terça-feira, 21 de maio de 2019

Adio a morte




Adio assim a morte. Com poemas. Adio. A morte. Como se dissesse ao corpo. Espera. Dá lá mais dois batimentos cardíacos. E espera mais um bocadinho. Que eu ainda tenho um romance para acabar.

Adio a morte a olhar para as nossas fotografias antigas. Adio. A morte. Digo-lhe. Vem cá, olha. E enquanto vemos as fotografias, ela distrai-se e esquece-se de que tem de me levar. Passo-lhe os álbuns para as mãos ossudas. É engraçado ver a morte a folhear páginas de amor, com uma expressão esbugalhada nos olhos que não tem. E fingindo que não chora sem lágrimas. Ao lembrar que nos matou antes de me matar. E que está a esquecer-se de me matar porque nos matou.

Adio a morte. Uma espécie de penitência. Obrigo-me a adiar a morte. E quão estranho é que se adie o que se deseja. Mas adio. De pés no mar. Adio a morte, enquanto ela continua a deambular pelo meu passado, sem perceber muito bem como pôde matar-me antes de me parar o coração.

E ela diz-me. Não estás viva. Não estou. Não estás viva mas respiras. Respiro. Vem. Não vou.

E continuamos nesta discussão porque eu não posso morrer. Explico que essa é a minha condenação. E que a condição é esta. Atiro-me aos seus braços num segundo. Mas só depois. Só depois de terminar esse romance que ainda quero escrever. E só quando os olhos cansados e vividos, negros e ternos de uma anciã não forem chorar lágrimas por mim plantadas.

Adio assim a morte. Com amor. Adio. A morte. Como se dissesse aos dias que passam que o calendário ainda tem mais tormentas para me infligir. Olha: ainda não passei fome. Olha: ainda não fui à guerra. Olha: ainda não rasguei a pele nos sulfatos de ansiedade das escarpas poentes.

Nunca ninguém enganou a morte. E, por isso, ela não se apercebe dos enganos na minha voz e continua. Continua a folhear o álbum da história que eu conto em palavras no romance. Cada vez que termina, recomeça, à procura do que ficou por matar.

E ela diz-me. O amor está vivo. Está. Está vivo mas acabou. Acabou. Vem. Não posso.

De tão infrutífera, esta discussão ganha teias de aranha. À noite, cansadas de discutir, eu encosto a cabeça no ombro da morte e vemos juntas passar esse filme sobre tudo o que a minha vida podia ter sido e não foi.

Há lágrimas nos meus olhos e ar nos dela. Eu assoo o nariz e ela relembra o nariz que não tem. Esconde o rosto no manto e rimos as duas. Porque somos eternamente fãs uma da outra e sabemos que só nos temos uma à outra nestas noites frias, onde as fotografias se esquecem e os astros se alinham.

Ela diz-me. Amo-te. Também te amo. Este amor não é o teu maior amor. Talvez seja. Vem. Não, ainda não.

Adio a morte. Com um desprendimento pela vida. E coloco as mãos ao redor de canetas que são histórias e sonhos. Porque sinto culpa no peito, algures entre as costelas e os pulmões. O meu coração é rasgado e trucidado por metralhadoras sem balas. Palavras. Bang. Palavras e mais palavras. Rasgões que também são fotografias de olhos claros.

Ela diz-me. Um dia vens. Vou. Agora? Não. Quando? Quando o romance tiver terminado e a fotografia estiver baça. Quando a esperança se for? Já foi.

Ela parece triste. Triste por ter morto amores e esperanças. E eu abraço-a. Ela não está habituada a abraços. E foge, deixando aberta essa porta feita de batimentos cardíacos.

É assim que eu adio a morte. Amando-a. E convidando-a para que se sente no sofá e sinta. Plenamente. O peso de tudo o que já matou em mim.

A morte vem e volta a partir. Adio a morte. Adio-a, mostrando que a quero. E ela quer que a queira. Mas está a ter dificuldade em encontrar a parte de mim que falta levar…






Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 14 de maio de 2019

Divisão de bens




Uma coisa eu sei. A divisão de bens foi-me favorável. Fiquei com a melhor parte. E, se isso servisse de conforto, eu estaria, agora, a rejubilar, comendo nuvens como algodão doce e enchendo de sonhos a barriga infértil. Porque eu não duvido. Nem por um segundo. Eu fiquei a ganhar na divisão de bens.

