todos eles eram poesia. E sonho é esse. Não é?

Quedando-se dos meus bolsos, os cacos insistiam que não. Irritavam-se da minha presença, que tudo aceitava, de forma mais ou menos despreocupada e ausente. Nem os sonhos quebrados queriam a companhia da mágoa. Ainda que ela fosse poética e repleta de arcaicos arrebiques de semântica.

Então, olha, inadvertidamente e quase sem dar conta, os passos foram libertando os cacos do meu bolso. E é por isso que te peço que, se me encontrares algum sonho caído no chão, por favor o apanhes e o deites fora.

Acontece que o sonho não era a poesia. Era o amor.

Acontece que o sonho não era amar. Era amar-te.

Acontece que o sonho não serve para nada.

Por isso, não leves a mal. Não largo por aí esses cacos de propósito, nem para te recordar do tempo em que sonhar era a unidade cristalina de um nós. Eles caem-me inadvertidamente dos bolsos, enquanto me convenço de que está tudo bem. Não quero sujar o chão que tu pisas. Por favor, se me encontrares algum sonho caído no chão, apanha-o e deita-o fora.






Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A fonte da minha cidade

Autor da foto: José Luis Filpo Cabana

Na fonte da minha cidade há o salário de um ministro em moedas enegrecidas. Todas elas foram atiradas sobre o ombro direito, como manda a tradição. Desejos mudos, eternamente condecorados pela efemeridade do momento.

Ao lado da fonte, o Senhor Roberto pede esmola. Tem sempre o copo vazio, pousado ao lado do saco velho, onde guarda tesouros de cartão e lata. E rugas no rosto. Manchas do sol na pele. Uma palidez na debilidade da voz que amornece um pouco a cada dia.

Não tem destreza para se debruçar sobre a fonte e esticar a mão até às moedas que lhe pagariam uma refeição quente pela primeira vez naquela semana mas também não se importa de não ter. Não quer pagar o alimento com os sonhos de ninguém.

Calha a fonte da minha cidade ser mesmo em frente à Câmara Municipal. Por ela passam, de fato engomado e gravata, aqueles senhores de pasta de executivo, cujo nome não importa, posto que todos lhe chamam “senhor doutor”. Na sua maioria não têm doutoramento. E, alguns, se tiverem licenciatura, foi provavelmente às custas dos pais que pobres eram e pobres permanecem, numa aldeia qualquer, sem terem dos filhos nem visita, nem telefonema.

Os sonhos que construíram, sobre os ombros dos pais, são como as moedas que pintam o fundo da fonte. Também ninguém lhes toca. Nem mesmo eles, que se esqueceram, algures, de que os sonhos são mais do que zeros à direita, antes da vírgula.

Poderiam, talvez, ter tido o sonho de tirar das ruas todos os Senhores Robertos. Mas sonhos desses não cabem nas pequenas malas de executivo onde se acumulam vouchers de férias, acordos confidenciais com fundos em contas offshore e bilhetes secretos das amantes.

Os desafortunados têm a sorte de sonhar. São eles que se despedem das moedas que pintam o fundo da fonte. Os ricos trocaram os sonhos por outra coisa. E é nela que se deixam afundar, sem a noção de que os ossos que ficam por debaixo das carnes rechonchudas vão virar pó na mesma terra que acolhe os de todos os outros.

A Dona Maria não teve muita sorte na vida. Talvez por isso ainda tenha sonhos. Tirar o Senhor Roberto da rua talvez seja um deles, mas não pode. Vê mal e caminha com dificuldade. Vende a dúzia de castanhas por dois euros e meio. Tem o rosto farrusco do carvão. O que ganha mal lhe paga as contas. Mas oferta sempre um cartucho de castanhas ao mendigo, que lhe sorri e as recebe como se fossem uma dádiva divina. Partilham, ao lado da fonte, a miséria dos dias.

Os turistas passam. Atiram sobre o ombro direito uma moeda. Desejam ser uma pessoa sem sonhos, como os senhores doutores de fato executivo, ignoram o pedinte e não compram castanhas para não estragar a dieta.

Anoitece na minha cidade e a fonte ilumina-se nos rostos que enegrecem. Há silêncio e moedas na fonte. Uma mão estendida aos céus e um carrinho de castanhas que se vai.

O Inverno é frio na minha cidade. As pessoas são mais.

E as moedas são sonhos plantados na fonte, alimentando sonhos que morrem, ao lado de gente condenada a morrer sem sonhos.





Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Lágrimas no estendal





Adormeci de lágrimas nos olhos. Com a cama meio vazia. Uma sensação de frio que se plantava à esquerda de mim. E os lábios que murmuravam. Agarra-me. Ao ar. Aos cobertores. Aos vidros embaciados. Esses que talvez agarrassem. Mas não têm braços. Adormeci de lágrimas nos olhos. Um poema mudo numa palavra que já foi romance. E que hoje é gelo. Depositado na memória. Fazendo lascas de mim onde houve lascas de mimo.

Lá fora chovia. Podia ouvir. As gotas inusitadas contra os vidros. O seu som suave, no toque das folhas das árvores da praceta. Lá fora chovia. Eu queria dormir. Cerrei os olhos molhados de luar. E adormeci. Adormeci de lágrimas nos olhos.

Acordei para um mundo distinto. Havia um tom dourado a resplandecer no alcatrão do estacionamento. E um sol que se exibia no céu, vitorioso, enchendo o peito por entre as nuvens ocasionais, como se as tivesse vencido.

Saudou-me e eu saudei-o. Ele, com um toque breve de calor nas minhas mãos despidas. Eu, agarrando a chávena de café com açúcar. E trocámos um leve olhar de compreensão, enquanto eu decidia que era hora.

Era uma manhã de sol. Agarrei as minhas lágrimas. Pendurei as minhas lágrimas no estendal. À espera que secassem. Que se fizessem em bruma cadente, desvanecendo de mágoas pelo brilho quente e soalheiro do dia. Pendurei as minhas lágrimas no estendal.

O dia avançou. E escureceu. O sol bocejou antes de se deitar e agitou as copas das árvores, que deixavam cair mais algumas folhas outonais pelo chão sem tempo. Fizeram um tapete de tonalidades mornas para cobrir a sepultura das lágrimas que tinha estendido no varal, pela manhã. E, depois, o sol despediu-se. Foi-se. Deixou-me o estendal vazio de lágrimas.

Ao deitar-me, adormeci de olhos secos. Com a cama meio vazia. Uma sensação de frio que se plantava à esquerda de mim. E os lábios que murmuravam. Agarra-me. Ao ar. Aos cobertores. Aos vidros embaciados. Esses que talvez agarrassem. Mas não têm braços. Adormeci de olhos secos. Um poema mudo numa palavra que já foi romance. E que hoje é gelo. Depositado na memória. Fazendo lascas de mim onde houve lascas de mimo. E percebi. Doíam-me os olhos que não choravam.

Adormeci de olhos secos. A dor que não escorre, inunda. Afoguei nos olhos ressequidos. Tive saudades das lágrimas que secaram no estendal. E da chuva que não caía. E tuas também.






Sigam também o meu instagram, aqui

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Ganchos, palhetas e más notícias



Encontramo-los. Um pouco por todo o lado. Ganchos de cabelo. Palhetas. Más notícias. Parecem migalhas pelo chão da casa. Obrigando-nos a fazer vénias desassossegadas a cada dois passos. Como se fossemos servos da vida e não seus convidados.

Brilham no encontro do sol. Ou camuflam-se nas frestas da madeira. Maquilham-se de novidade. E lá ficam. Dentro dos tubos das máquinas de lavar. Dentro das ranhuras dos móveis. Encostados aos cantos do azulejo. Perdidos no meio dos lençóis. Ganchos e palhetas. E más notícias. Perdidos por todos os espaços plausíveis e implausíveis.

Os passos que nos separam do encontro com o inesperado tornam-se eternidade. E podemos passar a vida de joelhos. A apanhar o metal dos ganchos. O plástico das palhetas. A inquietude das más notícias. Se nos deixarmos levar pela tendenciosa esperança de que não exista caos onde a ordem nunca governou.

E avançamos. A casa é um mundo maior nos olhos que buscam o equilíbrio. E torna-se difícil gerir o encontro caótico com objetos inusitados pelo soalho. Agimos como se eles tivessem alma ou resposta pronta. Intempestivamente gritando com eles. Ao mesmo tempo que nos curvamos, num gesto mecânico e que pouco diz sobre as nossas crenças ou lealdades.

Ganchos, palhetas e más notícias. Podemos esperar encontrá-los por aí. Espalhados no chão das nossas vidas. Perdidas e à espera do encontro. Encontradas e à espera de se perderem. Objetos e sentidos com vida própria. Que nunca sabemos onde estão e que estão em todo o lado. Fazendo-nos revirar olhos. Olhos que se pousam no chão. E que os encontram, no vento que nos sai dos lábios frustrados. Outra vez. Raios.

