A funcionária dedilhava cegamente no computador. Não parecia que o movimento dos dedos servisse para mais do que preencher a sala com o eco dos batimentos cardíacos das teclas. Não levantava os olhos das próprias mãos. Um sinal claro de enfado, já que parecia alhear-se até da vida. Tinha o ar fantasmagórico de quem estava ali por estar. Aclaro a voz para chamar a sua atenção e estendo-lhe o post-it amarelo onde escrevera a referência. VAN-NIS-89. Contrariada, ela agarra o papel e aponta-me o dedo ossudo para um corredor poeirento.
– Secção de Vantologia, é uma das prateleiras centrais, depois da Narratofonia e antes do Nulitário. Não há que enganar.
Agradeço. Mas teria preferido que viesse comigo. De todas as vezes que visito o arquivo acabo por perder vários dias, neste emaranhado de corredores e corredorzinhos intermináveis. Ossos do ofício, penso. Uma resignação que não diverge muito da de todos os funcionários do país, com trabalhos mais convencionais.
O arquivo das inexistências guarda os materiais sobre todas as recordações de vidas nunca vividas. Avanço por entre os catálogos de História que narram todos os não-acontecimentos, passo pelos registos fotográficos de todas as pessoas que nunca existiram, arrepio-me junto das prateleiras de todas as promessas que nunca foram feitas ou que, sendo, nunca foram cumpridas. Há gavetas entreabertas, com aranhas vivas, que fizeram teia nos conceitos decadentes de todas as escolhas que não foram tomadas e de todas as conversas que não se tiveram. Num canto, vejo os alfarrábios com as narrações extensas dos amigos imaginários e sei que estou a chegar à secção certa. Finalmente. Pode ser que não me perca, desta vez!
Vantologia. Aqui está ela! Graças! Não direi a Deus, porque provavelmente, se bem o conheço, também mora no meio desta confusão de corredores. Talvez ele seja esta confusão de corredores. N, N, Na, Ne, Ni... vou dizendo isto em voz alta, com a voz comida, aniquilada pelo Nada. Nulitário. Aqui estás tu. 81... não... ah, 89! Tiro o vácuo da prateleira que abraça os ficheiros dos segredos de todas as personagens não escritas. Sopro o pó, que se transforma em névoa fina e alastra um frio serrano pelos meus ossos. Encontro o teu nome e a tua história. Cumprimento-te. Beijas-me na boca, como quem me sopra inspiração para os órgãos. O meu coração acelera e eu dissolvo-me no espaço, para acordar na minha cama e correr para o computador.
No eco das teclas do meu computador, entro em trabalho de parto e nasces.
Agora existes. Só para mim.
O teu nome desaparece desse arquivo.
Bem-vinda sejas ao mundo!
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