terça-feira, 27 de julho de 2021

O resto da minha vida

 

 Fotografia de Analua Zoé

O resto da minha vida. Penso o resto da minha vida como moeda de troca. Sobra-me pouco. Por isso, o seu valor relativo sofre frequentemente quebras na bolsa. Mas ainda vale de algo para dois ou três investidores de peso e uns quantos sócios minoritários.

 

Se o resto da minha vida é valor, penso no amor como plataforma de gestão. Quanto vale, afinal, a vida? O resto da minha vida?

 

Pensar no resto da vida como valor concretizado faz-me questionar se daria a vida por alguém... e por quem... e por quê. Constato que tenho uma mão cheia de sonhos e outra cheia de pessoas por quem vale a pena pôr-me em frente da bala. Por vezes, penso, até por um abraço, até por um beijo, até pelo enleio nas noites... e penso em ti.

 

Não penses que daria o resto da minha vida por um abraço. Provavelmente não. Mas abdicaria facilmente de algumas semanas para sentir o meu corpo envolto pelos teus braços-muralha. Sem pena de perdê-las e sentindo que o resto da vida, sem essas semanas, valia agora mais.

 

Não. Também não daria o resto da minha vida por um beijo teu. Daria, talvez, um ou dois anos do tempo que me sobra, meia dúzia dos que já vivi, algumas das alegrias que me falta colher. Mas não daria o resto da minha vida por um beijo teu.

 

Daria, facilmente, uma década. Uma década inteirinha, com todos os seus nove anos mais um, para adormecer nos teus braços. Para sentir o calor dos teus dedos debaixo da camisola do pijama, pousados suavemente entre a cintura e a barriga, libertando-me de anseios e embalando-me na noite, com o calor dos frutos amadurecidos ao sol. Por esse momento, daria uma década. Mas não. Não daria, por esse enleio, de sossego isolado e carente, o resto da minha vida.

 

O resto da minha vida? Daria o resto da minha vida para te ouvir dizer – vomitando do âmago as palavras – que me amas. Podia morrer enquanto o dissesses. E valeria mais do que a soma ou a multiplicação dos dias vindouros. Porque ouvir-te dizer que me amas valeria o tempo de duas vidas. Dava o resto da vida e todas as seguintes. Para morrer, em definitivo, no dizer dessas palavras-mel, que me adoçam os sentidos do impossível.

 

É como te digo. Penso o resto da minha vida como moeda de troca. Sobra-me pouco. Por isso, o seu valor relativo sofre frequentemente quebras na bolsa. Do pouco valor que tem, talvez não interesse muito que a desse, com facilidade, em troca dessa declaração de amor. Talvez essa declaração de amor valha mais, por si só, do que o resto da minha vida.

 

Mas o amor é a minha plataforma de gestão. E, precisas de saber. O resto da minha vida e toda a vida que já vivi. As minhas vidas passadas. As minhas vidas futuras. Todos os “eu” que eu fui. Todos os “eu” que eu poderei vir a ser. Todos os que poderia vir a ser e jamais conquistarei. Trocaria tudo isso. Até à última migalha. Não por um abraço. Não por um beijo. Não pelo enleio na noite. Não pela palavra “amo-te”, sentida e cheia de sentidos. Trocaria tudo isso... para tu seres feliz. Pelo resto da tua vida.

 

Marina Ferraz






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terça-feira, 20 de julho de 2021

Lei da bala

 



Revolução é, literalmente, o ato de revolver. Faz-se a fogo. Nem sempre se revolve com um revólver, é verdade. Mas, usualmente, faz-se na lei. Nessa. A da bala.

 

 

Empunharam cravos. Cravos. Vermelhos como o sangue. E as ruas mantiveram a calçada branca imaculada. Com passos. Militares. Rumo à liberdade. Capitães. Do mês das chuvas. Chovia o sonho. Alagava a alma. Esse. O da liberdade.

 

Livres, como as gaivotas. Ao som das canções. Nas vozes do povo. Unido. Vencedor. Senhor do tempo que fora da outra senhora. Livres, como os cravos vermelhos empunhados. Nos canos de espingardas virgens de sangue.

 

Cantou-se o cravo. E a vida. E a mudança. E a vida. Entranharam-se os cravos, com todos os seus rebordos recortados. E a vida. Plantaram-se os cravos, cortados uma vez por ano para celebrar, nas ruas a liberdade.

 

Uma vez por ano, a liberdade na voz soava à revolução. Noções disparadas na ponta das línguas contentes, dispostas a celebrar a vida nessa emoção liberta de passados que, aos poucos, começavam a repetir-se quando o mês não Abril.

