terça-feira, 25 de agosto de 2026

8º sem elevador

 



Prometo que esta reflexão será breve.

 

Ora... o meu prédio tem 10 andares, que equivalem a 13, já que as duas caves e o rés-do-chão são habitados, e a entrada se faz normalmente pelo piso -2. Eu moro no 8º.

 

Na semana passada, uma inundação no 2º andar provocou a avaria de ambos os elevadores. Faço uma pausa textual para os habituais comentários sobre antigamente também se vivia sem eles, da malta saudosista da idade da pedra. Retomando. Viver sem elevador custa. Mas viver sem ele não custa o mesmo para toda a gente.

 

Talvez quem mora nos pisos da entrada – sim, são dois – não se sinta sequer afetado por isto. Depois, a dificuldade acresce a cada piso. Mas, mesmo assim, não é igual para todos. Dei por mim a pensar nisto. Nas pessoas que têm cães para passear duas ou três vezes por dia; nas pessoas idosas, que mal podem caminhar a direito, quanto mais subir tantos degraus; nas famílias com crianças, que sobem transportando compras num braço e bebé no outro; nos cadeirantes, que ficaram em regime de confinamento.

 

Tudo isto me fez lembrar do autismo e de quem vive com ele. Desculpem voltar ao tema, mas somos sempre mais próximos dos nossos próprios estares, e este é o meu. Penso que o autismo seja a minha casa no 8º andar. E que alguns, como eu, subam só com as compras. Mas outros subam com outros pesos e dificuldades que eu ainda não tenho. É duro e desconfortável. É incómodo e piora, degrau a degrau, com o esforço. Esse esforço pode ser interação ou estímulo. São degraus feitos de barulho, de conversas inteligíveis, de coisas tão simples como lavar os dentes ou ir a uma festa de anos.

 

Vai sempre haver quem diga que não é uma situação assim tão má. É gente que mora nos pisos térreos do pensamento. Fica o convite para virem ao 8º. E, por favor, quando vierem, tragam o saco de areia para a Sam que deixei no carro...


Marina Ferraz



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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Carta aberta a uma mulher conservadora

 

Imagem retirada do Pixabay

Esta é uma carta aberta. Está aberta, provavelmente, porque o teu marido a abriu assim que chegou. Nada temas! Não vou dizer nada que ponha em causa a tua integridade. Sei bem os valores que defendes, todos tão religiosos e familiares. Sempre gostaste do bafiento aroma a anteontem com flor de laranjeira, que a mim nada me diz. E está tudo bem! Não podemos todos perfumar a casa com cravos vermelhos.

 

É engraçado que tenhamos crescido a escutar a mesma História. Engraçado que tenhamos desenhado, no mesmo quadro de ardósia, os mesmos números. Engraçado que tenhamos obtido somas tão diferentes dos números da História.

 

Mas não devia espantar-me. Quando eu sonhei com ser livre, tu sonhaste com o casamento. Quando eu me debati com as dificuldades da vida, já tinhas um diamante no dedo. Subiste de branco ao altar, quando eu vesti negro pelas ruas. Tiveste três filhos antes que eu tivesse a coragem de adotar um gato. Tivemos a nossa fase dos cosméticos e da maquilhagem em simultâneo. Eu, para ir a eventos. Tu, para esconder as negras. Tivemos o mesmo vício de correr para o banho mal chegávamos a casa. Eu, para enfiar o pijama. Tu, para que o teu homem não sujasse as mãos quando te batesse. Tive as minhas noites de amor e de insónia, onde tiveste noites de agressão e desmaio. Falei mais das minhas aventuras do que tu falaste das desventuras. Menina boa, sempre o soubemos, é a que cala.

