terça-feira, 31 de março de 2020

Gosto de sexo


Fotografia de Hélio Silver
Modelo: Flo


Eu gosto de sexo. Como uma viagem aventureira. Gosto. Gosto de sexo.

Poderão dizer-me: toda a gente gosta de sexo. Mas eu acho que não. A maioria das pessoas gosta do prazer. E gostar de sexo é muito diferente.

Eu gosto de sexo. Gosto da sensação do toque na pele. Do despudor de pedidos feitos com os olhos. Das mãos lançadas na busca pela servidão do outro. Da vontade de ser escravo, da vontade de ser mestre, da vontade de ser.

Gosto do enrolar das línguas sem linguagem e da linguagem obscena sem idioma. Gosto da universalidade linguística do toque. Dos cabelos segurados nas amarras dos dedos e puxados sem acanhamento. Gosto dos beijos no pescoço. Da manipulação do corpo em coreografias novas e singulares. Do abrir do corpo. Da invasão do corpo. Da oferta platinada de dois corpos que se dão e se fundem, numa dança de afastamentos e reencontros sucessivos.

Gosto da toma do controlo. Da cedência do controlo. Da imagem de fora, criada pela mente que se faz voyeur de nós. De ver, de fora, toda essa dança de idas e regressos, sem sair do lugar.

Gosto de ouvir que pertenço a alguém e de sentir que alguém me pertence. Por uns minutos… até o prazer nos fazer esquecer que existe diferença entre nós e o outro, convencendo-nos que somos peças de um engenho só… ou até a vida nos convencer novamente do que já sabemos: que ninguém é de ninguém.

Gosto de sexo. Dos sabores do sexo. Das suas sensações. Dos seus aromas. Da forma como ele cria sobre a pele uma camada fina de suor e, debaixo dela, uma intensidade insaciável de desejo. Gosto da expressão luxuriante do olhar quando o gozo gera descontrolo e enuncia o fim. E da maneira quase obscena como se sente o corpo vibrar nessa perceção do prazer do outro.

Gosto quando acaba. Do corpo mole, da cabeça onde todos os pensamentos são derretidos numa mancha sem significados nem sentidos porque pensar parece fútil e desnecessário. E gosto. Não sabia que gostava. Mas descobri. Gosto que me abracem a seguir. Gosto da descoberta insensata de que esse desconhecido era, na verdade, apenas mais uma coisa que eu ainda não tinha feito e não algo irrealista, inventado para pintar as comédias românticas de Hollywood.

O sexo é exatamente como uma viagem de aventura. Daquelas que se fazem de mochila às costas e onde queremos ver, sentir, provar tudo. Daquelas que não se fazem com toda a gente. Daquelas que não valem a pena ao lado de quem quer só o prazer das quatro paredes de um resort com SPA e piscina. Daquelas que queremos fazer com quem nos entende e também quer ver, sentir, provar tudo. Daquelas que queremos fazer com quem vai andar ao nosso ritmo e mostrar o seu, respeitar a nossa sofreguidão e mostrar a sua, sentir as nossas limitações sem se importar com elas. Daquelas que queremos fazer com quem também gosta de sexo.

Eu gosto. Gosto muito. De sexo. E é justamente por isso que só o faço quando sinto, em cada um dos meus poros, que gosto de alguém.






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terça-feira, 24 de março de 2020

Tradução



As palavras que digo. Será que as entendes? Às vezes não sei. Talvez porque sinto a pressão das paredes farpadas da pele a impedir os dedos de escrever concretos. Falo uma língua nova. Para ti. Não é por mal.

Peço que entendas. Sou fã das palavras e do seu poder. Mas, por lhes conhecer o poder, também tenho medo delas. E, por isso, eufemismos não me são raros. Digo pouco e quero que leias muito. Vivo de contrassenso. Por favor. Deixa-me traduzir as frases soltas que te digo.

Às vezes, digo-te “olá” pela manhã. O que quero dizer é que acordei contigo no pensamento e o desejo, mais do que meramente leve, de que pudesse estender o braço e encontrar-te na cama. O que quero dizer é que, se estendesse a mão e estivesses ali, teria outras formas de cumprimento, feitas entre a simplicidade de um beijo e a criatividade do que viesse depois. Então, quando te digo “olá” pela manhã, esse “olá” transporta o mundo do desejo cativo na noite dentro e todos os pensamentos feitos de ti pela madrugada.

Nem sempre te digo “olá” pela manhã. Às vezes, troco-o por um “boa tarde”, depois de algumas horas de trabalho. O “boa tarde” significa o mesmo que o “olá” matinal. Mas significa, também, que tenho medo que me julgues chata ou maçadora, nas minhas repetições rotineiras. Então, quando digo “boa tarde”, estou a dizer que me lembrei de ti pela manhã e que te mantive no pensamento latente, até chegar um horário mais apropriado para poder dizer-te que pensei em ti, sem que seja tão óbvia e evidente a urgência que me faz dizer-to.