Desconfio que os ganchos de cabelo, as palhetas e as más notícias não tenham culpa. A culpa reside nos olhos que, cansados do confronto, se prendem no chão. O problema reside mais no curvar do pescoço do que no curvar de costas. Talvez os olhos no chão sejam a vénia mais usual da atualidade e a que mais dano causa a uma alma que nasceu para as vistas panorâmicas do ser.

Confesso. Estou farta de os encontrar. Ganchos, palhetas e más notícias. Talvez seja hora de largar o chão. Se não com os pés, ao menos com os olhos. O horizonte fica em frente. E o pôr-do-sol também está lá todos os dias. Não tem más notícias. Nem ganchos de cabelo. Nem palhetas. Tem raios e tonalidades quentes. Tem a novidade repetitiva da noite que cai e anuncia o dia que se segue. Ainda que o vejamos de rosto erguido, esse sim, merece que nos curvemos na mais sentida das vénias.





Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 20 de novembro de 2018

As meias




Sempre gostei demasiado de meias para alguém que não gosta de metades. Meias, entendam, não é metade de nada. Por exemplo, enquanto um amor pela metade não é coisa nenhuma, as meias podem ser um amor inteiro.

Na minha vida, as meias têm sido um amor inteiro. Devo ter um par de meias oferecido por cada pessoa que amei. Não porque as coleciono ou porque as pessoas o saibam. Mas porque, de alguma maneira, friorenta e impossível, as pessoas habituaram-se a tentar buscar o meu conforto e me estenderam sempre, sem sequer saberem disto, esses pedaços quentinhos de carinho.

Isto vem desde há muito tempo. Quando, em menina, num Inverno friorento de pés-gelo, a minha avó me calçava um segundo par de meias e me deixava deitar no sofá, de pezinho infantil enfiado no bolso do seu xaile favorito. E o meu avô retorquia, quando ela não o fazia depressa “vai calçar mais um parzinho de meias ao pinguim, vai”.

Pela história de mim, houve momentos de ternura imprevista. Um amigo nortenho que me estende as meias de lã castanha. “Estas são mesmo quentinhas”. Uma forma de dizer “gosto de te ter aqui, sei que está frio mas quero que estejas bem”.

O namorado que, em eras mais amenas, vendo-me a paixão pelas riscas cinzentas e pretas, me oferece um dos seus pares de meias. “Estas fazem conjunto com as tuas cuecas favoritas e a camisola de malha”.

A minha mãe, que todos os anos lá encontra um par mais quente do que o anterior, ora com motivos natalícios, em turquesa; ora com pelinho por dentro; ora com antiderrapante “porque o chão cá de casa está uma desgraça”. E ninguém quer que eu caia das escadas abaixo… outra vez. Ou que me queixe de frio. Outra vez.

O facto é: aprendi a amar as meias. Logo eu, que detesto as metades. Amo as meias. E vejo nelas expressão de amores maiores do que a casualidade.

Gosto de meias. De meias caminhadas de sorriso no rosto. De comer o crepe com gelado a meias. De meias conversas, permeando instantes de pausa entre o trabalho. Gosto de meias de lã. De meias de algodão. De meias-calças. E do sorriso cativo que deixam no rosto, a par com o calor nos pés. Na alma. Em mim.

As meias. Tão cheias de história e com histórias tão cheias de amor. Gosto de meias. E, volta e meia, pensar nisto aquece-me por dentro e faz-me sorrir.






Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Aprender a ser feliz



Aprender a ser feliz é horrível. E é por isso mesmo que a maioria das pessoas não quer fazê-lo. Aprender a ser feliz é horrível.


Desencantam-se as vozes para contar tragédias. Há marés de comiseração e pena. Coitadinho: tão boa pessoa e não merecia. Foi a vida. Foi o mundo. Foram os outros. Foi o desígnio dos Deuses. Coitadinho. Uma mão que bate nas costas. Um olhar de ternura, quase materna. E, de repente, um calor na alma amarga que até parece acalmar as mágoas e trazer um pouco de aventurança ao dia que, não tendo terminado ainda, poderá trazer o bom e o mau, conforme a sina assim o ditar. 

Esta é a tua história. Mas não leves a mal. Porque esta também foi a minha história. Esta é a história de muita gente que gosta de insistir na ideia criada, globalmente sustentada e filmicamente reproduzida de que a nossa felicidade está nas mãos de entidades, critérios e condições que nos escapam e nos transcendem.