 

Vi-te largar o silêncio. Fiquei tão feliz. Pensei que tivesses encontrado a voz debaixo da cama. Que a tivesses agarrado e erguido, no cansaço. (Foi idiotice minha essa alegria. Perdoa-me se vejo o mundo pelo meu filtro e acredito saber o que te faria feliz. Não precisas de me julgar... Eu própria me julguei pelo julgamento, dizendo a mim mesma que tens todo o direito de manter o teu conservadorismo, essa raiz antiga, servil de escravidão cor-de-rosa. Tens razão, não tenho o direito de te julgar!) Só que, ao ergueres a voz, uniste-a à de gente igual a ti. Fizeste um grito antifeminista, benzendo-te. E da tua boca saíram sentenças que condenavam as outras. E, entre as outras, estava eu.

 

Os valores bíblicos que voaram dos teus lábios – quando abriram pela última vez? Quando sangraram, esmurrados, no chão da esperança? – falavam da mulher-mãe, da mulher-esposa, da mulher que o feminismo tentou matar. E sabes o que ouvi? A Liberdade...

 

Os meus cravos voaram da tua boca, como pombas brancas. Os meus cravos voaram da tua boca, como palavras. E as tuas pombas tapavam o meu sol. As tuas palavras abalavam os meus direitos. E, ainda assim, eram pombas e palavras que só existiam porque, um dia, mulheres como eu defenderam a tua boca e a tua garganta e a tua voz e o teu espírito.

 

Esta noite, quando chegares a esta carta aberta e antes que sejas violada como o envelope que envolvia o manuscrito, gostava que soubesses que defendo o teu direito de seres a mulher que queres ser.

 

Eu fiz as contas à História. Sei que não posso vencer uma batalha contra o ciclo. Já me entra nos olhos a poeira dos sacudidos lençóis que se tinham guardado no baú. Ainda bem. Servirão de mortalha para mim e outras como eu. E perguntarás porquê. Por que razão precisaremos de mortalha se não podemos vencer o ciclo. Minha querida, entende. Mulheres como eu lutam, mesmo por causas perdidas. E sabes para quê?

 

Sabes para quê?

 

Entendes para quê?

 

Para que possas decidir tomar o teu banho antes de..., cuidar dos teus filhos, fazer o teu jantar, dar prazer ao teu homem e sair às ruas de voz erguida num alegado-Deus para tentares roubar-me o direito de escolher outra coisa.

 

 Assinado,

Uma mulher feminista


Marina Ferraz



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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Eclipse

 

Imagem retirada do Pixabay

Os óculos são opacos. Não se vê com eles, exceto se olharmos para o Sol. O Sol é o que queremos ver... não é? É o que nos dizem que vejamos, pelo menos! Pomo-nos em filinha indiana e fazemos isso. Olhamos o Sol, com a segurança de óculos que nos ceguem para tudo o resto. Mas, afinal... é para que o Sol não nos cegue... não é? Segurança, dizem! Queremos estar seguros!

 

Os óculos opacos que usamos por recomendação sistemática (e sistémica) servem para que ocorram vários eclipses. Enquanto assistimos à atualidade mastigada, peneirada num gatekeeping invisível, comendo cegamente informação com fontes selecionadas e oportunamente sintetizadas, os eclipses vão acontecendo. Há o eclipse do descanso, o eclipse dos produtos a preço acessível, o eclipse das condições habitacionais, o eclipse da capacidade de deslocação. Enfim, o eclipse da qualidade de vida e dos direitos fundamentais. Evidentemente, nada disto é o Sol. O Sol são as promessas, que brilham e rebrilham debaixo de discursos demagógicos e melindrosos, que falam ao coração das gentes com o brilho de um futuro ofuscantemente melhor.

 

Olhar diretamente para estes discursos queima. Se não a retina, o sistema neuronal. Então, é melhor usar óculos. Opacos. Para que não se note tudo o que vai eclipsando por caminho. Não é por acaso que essas lentes são gratuitamente oferecidas por governos de todo o mundo...

 

Entretanto, isto não é sobre o eclipse de quarta-feira... Para isso, sim! É melhor protegerem os olhos!