Falo do meu dia. Não importa as palavras que eu uso. A tradução é simples. Quero saber do teu. Não por mera curiosidade ou porque tenha algum tipo de direito a investigar os acontecimentos da tua rotina. Simplesmente porque quero saber se estás bem. Porque quero saber se, algures, entre o ponto A, B e C dos teus trajetos aconteceu algo que te fizesse sorrir ou ficar triste. Gosto de te imaginar a sorrir. Também é isso que dizem os bonequinhos prefabricados das janelinhas de conversação. Gosto de te imaginar a sorrir. Ficas com um jeito menino que me leva, também, a um tempo livre de preocupações. A um tempo livre. A uma liberdade sem tempo.

Digo que “vai ficar tudo bem”. Muitas vezes. Traduzir isto seria dizer que não faço a mínima ideia de como tudo vai ficar mas que desejo, mais do que a minha própria felicidade, que o dia e o mundo e a vida promovam a tua. E sei que não acreditas nas minhas previsões, baseadas em coisa nenhuma senão na esperança. Mas repito. Porque quero que, ausente de fé, possas agarrar com o canto do olho um pouquinho da minha.

Às vezes não digo nada. Mas também os silêncios têm tradução. Nunca significam, contrariamente a más interpretações, desapego ou desinteresse… e muito menos que não ponteaste o meu pensamento. Às vezes, os silêncios significam que tudo o que tenho para dizer não cabe em palavras. Às vezes, significam que não quero ser aborrecida ou inoportuna. Às vezes, significam que estou a precisar que sejas tu a dizer algo porque preciso, num momento de puro egoísmo, de saber que te lembraste de mim, mesmo sem o estímulo da minha primeira palavra.

Interrompo o silêncio. Tantas vezes. Só para dizer que gosto de ti. “Gosto de ti”. Talvez me escape, sei lá, que te adoro. Aqui e ali. Sem contexto nem razão. Frases loucas e versos soltos. Comprometidamente largados, como se me queimassem na alma, se não fossem escritos. A sua tradução é simples. Estou a apaixonar-me por ti. Estou apaixonada por ti. Tenho um medo terrível de que saibas que estou apaixonada por ti. Tenho ainda mais medo de que não o saibas. Cabem tantos medos dentro desse “Gosto de ti” que ele parece uma espécie de roteiro pela floresta negra do meu peito. Essa na qual só tu te aventuras e só tu te entendes.

Digo que tenho saudades. “Tenho saudades tuas”. Diria que tenho saudades nem que tivesses saído há meio segundo. “Tenho saudades”. As saudades não precisam de tradução. Na verdade, nem existe tradução que se dê. É uma palavra intraduzível. Mas, se tivesse de explicar, diria que é um sentimento de falta com uma pitada de amor.

Amor. Essa é uma palavra que não se diz. Mas, se um dia a traduzir, há de ser em gestos.





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terça-feira, 17 de março de 2020

Carta de despedida Ônough


     É hora de dizer-te adeus. Mas adeus não é palavra que se diga a quem nos levou, sem esforço nem reclamação, aonde quer que se quisesse ir. É hora de dizer-te adeus. Mas vacilo.

     Ainda me lembro. A primeira troca de olhares. De faróis. Os meus presos à piada entediada da espera por um teu igual, com a minha avó no carro, a derreter num dia de Verão. E os teus, acesos, dizendo-me. Vá, leva-me daqui. Não vou dar-te problemas. Isso foi o primeiro problema que me deste. Mas não faz mal.

     Assististe, de forma silenciosa, a muitas discussões de uma relação que não podias sanar. E, para compensá-lo, deixavas-te ser, tantas vezes, o cavalo branco que eu mesma montava para fugir. E, nessas noites em que me desabriguei, amando estrelas como se fossem gente e desejando a capacidade de vê-las além das lágrimas, foste o banco quente onde pude deixar que a noite virasse tardia e o sonho se pusesse, aos pouquinhos, para que a escuridão perpétua não me fosse estranha.

     Não era que te importasses de fazer essas viagens comigo e mais alguém. Mas, aos poucos, foste compreendendo que, um dia, serias só tu e eu. E quiseste sempre que eu me habituasse a ti.

     De tão presente estares, acabaste por ter um nome. Um nome dado, de impulso, na memória do teu antecessor caótico, quando ameaçaste dar o primeiro problema. Lembro-me da minha voz. Oh No! E do rugido do motor a rir, como se tivesse sido uma partida. E de eu dizer. Agora tens nome. Tinhas. Ônough.

     Claro, um dia, não foi só uma partida. Também puseste o pé em falso. Acontece! Colapsámos os dois. Foi um embate brusco, contra a parede de cimento que é a vida. E, à medida que as mazelas parcas me saravam, diziam-te que coxearias para sempre e que devia deixar-te. Tu olhaste para mim. Olho com farol. Não! Eu não ia abandonar-te. Descansa. Pedi. E anuíste.

     Dos problemas que disseram que me ias dar, nunca me deste nenhum. Tinhas sempre espaço para mim, os meus problemas, as minhas compras de supermercado e basicamente o conteúdo de três casas de família. Eras um pequeno gigante, a mostrar o peito para contrariar o destino que te tinham dado. Fazias, num dia, centenas de quilómetros por mim, sem queixume e sem exigires mais do que um mínimo de atenção.

