De passagem, ouvi-os. O menino não teria mais do que cinco anos e justificava-se, enaltecendo os seus feitos. E o pai, entre o revirar de olhos e o caminhar em passos cadenciados e certos, assertivamente lhe atirou: mas estavas distraído, a olhar para o lado.
Encolhi-me interiormente. Não creio que tenha mudado uma nuance da minha expressão. Mas, para mim, foi como se me encolhesse. Porque as palavras me catapultaram para uma famosa frase que sempre ficou a fazer-me comichão, numa outra ocasião triste em que a repreensão de uma mãe para outro menino, de tenra idade, tinha sido: não te portes como uma criança.
A repreensão gratuita parece coisa branda. Dura um segundo e não deixa marca na pele. Mas molda uma vida. De repente, temos adultos que não sabem brincar, porque não os deixaram ser crianças. Vão agarrados a conceitos de sucesso que se medem em euros. Agarrados à escravidão dos dias porque é do-mal-o-menos. Olham fixamente o mesmo ponto, com medo de olhar para o lado. Metem palas para que a visão periférica não abranja a realidade do mundo. Estão focados em evitar distrações, sem perceber que a própria vida segue distraída na roda perfeitamente oleada que enriquece os senhores disto tudo.
Hoje, o menino respondeu ao pai, com uma frase que não ouvi. Começou essa resposta com mas, pai e, logo, a distância me impediu de ouvir o resto.
Mas as marcas que ficam na pele responderam-me, porque também eu ouvi alguns sem mas, nem meio mas.
Distraí-me do que estava a pensar para ouvir estas conversas. E distraí-me de onde estava a ir para me perder nos pensamentos que agora vos trago. Neste olhar em redor, digo o evidente. O mundo estaria melhor se os adultos se distraíssem mais, se olhassem para o lado e se entreajudassem, se parassem de portar como gente tão madura que apodreceu. Há, nos adultos, o espelho da injustiça de que foram alvos... e o perpetuar de um ciclo de violência. Assim se faz o lubrificante do sistema, para que novos adultos sem sonhos trabalhem sem questionar...
Se uma repreensão pode fazer-se à gente grande é essa: não saber aprender com as crianças a arte da liberdade.
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