Algures, enquanto fazias as malas, eu tentava atulhar nelas todos os pedaços de entulho que tinham sobrado de nós, mais o sofá que acabaria por não caber e ficar a manchar-me a sala de raivas. Eu sabia que quanto mais coisas pusesse nos bolsinhos interiores e exteriores dos teus sacos, melhor ficaria a minha vida depois de saíres.

Era como se me apetecesse colocar nos teus caixotes até o ar, que me parecia – e ainda parece – absolutamente impossível de respirar sem que alguma coisa em mim doa. Mas, sem nunca vacilar, eu continuei a colocar neles os livros e as histórias, misturadas com cartas e memórias de um tempo que não devia ter existido.

Vai. Era isso que eu dizia, enquanto as roupas saíam das gavetas e tomavam morada em sacos e malas e malões. Se tens de ir, vai. Mas, por dentro, eu sabia dos futuros fora da mala. Dos futuros fora da caixa. Das mãos que acabariam por me embalar e encaixotar a mim, como se o meu corpo fosse a roupa de uma alma atropelada pelo tempo e desfeita em cacos.

A casa, de cheia que está, é-me vazia. Como o corpo que respira e cujo coração bate. Mas sem razão nenhuma além do hábito. Sim, a casa está habituada a estar cheia, como eu estou habituada a estar viva. Com uma camada de cinza de incenso, depois de arder o fogo-fátuo nos meus cemitérios interiores. A casa está habituada a estar cheia, como eu estou habituada a estar viva. Limpo o pó a ambas, de vez em quando. Mas só mesmo para as visitas.

Mesmo assim, no vazio cheio da casa e na minha sobrevivência sem fogo, eu sei, todos os dias. À medida que te enchia as malas e te via as costas, eu puxei para mim o que havia de melhor. Partindo e repartindo a meu favor, ainda que tentasse que levasses tudo, mais o sofá. Ainda que tentasse que me levasses a mim também, por não querer ficar sem ti.

Talvez por saberes isso - que fiquei com a melhor parte na divisão de bens – inventas na tua cabeça histórias que não te contei. Histórias que só não contei porque não existem. Histórias que não existem porque tu existes.

Mas não te preocupes. Vai lá. Enfia na cabeça as ideias, da mesma forma que eu tentei enfiar uma vida a dois nas tuas malas.

Vai lá. Não incomodo mais. Vai ser feliz. Finge que eu também sou, se isso te der conforto. Inventa-me a companhia que não tenho. Inventa-me o riso que não liberto. Inventa-me a história que te fizer bem.

Vai lá. Não incomodo mais. A sério. Vai. Vai ser feliz. Eu não digo que fiquei com a melhor parte na divisão de bens porque tivesse ficado com o melhor futuro. Digo-o só porque fiquei com a gata.





Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 7 de maio de 2019

Café de Lua




O meu café anoiteceu. Em todo o seu sentir crescente, o meu café achava que a noite era o espaço comandado entre a profusão de músicas e a dança de corpos. O meu café era louco. Então, saía. E deixava-se sorver nos lábios sedentos de vida.

Mas o café que anoitecia chegava sempre à conclusão de que as amadas e excitantes noites de sativa e ópio não chegavam para adoçar a amargura. E por isso o meu café, que bebia pela manhã, anoitecia crescente só nas ideias insaborosas da possibilidade.

Era um café levado para a cama e bebido com esperança. Porque havia a esperança de se beber, na cama, o café que anoitecia, logo pela manhã.

Tão pleno de esperança estava que, um dia, foi como se o meu café anoitecesse cheio. Um luar todo preenchido, repleto dos sonhos e dos feitiços que eu nunca tinha feito.

O lugar da felicidade, nessa chávena de café que me anoitecia, era simplesmente o Espaço. Sem um único limite no seu redor. “Será que pode ser sempre assim?”. Não poderia ser de outra maneira.

O café era cheio. E notívago. Gostava de passeios noturnos pela serra e junto ao mar. Se sentia frio, tinha um abraço de permeio. Sim. Era um café quente e doce, que se mesclava na perfeição com o leito da vida e a partilha dos fluídos corporais.