 

Ruas cheias de gente. Hoje vazias de gente. Onde se despiam máscaras de tirania. Onde se vestem máscaras de tirania. E cravos. Cravos vermelhos. Cantam-se os cravos. E a vida. E a mudança. E a vida. Entranham-se os cravos, com todos os seus rebordos recortados. E a vida. Plantam-se os cravos, cortados uma vez por ano para celebrar, longe das ruas – e sem a união do povo - a liberdade. A liberdade. Que esvai, aos poucos, no chão de pedras brancas imaculadas, tantas vezes negadas aos passos.

 

Canta-se o cravo. E a vida. E a mudança. E a vida. E a liberdade. Que começou a morrer. E ia morrendo. E aqui permanece, na borda d’água de um estado de direito, que rouba o direito. Passo para o abismo incoerente.

 

Dos heróis. Dos que denunciam. Dos que saem e confrontam. Outrora se dizia pátria. Hoje, pária. Levam cravos. Acreditam. Na vida. Na liberdade.

 

Mas revolução é, literalmente, o ato de revolver. Faz-se a fogo. Nem sempre se revolve com um revólver, é verdade. Mas, usualmente, faz-se na lei. Nessa. A da bala.

 

As pessoas esquecem. Imagino o som silenciado das gaivotas com os disparos. Tiro certeiro, calando novas ditaduras que se propagam e se negam. As pessoas esquecem. E sinto as mãos agrilhoadas à falsa liberdade de uma constituição trespassada pelo esquecimento. As pessoas esquecem porque o chão, imaculadamente branco, não tomou a cor dos cravos recortados.

 

O problema não são os cravos, mas o esquecimento. As pessoas esquecem. É simples esquecer. Cravos. Balas não. Porque é mais fácil varrer as pétalas do que o sangue.

 

 

Revolução é, literalmente, o ato de revolver. E eu sei-o. Mas não quero matar a paz com a guerra. Ainda que muito da paz se tenha conhecido nessa lei. Nessa. A da bala.

 

Grito. Palavras-bala, que me tornam a pária. E vou de braços abertos. Para que os outros, com as balas de metal, me perfurem com mentiras ocas e regras vazias. Deixo a espingarda em casa. Piso as pedras imaculadas. Meio louca, mas lembrando o que nem vivi, sigo a querer acreditar nos cravos e que eles são as balas certas. Vou.

 

 

Se perguntarem por mim, fui comprar flores.


 Marina Ferraz






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terça-feira, 13 de julho de 2021

Não preciso

 



Desengana-te, meu querido, eu não preciso de ti para nada!

 

Nas estantes dos meus livros já existem mulheres suficientes que precisaram. De ti. De alguém como tu. De um ser qualquer, capaz de dar o que elas, por educação ou virtude, não conseguiam fazer. Não sou personagem literária, mas autora. Coloco nas linhas a capacidade de ser e de fazer o que me aprouver. Sozinha. Sem precisar de afago, de embalo, de palavra de incentivo. Aceito-os, mas não preciso deles. Sei exatamente onde pôr as vírgulas nas frases da minha vida. Não preciso que me pontues. Nem que me acrescentes superlativos ao excesso do que já sou.

 

As prateleiras altas da cozinha podem fazer-te pensar que preciso de ti. Não preciso. Já comprei os degrauzinhos extra que me elevam ao patamar superior... e raramente os subo porque, dotada de racionalidade, soube colocar à mão as coisas de uso corrente. Baixei até os copos de vinho para a prateleira de baixo, à medida que a ausência começava a pedir taninos. E não! Não preciso que me abram as garrafas. É uma arte que domino. Tão profissional e exímia que, se um dia fizer outro currículo, talvez coloque isso na primeira página. Sobre mim. Sei abrir o vinho sozinha. E apertar os atacadores também!

 

Poderás pensar que preciso de ti. Para o corpo. Mas o corpo sacia-se facilmente com gestos e toques. Com o escorrer da água quente dos duches pelas costas. Com a meiguice do toque trazido pelas mãos que espalham o creme hidratante. Com as mãos que preparam as refeições e que oferecem o conforto e o prazer, se tal lhes for solicitado. Não tenho medo do corpo. Nem nojo do corpo. Nem esses preconceitos, presos no limite da pele que emana desejo. E, por isso, sou autossuficiente também no cuidado físico.