 

Mas, quando acabar o fenómeno, lembrem-se de tirar os óculos. Antes que acabem de construir este megalómano parque de diversões capitalista nos nossos ombros. Antes que se eclipse, além de tudo o resto, a vontade de estar vivo.


Marina Ferraz



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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Livro intonso

 

Imagem gerada por IA

Comprei um livro antigo. Um livro intonso. Desculpem lá o palavrão, mas não se inventou ainda palavra mais moderna para isto. Muito provavelmente porque, hoje, este método de produzir livros já não se usa. No livro que comprei, as folhas nunca foram abertas. Podia talvez ter começado assim. Comprei um livro triste. Um livro que envelheceu, que amareleceu, e nunca foi lido.

 

Lembro-me ainda de ver o meu avô a cortar as folhas dos livros que lia. Fazia isto com a navalha que trazia sempre. Um gesto-ritual. O abrir da navalha, o cortar das folhas cuidadosamente, para que não rasgassem, para que ficassem retas, para respeitar o livro. E, depois, a rugosidade da canelura, tão diferente da suavidade dos olhos que liam, dos dedos que seguravam o cigarro – quantas vezes apagado? – e o pousavam para virar a página.

 

Numa banca de velharias comprei uma memória que era velha e um livro antigo que era novo. Ainda bem que fiquei com a navalha do meu avô. Hei de me sentar com este livro intonso. De lhe abrir as folhas com o mesmo gesto-ritual e de o fazer cumprir, por fim, o seu destino de livro, que é ser lido.

 

 

Tirarei assim o A Leste do Paraíso do lugar vazio que lhe deram, a Leste do Paraíso, numa estante esquecida e sem finalidade. Terá, é certo, uma canelura mais rugosa, mas, depois do beijo agressivo da lâmina, avançarei para ele com olhos suaves e curiosidade. Não terei um cigarro na mão, mas agarrarei a memória.

 

Gosto de pensar que salvei um livro.

(E é tão importante salvar livros! Ainda mais agora, que a moda é a “digitalização destrutiva” pelas grandes empresas de IA.)


Marina Ferraz



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terça-feira, 28 de julho de 2026

Permitam-me interromper...

Imagem retirada do Pixabay

 

Não quero, não vou... já me falta a paciência, entendam, para os juízos de valor. Não sou ninguém para definir o que é a liberdade de expressão ou o sentido de responsabilidade dos outros, que certamente serão crescidinhos e munidos de um cérebro. Mas o algoritmo tem sido um bocadinho chato e, mesmo contra a minha vontade, vou dando de chapa com os vídeos, os comentários, as opiniões...

 

Queria dizer que não quero saber. Posso fazer isso. Não quero saber. Mas é mentira! Incomoda-me. O quanto me incomoda não é problema de quem diz o que diz e faz o que faz, mas meu. Meu, porque ainda vou permitindo que algumas palavras permeiem a capa-de-aço que visto diariamente para me proteger de imbecilidade (e do mundo, caso ainda não sejam sinónimos). A minha mãe bem me dizia que devia comprar capas-muralha de melhor qualidade... mas as verbas da escrita são ralas e o que sobra depois de pagos os astronómicos impostos ao Estado e os embolsos mensais das carecentes grandes empresas nem sempre chega para defesas dessas.

 

Não querendo fazer o disparate de julgar alguém, vou ficar-me pelo apanhado das problemáticas-tendência da semana, incluindo algumas conclusões superficiais, meramente expositivas. Portanto... na mesma semana em que ficamos a saber que gordos não podem ser felizes, descobrimos também que falar dos desconfortos quotidianos do autismo em entrevistas invalida todo o diagnóstico. Na sequência disto, descobrimos ainda que entrevistadores-de-alto-gabarito não sabem a diferença entre a palavra “normalizar” e a palavra “romantizar” e que os “psiquiatras de Facebook” não sabem a diferença entre uma “doença” e uma “divergência” (que é para não correr o risco de a palavra “deficiência” ofender alguém...).