Mas um café que adormece cheio, às vezes anoitece minguante. O meu café minguante acordava de mau humor. E discutia sobre tudo, com tudo, sobretudo comigo. Não havia muita felicidade no café que anoitecia e minguava até que as lágrimas o salgassem.

O café minguante, anoitecia de lua. Pouco ou nada havia que se fizesse para o adoçar. Tudo o que não era açúcar a menos, era açúcar a mais. E as natas causavam dano. E o leite causava náusea. E a esperança estava azeda e transbordava como fel.

O café minguante deu muitas noites de insónia em que se fingia dormir. Ainda com a memória de luas mais cheias e de cafés mais plenos e encorpados, criava-se um fosso no meio da cama, onde novas plantações poderiam ser feitas e novo café poderia vir, quando fosse época das colheitas. A colheita não veio e o fosso não ficou. Em vez disso, ficou meia cama vazia, num café novo, que anoitecia, desaparecendo.

O meu café anoiteceu novo. Era tudo novo. Feito de uma ausência tão plena que pouco importava se estava amargo, queimado ou com um leve travo a anteontem.

No centro das minhas mãos, nem a chávena aquece o frio da vida. Nem o açúcar aumenta a sua acidez amarga. Nem a cafeína me acorda do pesadelo.

O meu café anoiteceu. Anima-me o corpo que nunca se anima. E aquece-me a esperança que nunca esfriou. Só que o corpo é débil e a esperança é parca. E o café é depressão líquida e escura, qual abismo para a memória que se quer largar.

O meu café anoiteceu. Bebo-o para sobreviver. No dia em que ele me amanheça, talvez durma mais. Talvez para sempre.






Sigam também o meu instagram, aqui

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Contestação


Autor da foto: Miguel Pião


Eles contestavam tudo. Até a contestação em si. Concordavam só com o desacordo e, mesmo aí, optavam por acautelar fogos de batalha de volta em vez, apenas para que não se dissesse que concordavam com alguma coisa. Não, eles não queriam concordar. Queriam bater-se, eternamente, inimigos. Mas também a isso diziam que não. Porque admitirem que se odiavam era, de alguma forma, sugerir que tivessem o ódio em comum. E não havia nada em comum entre eles.

Ele era símbolo de desapego. E ela dona da tenacidade. Ele, amante da rotina. Ela, senhora da inconstância. Se, de manhã, ele programava o horário; ela atirava-se às ruas. O lema dele era “prevenir”. O dela era “arriscar”. Quando amava, ele amava com peso e medida, até que outra porta se abrisse. Quando amava, ela queria a loucura de rebolões no colchão até cair da cama, e era para sempre.

Se tinham algo em comum – o que negavam – era apenas o facto de não terem nada em comum. Ele adorava cães, pela sua cumplicidade. Ela adorava gatos, porque lhes admirava a independência.

O passaporte dela devia ter tantos carimbos como o ticket de supermercado dele. E, à medida que ele listava nomes de amantes de passagem, ela somava um ou dois casos de fogo-fátuo. Mortos, é verdade, mas ardentes e inesquecíveis.

Numa noite de copos, ele tinha bebido duas cervejas, uma tequila e dois shots de absinto. Por esta ordem, já que todos sabem que, quando é para beber, o melhor para evitar a ressaca é avançar de bebidas fracas para as fortes. Ela tinha mandado a contagem para um lugar de palavras asneirentas e intercalara o que viera à mão. Ambos ébrios de bebida e cansaço, dançaram – com outras pessoas, evidentemente – a noite inteira, sem sequer se cruzarem.

Acabaram por chocar no centro da pista. Onde resmungaram por se verem. Sobre a maneira como o outro se movia. Sobre o estado parcialmente alterado do outro. E sobre a potencial teoria de que a Terra seja, afinal, plana.

Plano era o colchão em que se atiraram. E onde embateram um contra o outro, numa paixão de ódio desmedido. Acordaram abraçados. Ele desapegou-se da ideia do ódio. Ela pintou-o de forma tenaz, por impulso. Ele, fez dela rotina. Ela deu o nome dele às ruas. Ele preveniu-se de a perder. Ela arriscou apaixonar-se por ele. Ela foi a porta aberta dele. E ele a eternidade dela.