 

Também tenho as contas pagas, apenas com o fruto do meu trabalho. Não preciso de prendas, nem de prendinhas, nem que vão comigo às compras. Não preciso que me paguem os jantares, nem as roupas, nem os essenciais do supermercado. Nem a mensalidade da casa. Nem a luz. Nem a água. Nem o gás. Nem o ginásio. Nem a gasolina. Não sobra muito, é verdade, mas está tudo pago. Dívidas tenho apenas para comigo e vou-as saldando com as migalhas, em extras ocasionais que sei dar a mim mesma quando e porque me apetece.

 

Amo-te. Mas desengana-te, meu amor, eu não preciso de ti! E, se precisasse, seria porque não te amava. O amor não é figura de utilidade nem palavra de uso. O amor é a plenitude dos sentidos quando se desligam as necessidades. Quando não precisamos que o outro seja útil. Ou importante. Ou que tenha um bom carro, uma boa casa, um bom emprego. Amor é o que sobra quando sabemos que o outro, mesmo se despido de tudo o que tem, ainda nos é mundo, ainda nos é tudo.

 

Eu não preciso de ti!

 

Haverá maior prova de amor do que saber que não se precisa de ninguém... e, ainda assim, amar?

 

Eu não preciso de ti!

 

O que eu preciso é de abrir os dois degraus da cozinha. De subir à prateleira mais alta e de guardar este amor. Não penso que o vá usar muito. Porque, apesar de gratuito e independente, penso que tu não o queres, não precisas dele... e é demais só para mim!


 Marina Ferraz






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terça-feira, 6 de julho de 2021

Aqui

 


“Perder-se também é caminho.”

- Clarisse Lispector

 

 

- Que lugar é “aqui”? – pergunto, sem saber onde estamos, porque estamos sempre entre o lugar onde dissemos que íamos e o lugar onde já estivemos e os lugares onde poderíamos ir.

 

Se respondesses, talvez me dissesses que “aqui” é onde tu estás. Mas tu não estás onde eu estou. O peso que a alma me perde quando vais para esse “aqui” que não é meu, faz-me desaparecer nos meandros da sombra de um “eu” que também não me pertence. E o teu “aqui” não me serve. Justamente porque a alma perde peso quando vais. E o coração vai, arrancado do peito, dar-te razão ao “aqui” onde tu moras e eu não.

 

Intercalo entre a pergunta e o silêncio. A mente constantemente dançando com os fantasmas do anteontem, imersa na imortalidade das palavras que me faz escrever e desejando a morte que já tarda há demasiadas vidas.

 

Não sei onde estou, concluo. Olhando em redor, sem bússola nem mapa, sou o espelho das palavras de Lispector. Ao perder-me na estrada – será isto uma estrada?! – percebo a vontade própria das pernas que avançam e avançam e avançam. Passos de bebé. Passos de gigante. Passos de corrida. Passos de boneca. Passos de urso. Passos de bailarina. Mamã dá licença? Nunca se chega a lugar nenhum e o jogo continua. Mamã dá licença? Quantos passos?

 

Deixei a contagem dos passos para quando souber onde estou. Agora não sei. Talvez nunca tenha sabido. Ou talvez tenha sabido apenas quando, mergulhando o corpo nos teus braços e o nariz no teu pescoço, descobri o único sítio onde quero estar. Mas foi tão breve a passagem por esse santuário só meu – e nunca meu – que é como se nunca tivesse sabido. Onde estou. E, mesmo aí, precisei de perder-me para me encontrar, precisei de perder-me em ti. Talvez ainda aí esteja. Perdida...

 

Penso que deve ser estranho ter respostas para as perguntas de retórica da mente que vagueia. Estar perdido é-me forma de andar. Estar perdido foi sempre, para mim, forma de andar. Pelas caves. Pelos cortes. Pelos pensamentos itinerantes, nómadas e pouco saudáveis de uma mente que podia desligar as emoções. Só as emoções. E, com elas, o desejo de saber onde está.

 

Quem sabe sempre onde está, está no lugar errado. É esta a conclusão que tiro, ao perceber que foi perdida que estive no sítio certo. Quem sabe sempre onde está, está no lugar errado.

 

- Que lugar é “aqui”? – pergunto, novamente.

 

E tenho a certeza de que me dirias que “aqui” é onde tu estás.

 

Eu também acho que “aqui” é onde tu estás.

 

Onde estás?








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terça-feira, 29 de junho de 2021

Amor preconceituoso

 




Tenho o amor mais preconceituoso do mundo.