 

Sacudo as palavras dos outros, o ódio gratuito e até a defesa dos que vêm criticar, mas também sem saberem do que falam. Deixo o telemóvel noutra divisão, para que não haja tentações. Interiormente, tenho opiniões, como toda a gente... e revolta que baste para me nascer este texto, em que tento não soar tão crítica... e falho como os estúpidos. (Deixo aqui uma informação relevante: a estupidez não é sintomática do autismo. Sim, o meu cérebro é autista porque eu nasci assim... é a vida... mas a estupidez não faz parte de uma disfunção cerebral. Veio depois. Talvez da socialização e dos esforços para ser/parecer normal? Nem eu sei!)

 

Seja como for, minha gente, vou de arrecuo para um beco do qual pensei que tinha saído e tentar ser só invisível outra vez. Falar de quem sou estava a tornar-se mais fácil, mas... deixem! Vou ali para o meu beco, ok? No meu canto, acho que não me sinto tão profundamente exausta.

 

É um mau momento para não fazer parte da norma.

 

É um mau momento para não ser os outros.

 

É um mau momento para existir.

 

Mas, por favor, continuem... desculpem a interrupção.


Marina Ferraz



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terça-feira, 21 de julho de 2026

G. e o burrinho

 

Imagem gerada por IA


Agora, sentas-te ali e ficas a pensar no que fizeste. O Povinho arrasta-se da cadeira para o canto e enfia as orelhas de burro voluntariamente.

 

O G. ri.

É o bully da sala. É mau. Só faz asneiras. Culpa os outros. Ri-se nas costas dos professores. Faz-se de santo quando é confrontado. E, logo a seguir, passa rasteiras, atira papéis, empurra quem espera na fila pela refeição do dia. Cochicha com os amiguinhos do peito. Faz planos mirabolantes para garantir que a sua barriga é a mais cheia, que os seus interesses são os primeiros a suprir, que têm um estatuto preferencial em todas as enfiadas. Ninguém ouse chamar-lhes Luís, Nandito, Aninhas... isso é para o Zé que, como já referimos, está ali metido à parede com orelhas de burro. Eles são os senhores, os chefes, os doutores, as excelências. Isto do respeitinho é bom e eles gostam.

 

O Povinho continua ali, com orelhas de burro. Sente-se um verdadeiro asno. Teve -3 no exame. É um burro mais burro que os outros. Houve a necessidade de criar notas ultranegativas para que ele soubesse isso mesmo. Que realmente é um burro e merece as orelhas, mesmo que tenha sido G a fazer merda.

 

O G. ri-se do burro. Aproxima-se. Parte-lhe as pernas. Ri-se. Garante aos professores que o Zé não será prejudicado. Que eles não serão prejudicados. O diretor queixa-se do seu comportamento e ameaça suspensão, mas bully que é, o G. nega e acrescenta com algum escárnio que o diretor não deve fazer-lhe frente, até porque é nomeado. Não é, é eleito... mas vamos esperar destes tiranos que saibam a diferença? Não! Falta-lhes tanto de vocabulário quanto de sensatez. Então, partem para a ameaça e ficam na sua.

 

Entretanto, o Zé, de pernas partidas, assume as novas orelhas, mas vai para casa porque é a final da copa. O G. também vai ver o jogo. Nisto, burros e bullies concordam. Se o mundo é uma bola, que gire no campo.

 

De futuro hipotecado, o Zé critica o mau perder da Argentina. Os senhores doutores não ligam tanto. Querem é ver porrada. A porrada distrai o Zé e, quando der conta, já acha que é culpado da má sorte que o acompanhará num futuro de coxeio. Mesmo manco, lembrar-se-á antes das camisolas rasgadas e das taças erguidas e das costas voltadas. Assim, o Zé resigna-se. Mais depressa a Argentina aplaude a vitória da Espanha do que o G. admite os seus erros.  