Ainda zonzos da bebida e da partilha dos corpos, nunca entenderam muito bem o que se passara. Desacordaram também sobre isso, tantas vezes que, entretanto, começam a surgir rugas e cabelos brancos no seu amor.

Dizem pelas ruas que eles não vai funcionar e eles concordam. Mas os gatos no parapeito parecem gostar de caçar a cauda dançante do cão dele. E ainda somam carimbos nos passaportes e no ticket de supermercado. Contestam a contestação. E discutem com frequência. Beijam-se a seguir. Fazem as pazes, despindo roupas e preconceitos.

Às vezes, precisam de um copo para superar o toque dos dedos da raiva quando discordam. Brindam antes de beber. Olhos nos olhos. E, embora não o admitam, não sabem viver sem o outro estar lá.






Sigam também o meu instagram, aqui

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Tu e eu




Eu não sei se tu e eu vamos dar certo. Ainda que gostemos de olhar o mesmo céu e encontremos sempre a mesma estrela, por entre a imensidão. Ainda que fechemos os olhos para um desejo mudo e o desejo ressoe igual no nosso silêncio. Eu não sei se tu e eu vamos dar certo. Não posso oferecer-te certezas. Não quero criar-te ilusões.

Posso dizer-te que, mulher de paixões ardentes e intemporais, levei sempre um segundo a apaixonar-me para a vida. Foi assim com todos os outros. Contigo não. Demorei a amar-te, talvez porque conheça bem demais os teus defeitos. Ou talvez porque, no fundo, me irrite um pouco a arrogância cultivada no que sei que são as tuas qualidades. Ou até porque sei que nunca sabes o que queres. E sempre tive medo que, quando te quisesse, não me quisesses de volta. Nem que fosse só para destoar. Ou para me contrariares.

Demorei a amar-te. Quebrada e desperta dos sonhos que em tempos me tinham movido, eu tinha medo de te amar e de descobrir que não havia nada para amar em ti. E de ficar mais só. Eternamente só. Porque a solidão já era um nome amigo de outros tempos. Que deixei. E, de alguma forma, era melhor ter-te numa dimensão menor do que não te ter de todo.

Tu tens tanto para amar! Tanto! O tempo que me demorou o amor é justamente o que passo agora, diariamente, a questionar como não o vi. Amo-te. Quero-te. Custa-me a imaginar o tempo em que vivi tão perto de ti e tão longe deste sentimento. Mas, ainda assim, não leves a mal. Não posso. Não posso dizer que vai ser sempre assim. Eu não sei se tu e eu vamos dar certo.

Claro, eu sei que gostamos de dormir debaixo das mesmas camadas de roupa. E sei que gostamos de o fazer despidas de pudor e de tabus. Sei que gostamos de falar sobre sexualidade e género. Que gostamos de gritar sobre as nossas opiniões, como se marchássemos pelos direitos da equidade dentro das paredes do quarto. Sei que gostamos de cozinhar. E que somos um bocado irrequietas e desintegradas. Amamos odiar o mundo juntas. E defender o mundo juntas. Mas a dois. Porque nos assusta, em medida quase igual, a ideia do pódio enunciativo das nossas ideias.

Eu gosto de escrever e tu gostas de ler. Também escreves e também te leio. Achamos, tu e eu, que literatura e arte são conceitos irmãos como literatura e vendas nunca poderão ser. E, por isso mesmo, talvez estejamos condenadas ao anonimato. Agradar aos outros não faz muito parte de nós. Tão parecidas e tão diferentes de tudo o resto.

Percebo bem que queres que dê certo. Agora que finalmente encontrámos um espaço para nós, sem outras vozes nem outros entraves. Eu também quero. Quero estender este amor como tapete até ao fim da vida e fazer sobre ele o desfile da eternidade. Mas, meu amor, eu não sei se tu e eu vamos dar certo.

Fiquemos assim. Presas na ideia do eterno agora do reflexo. Amo-te. Amas-me. Não sei se para sempre. Mas agora. E o que é o agora, senão uma eternidade presente? O que é o agora senão o lugar onde tu e eu podemos dar certo?