 

Não vou dizer que goste de o ter. Incomoda-me. Faz-me comichão. Leva-me, muitas vezes, a chamar nomes pouco simpáticos a mim mesma, se calha ver-me no reflexo de uma montra. Detesto-o. Justamente porque se pinta todo de preconceito. Porque nem precisa dos estereótipos exacerbados para usar essa prenoção das coisas, que as reduz a muito pouco ou quase nada.

 

Quando algo nos incomoda desta forma só existem duas soluções à vista: o silêncio ou a palavra. O silêncio, filho da vergonha, é o que nos leva a fingir que o nosso amor pode ser algo mais do que preconceito. Usando dele e das suas virtudes, escondemos ativamente o estado tirânico que os sentidos nos assumem, decidindo que o mundo não saiba – não sonhe – que temos o amor mais preconceituoso do mundo. A palavra, usada como explanação, explicação ou justificativa, também serve de pouco quando os atos, totalmente independentes da língua e dos idiomas, se dirige para pontos cardeais opostos.

 

Tenho o amor mais preconceituoso do mundo. Medo de me calar, para o esconder, e de sucumbir aos seus ímpetos. Medo de falar, para me justificar, e de ouvir-me num revirar de olhos, julgando-me em primeira mão pela grande imbecilidade de transportar em mim um sentimento tão déspota, egoísta e tirano.

 

Às vezes, deixo passar o tempo. Umas horas. Uns dias. Umas semanas. Uns meses. Tento ativamente pensar noutra coisa qualquer além do amor, para ver se, esquecido numa das gavetas poeirentas do cérebro, ele migra do lado direito para o esquerdo e se racionaliza. Um amor de esquerda, penso eu, seria mais aberto à diferença.

 

O plano parece certeiro e a aplicação é eficaz, mas o resultado é nulo, falho, erróneo. Porque não pensar o amor é, ao mesmo tempo, deixá-lo livre para se construir nas suas ideologias redutoras. Quando volto a pensar nele, intensificou os idealismos que o tornam parte desse preconceito universalmente grande. Dou por mim a entendê-lo como irremediável. Incorrigível. Todo feito dessa emoção pouco sadia que desprezo.

 

É então que preciso de admitir. Mesmo sabendo que de pouco serve admiti-lo, se não consigo mudá-lo. Tenho o amor mais preconceituoso do mundo.

 

Entendam. É o amor mais preconceituoso do mundo. Não porque tenha problemas com raças, etnias, nacionalidades, idiomas, sexos, géneros, deficiências, estados de saúde ou problemas de mobilidade. Mas porque, no momento de reduzir, nem considera quaisquer destas variáveis.

 

Detesto sabê-lo. Mas é preciso saber. E, sabendo, é preciso admitir. Tenho um amor preconceituoso. O amor – diria eu - mais preconceituoso do mundo. Dono de um só preconceito e que é, sem sombra de dúvida, o maior de todos porque exclui, aparta, renega e discrimina quase todos.

 

É o amor mais preconceituoso do mundo.

 

Se não fores tu, não serve!








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terça-feira, 22 de junho de 2021

Os gritos das paredes

 


Eu até te mandava calar! Mas para quê?!

 

Tenho na cabeça despedidas que nunca me deste. Ouço tantas vezes a palavra “adeus”, que ela perde o prefixo e sinto a alma tentada a orar. Não o faço. Os deuses andam cansados de pedidos humanos vazios e eu não tenho palavras minhas. Tenho só as tuas. Essa voz permanente no recanto da minha cabeça, onde se atropelam pensamentos por falta de espaço.

 

Às vezes, imagino as palavras da minha mente a viverem como morrem as pessoas quando há acidentes em locais com saídas de emergência insuficientes. Algumas, por sorte, aproveitam-me os dedos. As outras amontoam-se na porta da boca, num aglomerado que as esmaga, que as sufoca, que as impede de sair. Fecho os lábios e deixo que morram. Não tenho palavras minhas. Tenho só as tuas. As paredes gritam.

 

Há um sopro itinerante, que se estende pelas horas incessantes, na procura pelo sossego que não tenho. O eco permanente das promessas que eu já sei, desde os anteontens, que nunca serão cumpridas. E a saudade terrível que se imiscui com a dor, fazendo um cocktail perfeito do futuro que eu não quero... nem quero querer. E lá está a tua voz... tentando agarrar-me ao passado que eu quero... e também não quero querer.

 

Eu até te mandava calar! Mas para quê?!

