Tentarei ser breve.
Costumo ouvir isto de pessoas que se alongam. Não sei se é obrigatório ou não. A gramática está sempre a mudar e a introduzir regras parvas. Pelo sim, pelo não, mais vale fazer como se vê fazer. Então, tentarei ser breve.
Ontem, quando começou a falar-se de retirar a obra de Saramago das leituras obrigatórias no ensino português, levantou-se toda uma maré de indignação nas redes sociais... e eu fui bombardeada com perguntas sobre como me estava a sentir, como se, em vez de mera leitora (e discípula) de Saramago, eu fosse detentora de uma parcela dos direitos autorais ou uma artista patrocinada pela herança do homem. (Aos interessados, não sou!)
As perguntas sobre como tudo isto me fazia sentir foram mais rápidas do que os meus sentimentos. Porque, para que se sinta, é preciso entender. Sentimentos avulsos, impulsivos, trazem geralmente uma dose de superficialidade. Para vermos algo concretamente, penso, é preciso que olhemos essa mesma coisa de vários ângulos. Embora, geralmente, se cheira a censura, parece censura e diz que se chama censura... seja evidentemente uma tentativa abnegada do Estado para melhorar o sistema, a pensar no bem de todos os portugueses e portuguesas que compõem esta valente raça.
Há indignação, primeiro. Claro que há. Quando o Nobel da Literatura português passa a ser uma sugestão de leitura, temos de nos indignar. Mas proponho que olhemos para isto de outra forma. Só por um bocadinho, pode ser?
Deixa de ser uma leitura obrigatória.
As pessoas não são preparadas para ler e muito menos para retirarem prazer efetivo das suas leituras.
A rapidez do digital torna o produto-livro mero ornamento de estante, porque amar um livro demora. Implica a calma de nos sentarmos com ele, não para falarmos, mas para ouvirmos. Se não o fazemos em conversas de café, vamos realmente permitir que um autor nos entre na cabeça e fale... só fale? Muitos não o fazem. Séries, filmes, reality shows, festas, concertos... tudo isto é mais rápido, menos invasivo. Acaba e acabou. Os livros são horríveis também por isso: não acabam quando acabam... porque no convívio diário com eles, mudam algo em nós, que fica e invade o pensamento de quando em vez.
Isto começa de pequenino. Com a criança criada por pais que também não têm o gosto da leitura ou, se o têm, não têm tempo nem cabeça para ler. Rotinas de corrida, de trânsito, de problemas financeiros, de stress e de exaustão. Os pais nem têm gosto pela maternidade e paternidade, quanto mais pelos livros. Não há tempo. Atira-se ao puto qualquer coisa que o distraia, dão-se prendas para substituir a atenção. E, conclusões de génio: não substitui!
As pessoas não deviam ser obrigadas a ler. Deviam construir, ao longo da vida, o desejo de fazê-lo. Na falta disto, porque – sejamos honestos – também não interessa que as pessoas queiram ler obras como as de Saramago, o processo de estupidificação está iniciado e de boa saúde. Pouco importa, na verdade, que peguem nos livros de Saramago – e isto justifica que eles se mantenham numa categoria de livros sugeridos – porque quem pegar no retangulozinho todo cheio de palavras já vem bem preparado para: um: desistir; dois: não entender; três: não questionar. E, para o garantirem, deixando que entre uma dose gigantesca de opinião pessoal, escolhem obras que promovem isso mesmo. Não se enganem. É claro que o Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis são excelentes livros. São obras magníficas! Para leitores frequentes, que leem, que têm cultura geral, que se interessam, que têm um vocabulário mais extenso e uma capacidade interpretativa provinda de muitas leituras anteriores. Se os miúdos lessem, estas seriam obras perfeitas para o Ensino Secundário... mas, como não leem, são a sepultura onde a réstia de vontade de ler (se ainda havia alguma) vai para morrer. Eu não mando nada, não sou linguista, nem educadora, nem parte dessa elite das decisões... mas diria, com base nos (muitos) livros de Saramago que li, que talvez se tivesse mais sucesso com As Intermitências da Morte ou o Ensaio Sobre a Cegueira. Ou deverei dizer, para os efeitos pretendidos pelo Estado, menos sucesso?
E, depois, entramos na velhinha questão. O grupo que defende que isto já deveria ter sido feito, usando uma frase simples, mas que nos diz que aquela pessoa, tão proativa na defesa do pobre Governo, também não lê. Acho bem, ele nem usava vírgulas. Senhores. Vocês não só não leem, como nunca abriram um livro de Saramago. Rest my case!
Isto é sobre política. Nisto concordo com muitas das opiniões que li. Mas não é de agora. Isto faz parte de um ciclo. Isto faz parte de uma desumanização das pessoas para que não cultivem em si amor pelo saber. Primeiro faz-se com que não tenham tempo para ler, o que leva a que não gostem de ler. Depois, introduzem-se alternativa poucochinhas. Depois, obriga-se as pessoas a lerem coisas de que não gostam de ler... só porque o Ministério da Educação diz que tem de ser. Pessoas que não gostam de ler, ganham aversão à leitura. Depois, caridosamente, afasta-se o instrumento da tortura, o livro, e garante-se que seja só sugerido.
Imagino que, se Saramago fosse vivo e aqui estivesse, teria palavras para dizer em privado... e só muito dificilmente viria criticar a decisão em público. Talvez escrevesse (outra vez) sobre esse vazio das pessoas. Não me parece que se espantasse. Rir-se-ia? Gosto de pensar que sim.
Saramago escrevia. Não me parece que conseguisse conter todo o entendimento que tinha do mundo dentro do corpo magro. Fez-nos este favor: deixou que a obra viesse ao mundo. Mas só veio ao mundo para se dar àqueles que querem esse mundo. Que querem entender também. Para aqueles que querem ouvir o filósofo que residia nos seus ossos. Para aqueles que querem ouvir, mais do que falar... para aprenderem a não ser cegos.
Tenho uma imensa dívida de gratidão a Saramago. É por isso que lhe chamo Mestre. Muitas vezes sinto que ele escreveu para que eu o lesse. Muitas vezes me salva da vida e do mundo que, tal como ele dizia, é péssimo.
Adorava que toda a gente aceitasse a sugestão de ler Saramago. Adorava que não precisássemos de obrigar as pessoas a ler.
Vivo de utopia sim. Como os autores dos livros que eu gosto de ler. E é para isso que leio. Para saber que não sonho sozinha nesta Jangada de Pedra que, por vezes, em vez de me afastar da Europa, me afasta de todos os outros.
Não fui breve. É a vida! Diz-me a experiência que este texto é longo demais para o digital e que a maior parte das pessoas não vai lê-lo. Também aqui acho que vou aprendendo com Saramago. Que se lixe. Eu quis escrevê-lo. Em todo o caso, não é de leitura obrigatória. Estão cheios de sorte!
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