Eu sei. Sei que tu e eu somos um nós feito de carne e reflexo. Tão unidas num só espaço que, quem olha, me vê só. Dizem-me para seguir porque não vêem. Mas estás aqui. E demorei a amar-te. Amar fora de mim impediu-me sempre de te amar. Agora não. Quero amar-te a ti. Que tens o meu nome. O meu corpo. A minha aparência.

Como nunca te tinha amado, não posso dizer que tu e eu vamos dar certo. Mas, se nos destina o mundo que sejamos unas até ao fim da vida... o melhor é tentar.

Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 16 de abril de 2019

Palavras que ofendem

Street Artist: FRAc // Fotografia de: Ricardo Barriga


Não é necessariamente verdade que eu não tenha medo das palavras ou que elas não me ofendam.

Simplesmente, palavras como merda, foda-se e caralho não me ofendem. Já palavras como violência, dor, fome, sede, pobreza… essas ofendem-me. Porquê? Porque eu entendo a necessidade de um foda-se quando se bate com o mindinho na esquina de um móvel. E entendo a necessidade do caralho quando alguém está a ser chato. E entendo a necessidade da merda que, além de necessidade fisiológica, é ainda um forte argumento social de uso bambamente colocado no aceitável.

O que eu não entendo é como é que ainda morrem mulheres às mãos dos maridos. O que não entendo é como é que existem pessoas a morrer de sede, quando eu tomo banho com água potável. O que eu não entendo é como nos banqueteamos sem pensamento pesado na fome alheia. O que eu não entendo é como alguns dormem à noite, depois de roubarem até as estrelas a quem já não tem teto.

Eu ofendo-me com palavras, como toda a gente! Mas não com as asneiras mais ou menos fortes. Essas são as palavras com as quais convivo pacatamente. Sem medo delas nem do seu uso. Nem dos preconceitos e normas sociais que as exilam. Mas ofende-me. Ofende-me a palavra purismo disfarçada de pudor. Ofende-me a palavra ignorância disfarçada de educação. Ofende-me globalmente a falsidade. E ofendem-me pessoas de palavras caras e sem impropérios a gritar a plenos pulmões ideologias vagas e vazias que deixam milhares de milhão na merda com os seus palavrões na ponta da língua. Não têm dicionários melhores nem vida que lhes permita expressões mais suaves. O mundo roubou-lhes até as palavras.

Não me ofendem as asneiras. Ofende-me o universo rico - literalmente rico - de palavras como corrupção, ganância, ostentação e crueldade. Ofende-me porque cria fissuras em peito de gente que, como eu, dentro de si, tem mais do que carne e osso. E por isso sofre e padece e morre.

Também não tenho medo da morte. Desculpem. Eu sei que devia ser feita da mesma matéria que edifica exércitos consonantes de pessoas programadas para anuir como os cachorrinhos de brincar das bagageiras dos automóveis. Mas eu não sou os outros. Já dizia a minha mãe. Tu não és os outros. E não.

Talvez por isso, tal como não me ofendem os impropérios, também não tenho medo da morte. Depois de tudo o que a sociedade edificou, na sua visão puritana, proibindo sexo e asneiras e outra centena de coisas inofensivas; depois de tanta violência fortuita e de tantas histórias mal contadas onde são sempre os mesmos que perdem os direitos; depois de tudo, parece-me que a morte é só uma espécie de poema romântico, cantado na voz de um Deus que a sociedade não honra porque não conhece. E não tenho medo dela, nem sinto que me ofenda. Pelo contrário, sinto que me entende.

As pessoas lutam contra as palavras porque é fácil. As palavras não ripostam. Pô-las de lado, condená-las à difamação, proibi-las, censurá-las, pisá-las e mal tratá-las não fará com que elas se revoltem e nos ataquem também. As pessoas lutam contra as palavras porque é fácil. Mas contra as palavras erradas. Porque, se fosse contra as certas, havia de se pisar calos de gente, de se derrubar pedestais, de se realinhar as lógicas do mundo. E as pessoas, que já têm tanto medo das palavras, têm ainda mais medo dessas pessoas que sobem aos pedestais e pregam sabedorias de cloaca.

Não é necessariamente verdade que eu não tenha medo das palavras ou que elas não me ofendam. Mas não me ofendem os impropérios. Ofendem-me palavras que ferem na carne. E palavras que moem a alma.