 

As paredes gritam. Talvez por lhes ter espetado pregos, de uma forma tirânica e opressiva, sem realmente lhes perguntar se podia. Talvez sangrem e eu não vejo. Acontece-me muito. Sangrar sem ninguém ver. Chorar sem ninguém ver. Morrer aos bocadinhos, deixando cacos invisíveis pelo chão, sem que ninguém possa recolhê-los.

 

E as tuas palavras – porque esgotei as minhas - embatem contra a saída de emergência trancada dos meus lábios. Uma masmorra de dentes e lábios que sorriem. Lavo-as com pasta aromática e uma escova macia. Mas as palavras são fétidas e duras. Sinto-me maculada por elas.

 

A repetição das ideias causa-me desconforto. Adeus. Deus. Deu. Deu o que tinha a dar. Adeus. A distância entre a promessa que não se cumpre e a saudade é exatamente a mesma que existe entre a vida e a morte. Uma distância medida, não em milhas mas em segundos. As paredes gritam. E há as tuas palavras. Eu esgotei as minhas. Há só as tuas.

 

E, sabes? Eu até te mandava calar! Mas para quê?!

 

Calas-te sozinho!

 

E o que me incomoda nem é o silêncio...

 

... é a minha ausência de palavras.

 

... são os gritos das paredes.

 







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terça-feira, 15 de junho de 2021

Os outros

 

 Fotografia de Vanessa Oliveira

Os outros também somos nós.

 

Apercebo-me disto quando noto que ganhei, com o meu avô, o hábito estranho de comer bolo de aniversário com queijo e de molhar torradas com manteiga a mais no café com leite, deixando a ondear aquela camada de gordura para a qual a maioria das pessoas olha com repulsa. Para mim é apenas normal. Carregar o meu avô em mim, nesses pequenos hábitos do dia.

 

A sensação volta quando, passando pela hera ocasional das cidades, repito mentalmente a frase da minha avó, “quem por hera passou e uma folhinha não arrancou, do seu amor não se lembrou”, ou quando, mesmo sem medo, hesito um momento antes de fazer algo, trazendo na memória a ideia de que “cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém”. E mais ainda quando deixo a luz acesa quando adoeço. São hábitos e frases que muitos julgam estranhos. Para mim é apenas normal. Carregar a minha avó em mim, nessa pequena ciência que traz a vida e o carinho.

 

Da minha mãe, trago o hábito de andar e comer sempre como se estivesse atrasada, numa correria incessante contra relógios e agendas, ou o de pôr açúcar no leite com chocolate, ou ainda o de dizer “é o que é!”, por tudo e por nada. Ganhei ainda, com o meu pai, o hábito de começar quase todas as frases por “não”, incluindo as afirmativas. E tenho pedaços dos meus irmãos dispersos na vontade de ser melhor amanhã e de me dar aos outros, de forma natural, espontânea e, muitas vezes, sem considerar os efeitos secundários dessa dose excessiva de amor. Pode ser um contrassenso para muitos. Para mim não é. É apenas normal. Carregar os meus pais e os meus irmãos em mim, nos pequenos e grandes gestos, nos passos corridos e nas negações que, afinal, ocultam uma resposta positiva.


Trago, do meu primeiro amor, expressões ocasionais. “Enfin”, “fhum fhum”. Trago dele o “erm” e o estranho encanto por uma das minhas (improváveis) bandas favoritas. Uma paixão estranha por cordas-de-viola e carros antigos. Um gosto pelos caminhos noturnos pela serra adormecida. Alguns julgam que é uma contaminação caótica de coisas que nasce de uma influência excessiva. Mas é natural. Carregar em mim o que fez desse amor o primeiro. Carregar em mim o melhor que ele tinha para dar. Trazê-lo nos lábios, em expressões que entoam ainda a mesma canção dos lábios que, em tempos, se tocaram. E que – felizmente – hoje ainda se sorriem.

 

Em mim, ressoam traços das pessoas com quem me cruzei e me cruzo. Algumas delas foram passagem muito breve. Algumas, talvez venham a sê-lo. Momento. Mas deixaram algo. Deixam algo. E, sem ser dona dessas partes que comporto, compreendo que também eu sou os outros. Que os outros também somos nós.

 

Pergunto-me se algum dia deixei algo de mim em alguém. Como deixaram em mim. Uma frase. Um traço. Um fio de cabelo de memória que se perpetue nos dias e os faça pensar em mim. Pergunto-me se algum dia deixei algo de mim em alguém.

 

Os outros também somos nós.