Estendemos a mão à cigana e focamos os olhos nas cartas de tarot. Queremos ver nas borras do café e descobrir nas rachas da bola de cristal. Será que vamos ser felizes? Será que esta dor passa? Será que o sofrimento não tem fim? E, por detrás de panos e instrumentos, de toques e de análises estruturadas, a resposta dada depende sempre da mesma condicionante e tem sempre o mesmo obstáculo. Sim, dizemos, vais ser feliz mas (existe este mas) vais fazer por isso?

Dizemos que sim. Que vamos fazer por isso. Mas a ideia de termos de fazer algo nas nossas vidas para sermos felizes é algo que frequentemente se interpreta muito mal. Vou, é claro. Pensamos. E depois enchemos os dias de pessoas. Ou de gatos. Ou de filmes. Ou de álcool. Ou de drogas. Ou de roupa. Ou de promoções. Ou de viagens. A busca pela felicidade passa, de forma mais ou menos explicita, pela procura daquilo que nos dá um momento de prazer.

Ser feliz não é ter um momento de prazer. Ser feliz nem sequer é ter, em soma, mais momentos prazenteiros do que desagradáveis. Isso é estar feliz. Ser feliz é outra coisa. Uma que não acontece de forma natural nem por se tentar enfiar dentro do vazio, que é nada, um sem fim de coisas que são sugadas e se mesclam com o vazio até serem, também elas, fragmento de coisa nenhuma.

Ser feliz é uma aprendizagem. Quem aprende a ser feliz não vai ter sempre sorte na vida nem vai, de súbito, conhecer apenas a parte mais doce da existência. Não existe um recanto do mundo programado e modelado para aqueles que aprendem a ser felizes. Não! A dinâmica do mundo é a mesma para todos. Não há ninguém que não acorde mal disposto sem razão. Não há ninguém que não tenha um acidente, uma discussão, um problema, uma dificuldade. A vida de uma pessoa feliz é igual à de uma pessoa triste. E a diferença fundamental está na escolha que se faz. Na postura que se adota. No olhar que se lança sobre a mesma situação.

Mas aprender a ser feliz não é fácil. Implica, para começar, que se olhe para fora, para compreender quão pequeninos somos, no meio de um mundo com tanto potencial e com um potencial tão mal aproveitado. E que, nesse olhar que se dá ao outro, sejamos capazes de nos despir de nós, das nossas ideias e preconceitos, para ver e aceitar que a dor alheia, ainda que não nos doa na pele, pode tomar proporções que nem ousamos pensar e conhecer.

Depois de olhar para fora, é importante olhar para dentro, para percebermos que, na nossa insignificância, somos ainda dotados do privilégio de existir e da inteligência para superar as perdas, conquistar batalhas e resolver problemas.

Uma vez feito isto, é ainda necessário que se encontre espaço para pensar nela. Na palavra proibida. Na inimiga comum, que permeia os tempos, qual presença demoníaca sob o véu do pensamento. A morte. É importante pensar a morte para ser feliz. Porque ela, pela sua iminência e infalibilidade, tem o duplo poder de intensificar os momentos e abrir uma porta de saída de emergência. Saber que vamos morrer faz-nos amar a vida. Saber que podemos morrer faz-nos largar o temor do erro, da falha, da privação.

E, nesse olhar para dentro, para fora e para a morte, há uma coisa que salta aos olhos. Podemos aprender a ser felizes. Porque a felicidade não é um momento e não é uma situação. Não é uma circunstância nem uma casualidade. A felicidade é uma escolha.

Mas aí é quanto tudo se complica! Quando sabemos que a felicidade é uma escolha. Quando sentimos esta certeza, feito toque do sol na pele, torna-se muito mais difícil viver. É horrível. Porque, a partir daí, se não formos felizes não há espaço para desculpas. Não há espaço para atribuição de culpas alheias ao mundo, à vida, aos outros ou aos Deuses. Sim! Torna-se muito mais difícil viver. Porque ninguém quer olhar ao espelho para saudar o único culpado da sua própria miséria. Aprender a ser feliz é horrível. E é por isso mesmo que a maioria das pessoas prefere agarrar-se às convenientes cordas de fatalidade. E sofrer alegremente na inábil e asnada libertação de ser servo das sádicas linhas do destino.

Aprender a ser feliz é horrível. E é por isso mesmo que a maioria das pessoas não quer fazê-lo.


Isto deixa-me triste. Mas a culpa não é minha.






Sigam também o meu instagram, aqui