     Fizeste, comigo, mil e um piqueniques em andamento. Sem te importares que parecessem guerras de comida onde, inevitavelmente, acabavas em pior estado do que eu. E, de alguma maneira, insistindo em desligar o rádio, obrigavas-me a abstrair do som da mastigação com pensamentos que viravam textos e poemas e canções.

     Vimos, juntos, muitos pores-do-sol. Gostavas mais dos que víamos parados junto ao mar. Quando me encostava a ti e fingia que não me sentia só.

     Tivemos piadas privadas. Algumas das quais se marcaram no teu semblante. E histórias sobre a imbecilidade alheia somaram-se no teu para-brisas, enquanto vagabundeávamos na estrada mais movimentada do país.

     Detestavas chuva. Totalmente. Mas, das reclamações, feitas em três pontos de exclamação horizontais, não fazias mais do que ameaça. Antes de repetires. Vá, leva-me daqui. Não vou dar-te problemas.

     Ouvi, com desagrado, o dia em que me disseste outra coisa. Algo que não era adeus. Afinal, adeus não é palavra que se diga a quem nos levou, sem esforço nem reclamação, aonde quer que se quisesse ir. Disseste algo que enunciava que, brevemente, a soma dos teus esforços te tornaria o problema que não querias dar-me.

     Notei-te faróis tristes, enquanto escolhia as próximas mãos que te abraçariam e escolhia o próximo companheiro de viagem. E tive saudades tuas, antes mesmo de ter motivos para sentir essa saudade.

     É hora de dizer-te adeus. Mas adeus não é palavra que se diga a quem nos levou, sem esforço nem reclamação, aonde quer que se quisesse ir. A um amigo. A um companheiro de viagem. De galhofa. De aventura. A quem esteve lá, nos momentos bons e maus. Cumprindo a promessa. Reforçando-a.

     É hora de dizer-te adeus. Mas vacilo. Em vez disso, digo obrigada.




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terça-feira, 10 de março de 2020

O pacto

Fotografia de Analua Zoé 


    Não. Não preciso de fazer um pacto contigo. E preciso que entendas. Que o farei, se precisares. Se quiseres. Se insistires que devemos. Mas não. Não será porque precise. Não preciso de fazer um pacto contigo.


    Ser tua não é uma promessa. Nem uma escolha. Foi algo que aconteceu, de forma descontrolada, no meu corpo. Um dia, todas as células que não decidiram cometer suicídio, resolveram reestruturar-se em mim e meter um pouco de ti dentro delas. Algures, na manhã seguinte, eu acordei e não me pertencia.

    Tentei. Como tenta qualquer pessoa consciente e com a maldição da racionalidade, tirar-te do núcleo das minhas células e pôr-te só num patamar mais suave, como as suas membranas. Mas nem sal. Nem sálvia. Nem incenso. Nem tónicos. Nem o chá da minha avó materna. Nem as mezinhas da minha bisavó paterna. Nada funcionou.

    Perguntei às cartas de Tarot. E elas disseram-me, três vezes seguidas, que eu estava a ser idiota. E eu suspirei. Idiota. Triplamente idiota. Porque também ninguém acredita nas cartas de Tarot quando não gosta do que elas dizem.

    Um dia, todas as células que decidiram não cometer suicídio, resolveram reestruturar-se em mim e meter um pouco de ti dentro delas. Algures, na manhã seguinte, eu acordei e não me pertencia. E o pacto que não fizemos estava selado. Provavelmente, para ti, não passou de um sonho. Mas, para mim, foi como ter um desígnio mil vezes mais assustador… porque ainda que dormisse, eu não sonhei. Acordei. E soube.

    Esse pacto poderia ter sido feito com palavras de eternidade. Podíamos tê-lo feito no centro da cidade, por entre o movimento, sem notar que existia mais alguém no mundo. Ou no meio da minha sala, ao lado do fatídico sofá que eu odeio cada vez menos. Ou no meio da serra, por entre árvores que sabem que eu sou monstro e tu também… e que está tudo certo, porque somos o mesmo tipo de monstro.

    Preferia, talvez, esta última versão: tu e eu, no lugar onde as tágides cantam e só o vento nos interrompe. E, tudo bem, podíamos dizer qualquer coisa, muita coisa ou coisa nenhuma. Porque as palavras não importam. E os olhos falam por nós. No meio da floresta, talvez percebesses que eu não sou domável, que eu sou selvagem, que eu sou livre. Mas, no meio dela, perceberias que, dentro de mim, também tu o és.

    Tenho-te dentro. Carne e sangue e seiva e alma e rio. Tenho-te dentro, no núcleo das células teimosas. E não posso dizer-te que estarei aqui, ainda que outra paixão venha. Porque a ideia de outra paixão me causa náuseas, de te ter no horizonte de tudo o que o meu olhar alcança. Não quero outra paixão. Não quero nada. Quero-te. Sem termos nem regras nem noções forçadas. Quero-te.