Sofro mais às mãos de quem sorri e fala caro em época de campanha eleitoral do com a gente que me manda para o outro lado com recurso às “palavras proibidas”. Então, não é porque eu não tenha medo das palavras ou porque elas não me ofendam; é porque compreendo mais e melhor que as palavras são o fruto e o problema reside na raiz. Há palavras caras que nos destroem. E só se dizem porque o fertilizante que se usa é justamente a merda que a sociedade faz e continua a fazer, calando o que deve ser dito e dizendo só o que é politicamente correto.




Sigam também o meu instagram, aqui



terça-feira, 9 de abril de 2019

E o amor que se...



Há neve nos recantos das praias dos meus pensamentos. Às vezes, imagino que é areia. Enregelam-me os pés nus, mas não faz mal. O frio é uma espécie de Inferno, tolhido na pele. Lembra que, algures, ainda existe uma capacidade moribunda de sentir. E talvez seja o melhor tipo de dor, porque chega aos ossos mas não à alma.

Vi muitos pores-do-sol contigo nesta praia. A do meu pensamento. Até teres metido o sol na mala e ido embora. Deixando-me as noites e a mágoa. A neve e a névoa. Voltaste para buscar a névoa, depois. Fica bem nas fotografias. Eu entendo.

Às vezes, quando caminho pelos destroços do que foi a minha cidade interna. Essa que culmina na praia do meu pensamento. E descubro que as ruínas foram violadas por bandidos selvagens. Há, pintadas nas paredes, pinturas rupestres que contam a história animalesca de um amor que morreu.

Como o amor não morre, alguém diz: e o amor que se foda. E eu espero bem que tenha razão. Que o amor se foda. E que, com ele, se fodam todos os sentimentos que ficaram por ele se ter, entretanto, provado unilateral e inútil. Que ele encontre o caminho certo para fazer isso mesmo: para se foder. Enterrado debaixo de toda essa neve que foi areia. Macerado debaixo de toda essa noite que foi pôr-do-sol.

Estou farta do amor. Cansada do amor. Com vontade de começar a despir camadas até o conseguir tirar de mim. Só que dispo camadas de derme e epiderme e músculo e osso. Dispo os ossos do tutano e o tutano de todas as suas estruturas adiposas. Dispo veias e artérias. E órgãos vitais. E o amor lá continua, sem eu saber bem onde se aloja ou como consegue sobreviver com tão pouco.

Merda. Sou toda feita de amor. Queria ser mais carne e razão. Mas não. Sou toda amor. Sou toda amor a dizer “e o amor que se foda”. E talvez seja por isso que quem se fode sempre sou eu.

Mas dói. O caminho de pés enregelados pela praia do meu pensamento, onde estruturas rochosas de memória relembram dias que não regressam. O caminho de pele seca pelas ruínas do que um dia foi um lar e agora é uma casa sem portas nem janelas, construída com silvas e correntes de ar.

O tempo passa. Os ponteiros da memória andam para trás. Os ponteiros da vida demoram duas horas a passar um décimo de segundo. Eu sufoco. Lá, dentro dessa cidade em ruínas e dessa praia de neve. Sufoco.

Cá fora, a moldura. Um sorriso. Está tudo bem. E contigo? Vazio, vazio, vazio. Espaços vazios numa manifestação eterna de felicidade. Está tudo bem. Mais um sorriso. Só quero desligar. Quero parar. Quero ir. E o amor que se…







Sigam também o meu instagram, aqui



terça-feira, 2 de abril de 2019

Dia das mentiras


Foto de Marina Ferraz | Modelo: Vanessa Oliveira


1 de Abril de 2019


Hoje parece-me um bom dia para dizer que não te amo. Não te amo. Podes dormir em paz esta noite. Não te amo. Podes abraçar outro corpo sem medo de teres cultivado um jardim que já não regas. Não te amo. Hoje parece-me um bom dia para dizer que não te amo.

O pássaro de asas cortadas que é o amor já não me mora no peito. Voou. Mesmo sem asas. Voou usando pós de dedaleira. Preparados com afinco num almofariz qualquer. Voou. E, assim de repente, sem esse pássaro moribundo e fétido na minha alma, eu descobri. Hoje. Não te amo. E é um dia excelente para to dizer. Que não te amo. Já não.