 

Habituamo-nos a ser, com eles, nós mesmos com algo de novo. A personalidade prevalece, mas somos, em parte, maleáveis como plasticina. E ainda bem! Se tudo em nós fosse firme, depressa o mundo nos quebraria. A rigidez magoa muito mais do que ajuda. A aprendizagem dura uma vida. Ninguém é produto acabado.

 

Trago muitas coisas dos outros. Hábitos terríveis. Hábitos maravilhosos. Manias. Conselhos. Ideias. Frases feitas. E ainda bem que os trago! Enchem-me de coisas e sei que sou mais do que eu...

 

Mas, mesmo assim, nos meus dias tristes, não gosto muito de trazer os outros em mim.

 

Porque – sabes?! – de ti trago o terrível hábito – quase mania - de ser feliz. E sinto que traio a parte de ti que há em mim sempre que choro. E parece que me imprimiste o impossível na pele. E preciso de não ser tu para poder estar triste à vontade.

 

Nos dias tristes, quando te afasto, empurrando-te com as mãos fortes do pensamento, para não gozar do prazer da felicidade inebriante à qual me habituaste, não és só tu que tiro de mim. Dispo as camadas dos outros até que não haja nem café com leite, nem canja de galinha, nem “não” nas frases, nem caminho de serra, nem passo apressado para lugar nenhum. Quando te tiro de mim, afasto também os outros. E, quando os afasto - quando te tiro de mim - sinto mais a tua falta. E a deles. E a minha.

 

De repente sou muito pequenina. Ali. Porque os outros também somos nós. E, ao despir-me dos outros, eu sou só eu. O meu pequeno eu. O meu insignificante eu sem os outros.

 

Reduzo-me ao mínimo que sou. Descubro que sou muito pouco. E fico com saudades de mim. Desse eu, quando sou eu com os outros.

 







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terça-feira, 8 de junho de 2021

Se parares

 


Sabes o que acontece se parares?

Depende.

 

 

Rasgo as palavras com respostas que ninguém pediu. Agendas caóticas, fixando planos móveis. Riscando-os. Reagendando-os. Aproveitando as frestas da tarefa para encaixar o banho corrido. O treino corrido. A chamada rápida. A barra de cereais. Os meus pulmões já aprenderam técnicas de multitasking e há conferências ocasionais nos arredores do meu fígado, com sessões de brainstorming, onde se discute se o cérebro entrou de vez em época de monção.

 

O fígado fala baixinho, apodrecendo gradualmente a vodka e absinto, levando nas mãos esse copo meio vazio. Nenhum dos outros órgãos se importa grandemente com o que ele diz. A língua decadente e ébria fala da censura evidente. Mas eles têm mais o que fazer! Não há descanso que dure o tempo das exposições hepáticas fatigantes sobre a degradação do corpo. Só a melatonina se senta nessa plateia, pequenina e abandonada, sentindo que não serve o propósito divino que lhe gerou a existência. E, mesmo ela, desaparece rapidamente quando as brigadas de café invadem a alma, expulsando-a do banquinho triste que ocupara.

 

É verdade. O meu cérebro exerce papel ditatorial sobre as entranhas do meu corpo. A verdadeira razão pela qual eu nunca adoeço, é porque ele impôs normas severas sobre a realização de tarefas a cada um dos meus órgãos. Ininterruptamente, por mais de mil dias, este foi o contexto. A pouco e pouco, ele fez de mim escrava das suas vontades, repetindo, de volta em vez, uma frase-chavão:

 

Sabes o que acontece se parares?

 

É uma pergunta e uma ameaça. Eu não tenho a resposta. Ele também não. E nenhum dos dois quer tê-la. Nenhum dos dois quer descobrir. Continuo. Tudo o que sei é que pensar dói mais do que me doem as pernas. Ou os braços. Ou as pálpebras pesadas dos olhos cansados. Bebo um café. Non stop. Enquanto trabalho. Os Deuses, digo, deram-me duas mãos.

 

Sabes o que acontece se parares?

 

Entras pela sala. Param-me todos os relógios. Menos um. Compasso. Sístole. Diástole. O sangue bombeado inebria até o fígado rezingão. A oxitocina sai para espreitar o cenário envolvente. A vida é vida, mesmo com o tempo em suspensão. E o cérebro silencia-se. Toda a gente sabe que o cérebro não consegue domar um coração que ama. Lá, na sua posição de poder, revira muito os olhos, enquanto eu fecho os meus, para descansar no embalo do conforto.

 

O cérebro funciona. Desde o berço até ao amor. E só.