    Prometo-me a ti ao não fazer promessas. E cumpro o pacto mais antigo do mundo. Aquele que é feito, de forma inconsciente, inadvertida… não no centro da cidade, no centro da sala, no centro da serra… Aquele que é feito, de forma inconsciente, inadvertida no centro de mim.


    Não. Não preciso de fazer um pacto contigo. Posso fazê-lo. Se quiseres. Se precisares. Mas não. Não preciso de fazer um pacto contigo. Porque o pacto se fez naquele abraço que me tornou inteira outra vez. Estás no núcleo das minhas células. Dentro da redoma do meu coração. E na voz do vento que te beija quando eu não posso.





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terça-feira, 3 de março de 2020

Será

Fotografia de Analua Zoé 

Será?

Será que Deus não nos quer completos?

As caixas são fechadas antes de se fecharem os caixões e os olhos, para que os caixões se fechem. Acordamos neles! E o caixão é o corpo que ainda sonha. O corpo que ainda sofre. O corpo inerte, de coração destruído ou pulsante. A querer ser pássaro. A matar pela ideia de vir a ser pássaro. Sem nunca o ser.

Há quem não tenha liberdade. Quem não tenha amor. Quem não tenha liberdade de amar.
Será que Deus não nos quer completos?

A pergunta soa a chuva. Talvez porque, essencialmente, caia. Ácida. No ácido de pensamentos poluídos que queriam ser sonho primeiro e inexistência a seguir. Na dimensão do que não acontece. Do que não é. Do que não poderia ser, ainda que se tentasse que fosse. A pergunta soa a chuva. Bate nos vidros da mente. Gota. Gota. Enxurrada de pensamentos. A pergunta é ácido que queima nas  veias.

De repente, o céu abre. E o céu é azul. O tempo passa com as estações. E nós saímos no apeadeiro do tempo. Tarde. Tão tarde que partiram todos os comboios. Ficamos apeados, algures no inferno que se monta entre invernos e primaveras. Neste jardim, as flores nascem murchas. A semente era ópio. A semente era azul. E pergunta.

Será que Deus não nos quer completos?

Risco.
Recomeço.
Não recomendo: nem riscos, nem recomeços…

Recomeçar dói como riscos de cicatriz da pele, quando a caixa se fecha antes dos olhos. É ter de explicar tudo outra vez. De olhar para o negro que se faz dentro, mexendo no borro de uma alma que caiu em muita lama antes de largar as transparências. Lavar essa sujidade com água da fossa de nós. Recomeçar dói.

E há, algures, quem não tenha liberdade. Eu não tenho! E há, algures, quem não tenha o amor que me sobra. Sobra… mas por não ter liberdade de amar.

Com o passar dos anos, a liberdade foi-se com a ilusão e os amores foram-se em busca de amores melhores. Descobri que o tamanho do amor que eu tenho em mim é desajustado à época. Pesado e pouco ergonómico. Nada fácil de transportar nas mudanças e essencialmente descartável por não ser portátil…

Não foi só isso que descobri. Também descobri que os anos não nos dão mais respostas… mas mais perguntas. Todas resumidas numa só.

Será que Deus não nos quer completos?

Esta e a pergunta que sobra. Sobra. Como o amor em mim! Esta e a pergunta que sobra: Será que Deus não nos quer completos?

Mas não sabemos se acreditamos na plenitude desse “completos”. 

Sabemos só que (já) não acreditamos em Deus!


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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Coordenadas


Fotografia de Analua Zoé 


     A vida – disseram-me, um dia, num sonho – não é um lugar. É uma sucessão de encontros e desencontros. Metade do tempo não saberás o caminho. As coordenadas são estas: se estiveres perdida, estás no caminho certo.

     Perdi-me. Em ti. Por ti. Completamente. Contigo, perdi as certezas e as dúvidas também, à medida que buscava, no mel de olhos tristes, o espaço que me adoçava o amargo dos dias. Perdi-me. De mim. Das minhas infindáveis questões. Mergulhando nos teus abraços, na tua força. Perdi-me. Da minha solidão. Da minha vontade de estar só. Perdi-me. Do desejo que me atava à morte e à aceitação. Perdi-me.

     As muralhas do eu – perdidas – armadura intemporal do sobrava em mim, eram só pele frágil. E eu nunca fui mais forte.

     Olhando para ti, nessa força desprotegida, eu quis dizer-te. Quis assegurar-te do que gostaria que me tivessem dito, caso tivesse, algum dia, havido coordenadas em alguém como as que há, agora, em mim, no mesmo braço que empunha a caneta. Quis dizer-te: Sou tua. Estou perdida em ti. Por ti. E estou aqui. Sempre. Para sempre.

     A tua força frágil, ao lado da minha fragilidade forte parecia tornar desnecessária toda e cada palavra que eu dissesse. E a descrença dos teus olhos, afastando-te os passos e remetendo, tantas vezes, o nosso amor ao silêncio despido de nós, era uma espécie de faca com dois gumes afiados, rasgando as mãos que não largam e que fazem, assim, pactos de sangue.