Hoje parece-me um bom dia para dizer que sou feliz. Sou feliz. Podes avançar pelas horas ciente do meu contentamento. Sou feliz. Podes sussurrar, em ouvidos alheios, palavras de amor, sem julgares que há lágrimas no lugar dos poemas dos meus olhos. Sou feliz. Hoje parece-me um bom dia para dizer que sou feliz.

O pássaro de asas abertas que é a felicidade pousou no meu ombro. Pousou na minha mão. Deu pequenas bicadas de entendimento na minha pele quente. E fez a noite mais brilhante. O meu sorriso mais puro. Pousando, disse-me que era livre e queria ficar. E eu disse-lhe. Fica, se quiseres. E ele quis. E foi assim, de repente, com esse pássaro livre na minha mão, que eu descobri. Hoje. Sou feliz. E é um dia excelente para to dizer. Que sou feliz. Agora sou.

Hoje, parece-me um bom dia para dizer que não quero desaparecer. Não quero desaparecer. Podes ir, descansado, sabendo que não passo o tempo da minha vida a desejar que ela acabe. Não quero desaparecer. Podes rir, de olhos semicerrados fixos num semblante que não seja meu, esquecendo-me até no permeio do riso. Não quero desaparecer. Hoje parece-me um bom dia para dizer que não quero desaparecer.

O pássaro de olhos vermelhos que é a esperança veio sentar-se aos meus pés, na calçada. Dei-lhe pequenos sóis cadentes em grãos de milho. E ele congratulou-se com a chuva de ouro alado que me fugia das mãos. Disse-me que ia ser um bom dia e que ia ficar tudo bem. Que também do meu céu cairiam sóis, um dia. E eu acreditei. Foi assim, de repente, com esse pássaro inebriado na luz do milho, que eu descobri. Hoje. Não quero desaparecer. E é um excelente dia para to dizer. Que não quero desaparecer. Agora não.

Hoje tenho muitas coisas para te dizer que sei que tu queres ouvir. Porque hoje é um dia em que a patranha cai bem e não causa alarde.

Mas tu sabes. Talvez ninguém o saiba como tu. Para ti, durante anos, este dia repetiu-se. Ciclo redundante, circular, que terminava e recomeçava nos teus lábios, cada vez que dizias que me amavas.

Por isso, deixa-me aproveitá-lo. O dia. Para te dizer que não te amo. Que sou feliz. Que não quero desaparecer.

Não te amo.

Sou feliz.

Não quero desaparecer.

Deixa-me dizer-te hoje.

Amanhã não posso.









Sigam também o meu instagram, aqui


terça-feira, 26 de março de 2019

Despi-me




Despi-me de merdas e odeio-te. Há traços em ti que me lembram o futuro. E estar viva come-me as entranhas, aos bocadinhos. Porque me obriga a olhar para ti, sem saber muito bem se quero de volta o tempo perdido ou acelerar o que falta, para fechar os olhos de vez.

Pelo caminho nu, fiz as curvas a velocidades inapropriadas, procurando uma justificação. Concluindo que a maldição é minha e o dom é teu. Mas que a minha maldição vale muito mais do que os mitos conturbados do teu dom.

Sim. Tens. Esse dom. O de fazeres alguém acreditar. Plenamente. Com todos os pedaços da alma. O de fazeres alguém sentir que vale. O chão que pisa. O mundo. O universo. O de fazeres alguém achar que é centro do universo e até o sol gira em seu torno.

Eu? Eu tenho a maldição. De me despir. Tiro as roupas. Com elas, as muralhas. Com elas, as dúvidas. Até sobrares só tu. Mas, hoje, despi-me mais. Despi-me de merdas. E, com elas, acabaste por sair também, deixando-me só os ossos.

Descubro que tenho só ossos, onde tive amor. E apetece-me gritar, mas também despi a voz. Despiste-me a voz. Com os mesmos dedos que me despiram as primeiras roupas. E as primeiras muralhas. E as primeiras dúvidas.