 

Sabes o que acontece se parares?

 

Apercebo-me de que parei. Mesmo sem querer. Parei. Apercebo-me dos passos largos ao passado atrás do véu levantado sem querer. Saem chuvas das frestas das janelas olheirentas e sem manutenção. Estou demasiado isolada. E demasiado é pouco. O coração que batia, bate-me. E o pensamento agride. Espanca-me. Trucida-me.

 

E o cérebro pergunta-me:

Sabes o que acontece se parares?

 

Respondo:

Depende.

 

Mas deveria responder:

Depende. Depende do tempo verbal.

O coração batia no pensamento parado.

O coração dói… e antes parasse!

 

Agendas caóticas, fixando planos móveis. Riscando-os. Reagendando-os. Aproveitando as frestas da tarefa para encaixar a arte de não pensar.

 

Parar não é morrer.

É estar vivo.

E dói.








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terça-feira, 1 de junho de 2021

Confusões

 



O meu corpo é todo feito de confusões. Desarruma as gavetas mentais periodicamente. Cria tumultos e psicopatias. Tem tantos léxicos, glossários e enciclopédias privados, com juízos só seus, que, por vezes, me apetece pôr anúncios nas gazetas matutinas, em busca de quem me entenda e me traduza.

 

 

O meu corpo confunde. Já perdi a conta ao número de vezes que o fez. Continua a fazê-lo com frequência. Diziam que era coisa de adolescente. Não era. Acho eu. Ou era, e eu falhei as etapas do crescimento. Não importa. O meu corpo confunde. Isso é certo. Continua a confundir. Com frequência.

 

Muitas vezes, o meu corpo confunde solidão com saudade. São formas similares de vazio que causam azia no peito. Talvez não seja só eu! Mas é comum em mim. Recorrente. O meu corpo confunde solidão com saudade. É só quando se começam a encher os espaços de gente, as salas de chat de conversas e os telemóveis de chamadas que se compreende. A sensação agravada pela tentativa ignóbil de encontrar companhia é autoexplicativa. É uma espécie de solidão específica e orientada. Não é falta da gente mas da pessoa. E, se ela não está, o corpo bem pode chamar-lhe o que quiser… Permanece. No sossego das paredes. Na multidão. Tanto faz! E seria de esperar que o corpo aprendesse. Mas não. Nunca. Continua, insciente, a confundir. Solidão e saudade.

 

Muitas vezes, o meu corpo confunde facto com opinião. Ciente da sua condição no mundo e emocionalmente capacitado para abarcar o mundo e a sua condição nos ombros, onde se planta uma dor crónica que a própria condição do mundo causou, o meu corpo cede à escoliose e às opiniões com a mesma curvatura dúbia. Não o faz por mal. O meu corpo quer acreditar num mundo melhor e mais justo. Tem um medo terrível de acordar amanhã no mundo fascista de ontem. Às vezes, recusa-se a ver valor nos argumentos cujo sentido lhe escapa. Faz um esforço permanente. Por ouvir os outros, com todos os seus conceitos, ainda que estes carreguem muitos “ismos” nas vírgulas. Mas as sinapses passam, com rapidez, a mensagem desesperada aos lábios para que ripostem. E, assim, confundindo factos e opiniões, o meu corpo é muitas vezes mais rápido a responder do que o Lucky Luke a disparar. Já tentei silenciar essa voz instantânea de várias formas. Explicar ao corpo que existe um traço-limite. Uma fronteira. Mas não, Nunca. Ele continua, insolente, a confundir. Factos e opiniões.

 

Muitas vezes, o meu corpo confunde tédio com fome. Tristeza com fome. Medo com fome. Ansiedade com fome. A fome é uma confusão recorrente… Tão recorrente que o corpo também confunde solidão com fome, e saudade com fome… o que torna comum a própria confusão entre solidão e saudade, nesta agitação cíclica, onde tudo volta sempre ao ponto de partida. Não se cura tristeza com pão. Nem o medo. Nem o tédio. Pão resolveria, talvez, a fome dos países de terceiro mundo. E, quando penso nisso, sei que o meu corpo também confunde vontade de comer com fome. E fome com indisposição… porque aqui, no mundo do privilégio, é raro que a fome o seja de facto.

 

O meu corpo é todo feito de confusões. Desarruma as gavetas mentais periodicamente. Cria tumultos e psicopatias. Tem tantos léxicos, glossários e enciclopédias privados, com juízos só seus, que, por vezes, me apetece pôr anúncios nas gazetas matutinas, em busca de quem me entenda e me traduza. Solicita-se aos entendedores que capturem e aclarem esta forma de ser feita de contraditórios e enigmas. Mas sinto algum orgulho nas confusões que ele não faz.