     Se perderes a esperança, sabes onde me encontrar.

     Era isto que eu queria dizer-te. Nas palavras despidas de fé, semeadas no passado onde eu não moro, sei que a perdes. A esperança. E eu sei como a esperança é. Tão diminuta e transparente que, uma vez caída sobre as relvas do amanhã, se faz gota de orvalho e evapora. Como se nunca tivesse existido. Agarro-a nas minhas mãos, diamante inócuo, capaz de espelhar os sorrisos leves e a luminescência dos primeiros raios da aurora. Se a perderes, sabes onde me encontrar.

     Se perderes a felicidade, sabes onde me encontrar.

     À medida que me dizes. Não fui feliz nem vou ser. Justamente depois de te ter visto. Ser. Feliz. É isto que eu penso. Se perderes a felicidade, sabes onde me encontrar. E eu não sei se posso. Fazer-te feliz. Ou lutar contra o que não te deixa sê-lo. Sei só que tenho dois braços. Ouvidos. Coração. E que posso disponibilizar qualquer um deles para o que for preciso. Até os teus lábios deixarem de ser uma linha perpendicular com o chão que queres que te engula e encurvarem num sorriso sincero. Feliz. Dessa felicidade que não quero que percas. Mas, se a perderes, sabes onde me encontrar.

     Se perderes a força, sabes onde me encontrar.

     Fazes contas regressivas. Todo o futuro te é passado. E o passado foi o lugar onde aprendeste a ser forte, à medida que perdias a esperança e a felicidade. À medida que pagavas, com elas, o preço da força. Foi um preço elevado a pagar pela vida. Descomedido, se o considerares aplicado por quem se julga dono de mundos e razões que não tem. Olho para ti e é como se não pudesses ser outra coisa. Pareces-me forte como as muralhas que sobrevivem à passagem das Eras. Ainda assim, noto em ti, por detrás dela, o espaço raiz de uma mágoa. E quero dizer-te que podes. Deixar ir. Chorar. Ser a criança que não foste. Procurar o carinho que não tiveste. Ser alternativamente indefeso por dois segundos. E quero dizer-te que podes fazê-lo porque eu sei empunhar as armas. Vivo de loucura. Uma loucura que afasta raios e os fazem cair mais adiante, onde não ferem nem queimam. E, que me matem mil exércitos, mas não terás uma chaga sequer enquanto eu estiver aqui. Por isso, por favor, diz-me que se perderes a força, sabes onde me encontrar.

     Se te perderes de ti, sabes onde me encontrar.

     Mas os exércitos e os males do mundo são simples, não são? Podes bem com eles. Parecem-te brandos e suaves. Estás habituado a eles e levas a vida, provavelmente, já sem fé ou felicidade. Não são eles que te pesam. Pesa-te o corpo. Por mais leve que ele seja. São os passos que dás em ti que te pesam. Carregas decisões e fardos e histórias. E todos eles são cimento. Todos eles são betão. Os passos sobre a calçada são densos, parecem enterrar-te na sepultura vindoura todos os dias. E a alma separa-se, aos poucos, fugindo desse peso que não tolera… ou será o corpo que a expulsa por já não caberem nele 21 gramas a mais?! Seja como for. Penso que te perdes de ti. Às vezes. E quero que saibas que, além do corpo quente que me inebria de prazeres e sonhos; eu conheço o toque da tua alma. É ela que me dá vida. Foi por ela que, de forma quase inconsciente (e muito, muito insensata) me deixei arrebatar. Gostava de tentar devolver-te a ti. Então, se te perderes de ti, sabes onde me encontrar.

     Não sei. Não sei se queres. Se deixas. Se consegues. Mas, um dia, disseram-me, num sonho, que a vida não é um lugar. Que é uma sucessão de encontros e desencontros. Que durante metade do tempo não iria saber o caminho. E deram-me as coordenadas. Disseram-me: As coordenadas são estas. Se estiveres perdida, estás no caminho certo.

     Perdi-me. Completamente. Por ti. Em ti. Para sempre. Descobri. As coordenadas, afinal, não estão no braço. Estão na mão que escreve. Perdida de desejo, de vontade, de paixão e de amor por ti.

     Se quiseres perder-te em mim também, sabes onde me encontrar.





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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

As páginas centrais do livro





       Não sei o que está escrito na lombada. Mas sei. Sei que somos as páginas centrais do livro.

     Nós não fomos os primeiros. Nunca. Ou quase nunca. Para ninguém. Mas também nunca nos importámos muito com isso. Pelas primeiras páginas do livro sempre tivemos o sentimento ambíguo de uma aventura que não sabíamos se podia ser boa, de uma narrativa ainda comprometida com explicações e descrições demasiado extensas e quase escusadas sobre um mundo que, tanto tu como eu, apreendíamos com facilidade e sem palavras. Ainda que o nosso olhar sobre o mundo fosse distinto – o teu mais prático e concreto, o meu mais intuitivo e onírico – não precisávamos do que vinha nessas primeiras páginas que não éramos nem queríamos ser.