 

O Zé está cansado. O Zé quer dormir. As orelhas não assentam bem na almofada. Quer tirar as orelhas. Mas já estão pregadas. Criam raízes para dentro e vão comendo o cérebro como se fosse terra. O Zé não consegue dormir. Não tem futuro. Não tem esperança.

 

O Zé levanta-se. Olha ao espelho. Reconhece-se no reflexo. Aceita o aspeto de jumento. Na verdade, não é um semblante novo. Já tinha aquele aspeto no começo do ano, quando votou no bully para delegado de turma.

 


P.S.: Na sala, há outros Zés. Não votaram em G. Ou votaram, mas queriam não ter votado. Alguns detestam G. Mas quase todos têm medo de levar uma sova no intervalo. E ninguém faz nada.


Marina Ferraz



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terça-feira, 14 de julho de 2026

Simulação

 

Imagem retirada do Pixabay

 O sol nasce. O calor vem. A merda acontece. O jornal anuncia. Saúde, cultura, habitação e economia. Falta de médicos, de professores, de notas, de futuro, de casas, de saídas, de água, de empatia, de noção...

 

Mas o capitalismo está feliz. É o funcionário do mês. Todos os meses. Em todos os lugares. Senhorios, magnatas, empresários que nunca contaram tostão... esses esfregam as mãos. Contentes. As contas estão recheadas e têm lugar à frente para assistir à detonação. Das almas. Dos bairros da lata. Das vidas dos operários do mundano... Haja fertilidade. Mais se façam para os próximos anos...

 

No palco, o artista brilha nos cinco minutos de alegria que só sonhou ter. Roídos de inveja, os que ficam a ver, condenam. Mais fácil é condenar a felicidade do que o Estado que a tira. Mais fácil é condenar a verdade do que aquele que vive de mentira. E vem a ira. As fações. Quem defende e quem ataca, com iguais interjeições. Ódio. Gratuito. Tudo o resto é a pagar...

 

Haja Deus no altar. Até ele despido e desvirtuado. Passar um pano no passado e salpicá-lo com gotas de culpa alheia. O inimigo que esteve e o mal que fez. O remediar desses erros, outra vez. Dizer esculpido em pedra o que foi escrito a giz. E, desmascarado, o devoto: foi Deus que assim quis.

 

Onde vai este país? Já não consigo, não quero ver o que se passa. Mas não consigo, não quero ignorar. É um sentir misturado com a maldição de pensar.

 

O sol põe-se. Vem a noite. Três disparos. Dois feridos. O som acorda os sentidos... mas vamos tão adormecidos, que nem o sono acomete. E amanhã? Acorda e repete...

 

É grave. Entrave. Tão grave que se torna agudo. Um tudo que não é nada. Um nada que se faz tudo. E um pensamento mudo nesta grande salganhada. Querer acordar e ouvir: Simulação terminada.


Marina Ferraz



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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Fingimento compassivo

 


– Tudo bem?

– Tudo bem!

 

Ontem, falava com a Cláudia sobre isto, mas sobre muito mais do que isto. Não sobre o tudo bem de circunstância, dito na rua e em andamento. Sobre aquele que é perguntado e respondido – mesmas palavras, pontuação diferente – entre pessoas que profundamente se amam.

 

Idosos com as suas dores, pessoas com maleitas que atacam o corpo, a mente ou o espírito, gente que tem as contas bancárias perdidas nos sinais de menos. Cuidadores, amigos, parceiros destas pessoas. É desses que falo.

 

– Avó, estás com dores?

– Não, filha, hoje até estou bem...

Palavras ditas, encolhendo-se porque os ossos dão de si e ferem como facas em cada movimento.

– Fico feliz.

 

Julgue-se esta pessoa, se tiver de ser. Esta pessoa que eu fui. Que eu seria ainda hoje, sabendo as razões que a faziam fingir e as que me faziam fingir que acreditava no fingimento.