 

O meu corpo, por exemplo, nunca confunde paixão com amor. Afeição com amor. Carinho com amor. Amizade com amor. Tesão com amor. Vontade com amor. Solidão com amor. O meu corpo, esse tosco iletrado emocional, parece ter gasto todos os esforços da racionalidade a descobrir exatamente o que o amor é, em factos e opiniões que não se confundem, nem poderiam confundir. Por saber exatamente o que isso significa, no entanto, o meu corpo confunde passado com futuro e vida com morte. Confunde passividade com respeito. Confunde silêncio com espaço.

 

Tento respeitar todas as confusões do meu corpo. Afastar-me um pouco delas. E percebo, quando o faço: não é das confusões que ele tem que eu quero afastar-me, mas justamente daquelas que ele não tem! E sim… eu sei que é confuso.

 

É confuso. Como o meu corpo. Como eu. Como a vida. Como o amor que só se confunde com ele próprio. Que só se funde nele próprio. Que me leva do ponto A ao ponto Z com as mesmas ideias, sem me importar se são factos ou opiniões, se estão imersas na saudade ou na solidão…

 

Surge algo em mim.

 

Um espaço. Um ardor. Um fosso.

Um eco. Uma nódoa. Um vazio.

 

Suspiro.

Acho que estou confusa.

 

Mas pode ser fome…

 







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terça-feira, 25 de maio de 2021

Sem lágrimas

 

 Fotografia de Analua Zoé


Dentro de nós há cidades destruídas. Somos as cidades destruídas que trazemos dentro.

 

 

As imagens são claras. Ela caminha por entre os destroços de pedra. Respira o pó. Tem, nos braços, o corpo inerte e mole da cria que, agora, é somente carne dilacerada e carcomida pelas circunstâncias. Olhamos para ela e queremos que chore. Queremos que chore porque os traços da mágoa se evidenciam, deformando-lhe o rosto. Conseguimos ver os poros emanar os fluídos da alma rasgada. Conseguimos escutar o grito mudo, exalado pelas mãos que acarreiam o cadáver. E ela não chora.

 

Nas ruas, os corpos fuzilados, de crânio aberto e sangue seco manchando a pele, têm marcas de tortura. Formam filas organizadas no chão. Alguns, de olhos vítreos e abertos, indagam o espaço numa busca pétrea pelo deus que não lhes salvou a vida. Em seu redor, as palavras roubadas dos lábios encobrem-se no peito. Nenhuma família reclama os corpos. Os mortos não reclamam. E os vivos não choram.

 

Adormecida, no ninho quente e materno dos lençóis, a criança é acordada por um bombardeamento. Senta-se na cama, igual a qualquer outra cama. Esfrega os olhos, como qualquer outra criança. Ouve as bombas como música. Ouve-as como a uma oração. E ali fica. Com a naturalidade de quem nunca acordou com outro som ou conheceu outra realidade. A bomba cai. A criança não chora.

 

 

O mundo desaba. Corpos dilacerados. Cidades destruídas. Fome. Frio. Ar putrefacto. Histórias que se repetem e são unas para alguém. A morte e a destruição. Sensações rarefeitas construídas, falta a falta. O andar do tempo sobre o abismo dos impossíveis e a nossa passividade, disfarçada de distância e impotência.

 

Marejam-me os olhos. E choro. Percebo que sou privilegiada. Por isso. Por poder chorar. E penso. Roubaram-lhes as lágrimas.

 

As lágrimas.

Os filhos.

A cidade.

A vida.

 

 

Dentro de nós há cidades destruídas. Somos as cidades destruídas que trazemos dentro. E o fogo cruza-nos o céu dos olhos que choram. Ficamos. Bombardeados. Imagens que vemos. Que não vemos. Que desligamos no canto superior direito do comando. Cedemos à dor líquida do que está distante. Limpamos o rosto. Temos mais vergonha do choro do que da pútrida raça humana, que de humana tem tão pouco.

 

Somos autores da história que não vivemos. Sobram-nos os recursos. E choramos.

 

Eles não! Roubaram-lhes as lágrimas. Há só pontes em ruínas sobre o rio cheio de mágoa. Nada liga as margens entre dor e dor. Há um povo que acorda para a morte. Ou não acorda.

 

 

Roubaram-lhes as lágrimas.

 

Ninguém chora…








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