     Apesar de nunca sermos os primeiros, também foi raro que nos quedássemos no fim do que quer que fosse. Se assim tivesse sido, talvez nos tivessem notado, em vez de permanecermos invisíveis. Mas tínhamos – temos – uma alergia às conclusões. Não gostamos quando acaba. Não gostamos da ideia de que acabe. Qualquer noção que se confunda com o fim nos lembra inevitavelmente que quase todos os que por nós passaram iam para lá: para o lugar onde chega o ponto final que remedeia tudo com a desistência. Não somos de desistir. Se, em vez de página, fossemos autores – e que ilusão é essa de criar algo, neste mundo onde tudo já existe – escreveríamos até ao último suspiro uma história que nunca terminaria.

     Tu eu sabemos bem. As pessoas ligam mais à lombada. E eu não sei o que está escrito na lombada. Mas sei. Sei que somos as páginas centrais do livro. Nunca passam por nós os olhos na decisão da demora. Perdem-se, talvez, na ilustração da capa; no nome e na biografia desse autor que deve ser um Deus qualquer em que não acreditamos. Espreitam a primeira página. Ou a última. Pousam o livro na estante. Levam o livro da estante. Tanto faz. Levam ou deixam, sem saber que existimos. Tu e eu. Nas páginas centrais do livro.

     Somos incrivelmente sós. Quem nos vê, rodeados de gente, não faz ideia. Mas tu és incrivelmente só. E eu sou tão só como tu. E mais sozinha, às vezes.

     Não sei o que está escrito na lombada. Mas sei. Sei que somos as páginas centrais do livro. Tantas vezes a vida embateu sobre nós, deixando-nos no negrume de uma quase inexistência. Tantas, tantas. Tantas, que julgámos que era porque não toleravam. E talvez não tolerassem mesmo. É o lado mais triste de todas as histórias, quando se chega a nós. Porque somos as páginas centrais de um livro. Aqueles que gostam de ler irão encarar-nos como um indício do fim. Aqueles que não gostam, irão ver-nos como marco de uma soma de páginas que nunca mais terminam. Passam por nós reclamando que nunca mais chegam ou que chegaram depressa demais. Passam por nós, numa reclamação frequente, constante, cheia de amargura.

     Nunca estivemos noutro lugar e julgámos sempre que nos odiavam. Ali, nas páginas centrais de um livro. Julgámos sempre que a vida era injusta por nos colocar justamente ali. No centro desse livro, que sempre foi fechado de forma violenta e abrupta. Sem cuidado nenhum, por todos os que queriam chegar à contracapa.

     Nas páginas centrais do livro, julgámos. Julgámos sempre que nos odiavam. As pessoas que nos liam. As pessoas que protestavam. O Deus no qual não acreditamos e que deve ser autor da história desse livro, do qual desconheço inscrições de lombada. Julgámos. Estávamos errados. Mas julgámos. E percebemos, mais tarde, que tudo era para que pudéssemos estar juntos na escuridão. Folha sem corte, dobrada e sobreposta na plenitude sem regras de duas páginas que se encontram uma sobre a outra e são só uma.

     E eu disse-te. Não sei o que está escrito na lombada. Mas sei. Sei que somos as páginas centrais do livro.

     E tu respondeste. Não sei o que está escrito na lombada. Mas sei. Sei que somos as páginas centrais do livro.

     E as páginas centrais do livro eram uma folha só. E a solidão a dois era mais fácil. Principalmente por sermos um.

     Quando finalmente nos apercebemos de que éramos uma folha só, pensámos que podíamos sorrir. Mas alguém chegou. A essa folha dobrada ao meio, que era o centro do livro, no centro do mundo. Foi maldade? Foi destino? Não importa! Deixaram o livro aberto. E, na luz, somos duas páginas separadas ao sol. A vida - novamente injusta – punha-nos, sem razão, sabendo que éramos um, no centro desse livro, agora aberto. E a escuridão era, talvez, o único lugar onde podíamos estar juntos.

     Esperamos a noite. Ou que mãos caridosas fechem o livro outra vez. Mas demora. E dói. O sol cria lágrimas nos olhos. Sei que estás aí. Sinto que estás aí. És parte de mim e não te vejo. O sol cega.

     Não sei o que está escrito na lombada. Nem interessa. Mas sei. Sei que somos as páginas centrais do livro. Alguém o feche de vez, por favor. Não quero saber como acaba. Não quero que acabe. Quero-te.






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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Tudo sobre ti


Fotografia de Tiago Loureiro



      Eles sabem tudo sobre ti, menos quem tu és.


     Eles sabem o número do teu cartão de cidadão e o teu número de identificação fiscal. Sabem exatamente quanto descontas pra a Segurança Social e há quantos dias pagaste o passe dos transportes públicos.

     Eles sabem onde moras. Sabem a última vez que fizeram obras no teu prédio. Sabem quanto pagas de renda, a quem pagas a renda e quanto te sobra no salário depois de a teres pago.