 

Há muita compaixão em quem sofre, querendo poupar o outro do sofrimento. Há muita compaixão em quem faz de conta que não sabe a verdade depois de ouvir essa mentira dita a custo. Cada pessoa carrega esse fingimento compassivo numa redoma de amor. É dizer fico feliz, mas ir buscar mais uma manta porque o frio acentua as dores que a pessoa diz que não tem. Ou ir fazer um chá porque eu também quero para mim. Mesmo sem precisar de chá, ou mesmo que nem apeteça.

 

Sim, eu sei. Mentir é errado. Eu também acho. Por defeito (literalmente) tendo a dizer a verdade. A sociedade em geral parece nem gostar muito, mas faz-me bem.

 

No entanto, não consigo deixar de pensar que, nestes cenários de mentira, quando ela serve para apaziguar o outro, não estamos a olhar apenas para uma sala cheia de fingimento. Estamos a olhar para sentimentos bastante puros e sadios.

 

 

É muito diferente, por exemplo, dos debates políticos. Onde também toda a gente está a fingir. Onde também toda a gente está a mentir. Mas ninguém quer saber de rigorosamente nada além do seu próprio umbigo.


Marina Ferraz



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terça-feira, 30 de junho de 2026

O último livro

 


Volto a Saramago.

Saramago tem esse dom. O de nos fazer voltar, se acaso conseguimos sair... o que confesso difícil, no meu caso.

 

Nas mãos, o exemplar do seu último livro, Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, ri-se inevitavelmente de mim. Tem a letra demasiado grande, as folhas demasiado grossas, ilustrações, três capítulos iniciais, passagens de diário do autor e duas notas de autores que se apresentam à luz do homem que conheceram e admiraram.

 

As notas de diário pessoal de Saramago afirmavam que o romance terminaria com a frase “Vai à merda”. Teria sido uma forma excelente de acabar o último livro. A morte teve outros planos. Tenho para mim que, lá pelos tempos de escrita d’ As intermitências, se tinha já apegado aos dotes deste filósofo intemporal, apaixonando-se pela música das suas palavras e pela sagacidade do seu pensamento. Terminei os três capítulos com amargura. Fica um luto lento no inacabado da história. O tal “Vai à merda” pendente... E, ainda assim, teria lido o produto inacabado nem que fossem três linhas. Três palavras. Uma frase que ficasse a meio.

 

Tenho saudades deste homem que não conheci. Sinto-me vista por este homem que não conheci. E, quando escrevo, é como se tivesse em mim ensinamentos que ninguém mais teve, mesmo sabendo que tantos outros terão agarrado as mesmas obras e sorvido a mesma sabedoria com igual sofreguidão.

 

Volto a Saramago.

Voltando, levo-vos comigo. Eu, escritora, a amar simultaneamente um mestre e a morte que o levou da pena. Eu, a assumir a minha pequenez ao lado desta figura que foi Nobel, mas cujo brilhantismo em nada se reduziria se o não fosse.

 

Para Saramago, lembra Fernando Gómez Aguilera, “A literatura é o que faz inevitavelmente pensar”. Aceito esse desafio, sabendo que talvez passe a minha própria vida à procura da obra que seja capaz de transformar algo ou alguém, gerando esse pensamento inevitável.

 

Num documentário que a Isabel me propôs, Saramago dizia que gostaria de ter as cinzas enterradas no jardim. Findo este livro, o que sei é que toda a sua literatura lhe é sepulcro. E é nela que deposito a minha homenagem, feita em flor de admiração. Os livros são pedras tumulares estranhas para almas visionárias. Ali as choramos. E, contudo, vivem.


Marina Ferraz



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terça-feira, 23 de junho de 2026

O ano em que morri

 

Imagem retirada do Pixabay

Durante anos e anos, o sonho. Peço que não me corrijam. Não era um pesadelo. Era um sonho. Se acaso a semântica vos importa, se quiserem ser puristas com as coisas da linguagem, permitam-me corrigir. Durante anos e anos, os sonhos. Muitos. Todos iguais na essência e, só por isso, para mim, singular.