Despi-me de merdas e odeio-te. Um ódio que é mais ópio do que ódio em si. Porque me inebria os sentidos e me sabe sempre a paixão. Um travo muito doce a veneno. Baunilhado e jogado para o canto dos meus lábios, com promessas de um passado. Devia ser de futuro, eu sei. Mas tu tens o dom. E eu a maldição. O futuro, para mim, é só a soma dos passados. E nunca acaba. O passado. Vem sempre atrás do dia que amanhece.

Eu sei que devia ter cuidado nas curvas apertadas do caminho, principalmente em estradas de serra, sinuosas e cheias de falésias. Acelero. Estou com pressa de chegar ao entendimento do que falhou nas tuas promessas. Essas onde eu era alguém. Que merecia algo. Além de silêncio.

As juras de amor, escritas em poemas. As juras de amor, cantadas em voz de mel. Tantas ideias toscas para me vestir a alma que hoje dispo. De juras. De poemas. De canções. De merdas. De ti.

Os ossos que me sobram são feitos de argamassa e cimento. Tão feios que não há artista que neles pinte cores desajustadas, em arte de rua. E também não sobra muito onde se pinte, já que, por entre os ossos, há apenas ar e passado. Nenhum dos quais tela, seja para que tipo de arte for.

Despi-me de merdas e odeio não te odiar. É… despi-me. Despi-me de merdas e sinto que me reduzi ao mínimo essencial. Sou a coisa mais pequena depois do nada. Sempre disseste que gostavas mais das pequenas coisas. Das mais ínfimas. Das mais miúdas... eu realmente devo ser o amor da tua vida.








Sigam também o meu instagram, aqui

terça-feira, 19 de março de 2019

Racional




O ser humano. Racional. Porque só racionalidade se vê entre os humanos. Não há espaço para outra coisa. É o que nos separa dos bichos. O que nos torna superiores. O que leva o livro do génesis a mandar-nos reinar sobre tudo o que é natural. Temos isso. A racionalidade. Seja isso o que for.

Vivemos entre alertas e avisos. Não fumar. Não acender fogueiras. Não pisar a relva. Somos racionais. Inteligentes. Criamos as normas. Afixamos placas. Lemos os avisos. A nossa racionalidade é tanta que até conseguimos interpretar o que está por detrás das normas, placas e avisos. E tão inteligentes que fazemos a escolha de cumprir ou não, consoante a nossa vontade e prazer.

Em redor da nossa racionalidade há florestas queimadas, mares de plástico e glaciares líquidos. Em redor da nossa racionalidade, há espécies extintas e sangue jorrado a desporto. Em redor da nossa racionalidade, edifica-se sombra de sonho similar, fazendo de nós argamassa e lodo, aplaudindo a destruição que causamos.

Os Deuses taparam os olhos com as mãos. Eu faria o mesmo. Faltou a luz de Prometeu. E somos nós o fígado carcomido. Somos nós a pedra que amarra a esperança da sabedoria. Racionais. Que seres racionais são esses que precisam que lhes expliquem o óbvio e nem assim o entendem?

Há um toque racional na voz que grita em nome da Natureza. E irracionalidade no extremismo que logo se segue. Não conseguimos manter-nos estáveis sem um pé no caos. Como se nascêssemos para reinar, não sobre tudo o que é natural, mas justamente sobre a desordem das coisas. E não respeitamos o mundo porque não lhe entendemos a simplicidade clara da leveza. Essa coisa irracional de simplesmente estar e dar ao outro. De respirar e sentir que basta.

O ser humano. Racional. É o que nos separa dos bichos. Dos monstros. O que nos faz gente. Somar um mais um e não deixar ficar nada. Porque a inteligência é egoísta. E o raciocínio diz que o prazer imediato conta mais.

Um dia, a humanidade vai morrer. Teremos um espaço concreto e cheio de música, vazio de homens e mulheres e crianças. Um espaço irracional. E é com medo dessa irracionalidade que se fala do fim do mundo. Mas não. Não é o fim do mundo! É o fim da racionalidade tosca de um ser pensante. E um começo mais puro. Sem a destruição racional de quem continua a não entender a simplicidade da vida.

Os Deuses hão-de tirar as mãos da frente dos olhos e sorrir ao verde. Morreu o caos, dirão. Racionalmente. Como mandou o livro do Deus cego.








Sigam também o meu instagram, aqui