     Eles sabem que foste tomar o pequeno-almoço fora e que, sempre que vais, pedes o mesmo. E sabem que compraste um par de botas novo, provavelmente na época de saldos.

     Eles sabem que tens um carro. Também sabem quantos carros tiveste antes de teres o carro que tens. E quando pagas o Imposto Único de Circulação. E de quanto em quanto tempo pões combustível. Sabem se o teu carro bebe gasóleo ou gasolina. Sabem quantos acidentes de viação já tiveste e se tiveste culpa neles.

     Eles sabem o que tu estudaste. E se trabalhas na área da tua formação. E quantos empregadores tiveste. Sabem quanto recebias em cada um dos teus empregos e até se a tua prestação foi boa ou má. Eles sabem se tens uma fonte de rendimento paralela. Sabem se fazes artesanato ou se fazes umas traduções de vez em quando, para safar uns trocos.

     Eles sabem a marca de papel higiénico que usas. E o supermercado onde o compras. Estimam o número de vezes que cagas com base na frequência da compra desse papel higiénico. É da mesma forma, com base nos detergentes, que sabem se limpas a casa ou não.

     Eles sabem as viagens que tu fazes e os monumentos que visitas. Sabem a música de que gostas, com base nos históricos de Internet e os concertos a que vais. Sabem quantas vezes por ano vais ao cinema.

     Eles sabem com quem tu dormes. Sabem quantos filhos tens. Sabem se queres ter mais ou se já fizeste a laqueação. Sabem se tens um problema que te impede de ter filhos. Sabem se os teus filhos vão à escola A, B ou C e quais os desportos em que já os inscreveste. Sabem se já plantaste a árvore e se já escreveste o livro.

     Eles sabem por onde andas. Sabem se tens as contas em dia. Sabem se alguma vez te esqueceste de pagar a luz ou a água. Sabem se recebeste uma chávena rachada no momento das partilhas da herança do teu tio rico que vivia no Algarve. E qual o valor exato dessa chávena.

     Eles sabem se jogas no Euromilhões. Sabem se apostas no Placard. Sabem se costumas ir ver a bola ao estádio, se pagas a Sport TV ou se compraste chuteiras para ir dar uns toques no campo da aldeia.

     Eles sabem. Não se interessam muito, a menos que possam ganhar alguma coisa com essa informação. Mas eles sabem tudo sobre ti. Tudo, menos quem tu és.

     Eles não sabem que tu pensas com a alma. Nem que te preocupas com o mundo. Nem que ficas com os olhos mais claros quando choras. Eles não sabem que estás apaixonado por uma pessoa que não podes ter, nem que passam muitas vidas pelo teu coração antes que ele aprenda a amar de novo. Eles não sabem que tens um universo de coisas na cabeça, tão vasto que até existem reinos de fantástico num canto da tua mente. Eles não sabem que estás farto que eles saibam tudo de ti.

     Eles sabem tudo sobre ti, menos quem tu és.

     À medida que te tornas um número, existe uma parte de ti que pode troçar deles, por serem ridículos. Por não saberem que, um dia, poderás ser bomba-relógio, a explodir na cara de todos os seus supostos conhecimentos. Sim! Uma parte de ti – que eles não fazem ideia de que exista – ri-se deles.


     Porque acham que sabem tudo sobre ti.

     E não sabem quem tu és.







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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Todos os meus músculos

   
Fotografia de Ricardo Torb


  Todos os meus músculos chamam por ti. Todos. Tensos, cheios de emoções. Todos os meus músculos chamam por ti. E eu tapo o rosto. Fecho os olhos. Finjo. Finjo a realidade. Essa que sabemos – tu e eu – sobre todos os meus músculos. Peças de corpo intransigentes e de vontade própria. Todos os meus músculos chamam por ti.

     Tento justificar com a música que toca a reação incansável dos músculos que enrijecem. Digo. É porque a música mexe comigo. E, algures, até a voz da cantora soluça, num riso calado. Como se… Até o guitarrista ou o baixista falham um acorde. Como se… E é improvável que o façam, porque é uma gravação a passar na rádio. Mas fazem isso. Apenas para se rirem de mim e da minha tentativa de justificar porque é que os olhos estão brilhantes e os músculos enrijeceram. 

     Claro que o corpo é poema. E é muito simples justificar qualquer coisa literariamente. Porque a literatura, como se sabe, é mentira. E, se nela reside desejo ou dor; vontade ou paixão, pode ser apenas para colorir as páginas. O poema é arte carnal, visceral. Vem das entranhas. E explica-se com facilidade que os músculos reajam a mentiras cáusticas. Não é por ti. É isto que o poema diz. Mas depressa se lança em semânticas raras, onde se coloca em causa a mentira da verdade e a verdade da mentira, até que a confusão é tanta, que sobra só mesmo corpo sem poema no próprio corpo do poema.

     Ser poeta é isso. Osso e sangue. E patologias. Muitas. Do foro psicológico, na sua maioria. Todas amalgamadas em pedaços inconcretos de estrofe. Misturadas em frases que ornamentam folhas. E, principalmente, em palavras que nunca chegam a tomar forma em lugar nenhum, senão entre sinais bioelétricos dentro da invisibilidade do que fica atrás dos olhos que cegam por ver dentro.