 

O sonho era simples. 36. O sonho era um número de anos. O sonho era um número de velas. O sonho era uma profecia. 36. O sonho mostrava-me adulta, mesmo quando era criança. Adulta, mesmo quando era adolescente. Adulta, ainda há uns dias, agora que o sou. Uma noite aqui, outra além. Por vezes, dia sim, dia não. Por vezes, mês sim, mês não. O sonho pegava nesse eu de 36 anos e confrontava-o com uma única coisa. A morte.

 

Morri muitas vezes, nesses sonhos. Primeiro, acordava. Depois, deixei de acordar. Algures, tomei a consciência de que sonhava e brincava com as malhas do sonho, jogando com ele, sem conhecer os limites da vida e da morte, do dia e da noite. Conheci muitas balas, muitos precipícios, muitas cordas de forca. Acidentei-me dentro do meu carro e dos carros e motas de outros. Senti na pele quedas de avião e derrocadas e descarrilamentos. Sorvi venenos que me eram dados e cortes fundos em veias fundamentais, rasgadas por outros. Esses sonhos, que para mim são apenas um sonho, tinham em comum apenas duas coisas. Nunca era eu a autora da minha morte. Eu morria sempre.

 

Com os anos, confesso, comecei a fazer subtrações em vez de somas no momento de soprar as velas. Faltam dez anos. Faltam cinco. No ano passado... falta um.

 

Completo hoje um ano de convivência com a morte. Todos os dias, durante um ano, esperei o dia que me fosse o derradeiro, trazendo dentro uma pacífica aceitação que, apesar de tudo, vinha agarrada a pedrinhas de saudade. Hoje, faço 37 anos. E este ano, o que hoje termina, foi o ano em que morri.

 

Há muitas formas de se morrer. A minha, ao longo deste caminho que me levou dos 36 aos 37, não gerou convites para funerais, nem pediu lágrimas a ninguém. Ela levou-me a dizer coisas que talvez não tivesse dito e a fazer coisas que talvez não tivesse feito, pelo sim, pelo não. Neste caminho, tive muito orgulho de mim, mas desiludi-me muitas vezes com o mundo. Este trajeto matou-me alguns objetivos e muita da esperança que insistia em cravar dedos na alma. Matou-me pedacinhos de alma. Matou-me certezas infinitas e fez-me ponderar soluções que, anos antes, seriam impensáveis. Também me morreu, por aqui, a vontade de fazer o esforço. De ir, de estar, de falar, de correr atrás de coisas que me cansam, me reduzem ou me ignoram. Morreu um bocadinho a poesia que eu era, mas de uma maneira boa. Eu sempre fui mais prosa... e também morri um pouco para poder ser um mar de eus-personagem, justamente por isso. Diria que me morreu a fé no mundo e na paz... porém, talvez não tenha sido este ano. Penso que já não tinha essa fé, cadáver pesado e triste. Mas foi este ano que larguei esse defunto, para seguir mais leve. O mundo está como está. Mas eu não tenho de ser o mundo.

 

Sopro estas 37 velas. Depois do ano em que morri. Faço, em vez de um pedido, um elogio fúnebre, porque só eu sei o que passei. Eu, a gata, as minhas quatro paredes e, talvez, a minha mãe.

 

O que digo a esse fumo que se eleva? Isto: Tinhas razão. Eu morri com 36 anos. Até aqui foi vida (ou um sucedâneo qualquer). O que vier, agora, é lucro...

 

Tão certo, que até a AT foi informada. Parece que este ano recebo qualquer coisita de IRS.

Como escrevi naquele velhinho teste de História, num lapso que afinal parece fiel à verdade, enterrem-se os feridos e curem-se os mortos.


Marina Ferraz



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