     E os músculos continuam tensos. Quentes. Tensos. Estirados. Desde o rosto, onde os olhos se fecham para te ver. Ao coração, que acelera para te sentir. À barriga, que se comprime para tentar acalmar as borboletas e todos os outros animais de zoo que insistes em colocar lá dentro sempre que te penso. E os músculos continuam tensos. Quentes. Tensos. Estirados. Desde as maçãs do rosto, que enrubescem. Aos braços que se agarram um ao outro para evitarem lançar-se na busca do impossível. Às costas, de asas interinas, que não rasgam a carne porque, se eu voasse, não resistiria em espreitar pela tua janela, apenas para, num vislumbre, saciar o meu indiscreto desejo de ti.

     Deixo-me ser poesia. Dessa que é visceral e totalmente louca. Detesto! Detesto as minhas rimas imperfeitas! Faltas-me tu para que a métrica bata certo. E eu continuo a mudar mobiliário orgânico da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, embatendo em duas ou três teorias antifascistas, antes de compreender que o problema não está na disposição dos órgãos mas no vazio das paredes.

     Sinto-me só. Custa muito admitir que me sinto só. Principalmente quando a pele nua tem músculos tensos. E eu entendo a sua linguagem e sei. Sei que todos os meus músculos chamam por ti.

     Todos.

     Mas principalmente o meu coração.






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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

As moléculas de tinta




   Eu conseguia sentir a agitação das moléculas. Dos pigmentos. Dentro da caneta, com o bico ainda no ar, sem tocar o papel.

   Tamanha era a excitação delas que a mão me tremia, no contacto com o fino da caneta, de ponta aguçada e azul.

   Pedi-lhes calma e paciência. Mas elas não tinham. E riam. Riam alto da tinta que já tinha sido derramada sobre a folha, como se fosse indigna.

   Com a mão trémula, de caneta entre os dedos, eu dei por mim a recostar-me na cadeira. Menos, meninas, menos. Mas elas não faziam por menos nem demonstravam a mínima intenção de acalmar-se para me deixar pensar e escrever.

   Eu conseguia sentir a agitação das moléculas. Dos pigmentos. Como uma manhã sambada de Carnaval brasileiro. Dançando no interior da recarga da caneta. Saltitando, como crianças depois de comerem açúcar em demasia no quedar da noite.

   Fui eu que as eduquei assim? Perguntei-me. Mas no vazio da divisão, eu era o único ser capaz de responder. A gata ressonava, na manta vermelha, com a língua meio de fora. E o papel era branco como as paredes, pautado de linhas como a parede o era de rachas.

   E elas insistiam. Enchiam-me a solidão do silêncio com um burburinho muito próprio que me fazia doer a cabeça. Menos, meninas, menos. Pouco importam os pedidos calados. As moléculas de tinta são feitas de um pigmento criado com misturas acobreadas de azul-ftalo ou trifenilmetano, materiais teimosos e impossíveis de domesticar.

   Mas a caneta permanecia a uma distância segura do papel. Como os meus amantes. Naquele ponto onde o toque está iminente e não se dá. Onde ainda é possível evitar um ponto final que manche a brancura imaculada da folha que veste a mesa.

   A mão tremia. Na agitação daqueles pigmentos selvagens que celebravam, como se nascesse um novo século de cada vez que os meus dedos envolviam o plástico já gasto da almofadinha da caneta.

   A euforia delas era despropositada. E eu sentia a mão, essa mão que não se dava a ninguém, tremente nesse encontro com o inesperado entusiasmo das moléculas minúsculas e azuis que preenchiam a carga, já a meio, da caneta velha.

   Se os pedidos não me funcionavam, achei que talvez as ameaças o fizessem. Ou vocês param ou… mas como é que se ameaçam pigmentos de tinta, sem que sintamos que, no silêncio da casa, ao lado da gata, estamos a enlouquecer?

   A mão que tremia deixou de ser minha, à medida que as moléculas de tinta exerciam um qualquer poder demolidor sobre a minha ausência de vontade e ditavam uma anarquia louca sobre as minhas intenções. Eram um exército invasor de folhas, a escrever um romance que eu não queria ter escrito, com palavras que eu nunca teria dito, nem que pudesse dizer…

   As moléculas de tinta geraram palavras. Pariram-nas. De uma forma tão visceral que rasgavam até os meus pensamentos, dando-lhes uma forma que nenhuma ficção toma, já que é impossível fingir a vida.

   E, quando a mão me parou, a viagem que tinha feito era cáustica e a carga da caneta estava vazia. A mão parara de tremer. E as moléculas de tinta tinham morrido, secas no papel.

  O suicídio inusitado do pigmento deu-me uma pequena vontade de chorar. À medida que, arrastando os olhos para o epílogo, lia a sua nota final: um dia fomos moléculas de tinta, agora somos uma história de amor… e tu podes, finalmente, ser quem quiseres.






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