– A senhora não quer, por gentileza, doar um euro com as suas compras para ajudar...
as vítimas das tempestades, os animais, os refugiados, as vítimas dos incêndios, os sem-abrigo, as famílias carenciadas, as crianças em risco, os doentes de cancro, os médicos sem fronteiras, os bombeiros, os centros de investigação de doenças raras, os idosos isolados, as vítimas de violência doméstica, os estudantes desfavorecidos, as florestas, a fundação A, a instituição B, o centro de apoio C, a agricultura local, ...
A voz que o diz é compassiva, embora venha rouca e cansada da repetição. Hoje em dia, ninguém paga compras sem responder a um inquérito.
– Não, não preciso de saco, obrigada. Não, não tenho o cartão da casa. Vales também não tenho. Não, não quero comprar a revista. Não, também não pretendo o chocolate da promoção. E, depois (ainda que antes do “não, não preciso de número de contribuinte), chega esta nova tendência: a de pedir a mísera doação de um euro – apenas um euro – para uma boa causa.
Na fila, esta segunda-feira, assisti a isto. Aguardando a minha vez, eu já tinha observado duas pessoas a passar pelo mesmo. Uma senhora idosa que, depois de olhar para a carteira, murmurejou um tímido para a próxima e um homem de meia idade, que olhou para a fila, constatando que estava a ser observado, e acedeu contrariado, com um encolher de ombros. Chegou a minha vez e passei pelo mesmo, negando o dito euro sem me justificar... mas fiquei a pensar sobre isto.
Quem me conhece sabe que sou – creio que serei para sempre – uma pessoa de causas. Defendo-as até ao tutano. Vou, faço, dou (geralmente sem dizer que vou, faço, dou... mas, neste caso, é inevitável) e insisto para que os outros vão, façam, deem. Então, porquê a recusa? Esta não foi tanto a pergunta que me fiz... mas é a que vos faço. E faço-a só para saber se sou a única que, neste rol de pedidos, ouve sempre a mesma coisa:
– A senhora desculpe, mas estou a ser forçada a fazer um conjunto de perguntas... e não quero ser despedida: não quer, por gentileza, doar um euro com as suas compras ao supermercado, para a empresa depois doar este valor para
» as vítimas das tempestades, os animais, os refugiados, as vítimas dos incêndios, os sem-abrigo, as famílias carenciadas, as crianças em risco, os doentes de cancro, os médicos sem fronteiras, os bombeiros, os centros de investigação de doenças raras, os idosos isolados, as vítimas de violência doméstica, os estudantes desfavorecidos, as florestas, a fundação A, a instituição B, o centro de apoio C, a agricultura local, ...
» Estará a contribuir para ajudar a que os meus patrões, com a sua cadeia multimilionária, tenham um maior valor de filantropia para deduzir no IRC.
Então, quando é para dar, eu prefiro dar diretamente. Às vítimas, crianças, doentes, bombeiros, entidades ou o que for. Diretamente. E até pode ser mais do que um euro. E até pode nem ser dinheiro... principalmente quando fazemos parte da lista dos que poderiam ser ajudados... A compaixão e a dádiva são maravilhas raras e que devem fomentar-se... mas tenho pouca vontade de ser generosa e compassiva com os ditadores grupos económicos que detêm as grandes superfícies comerciais.
Na verdade, por vezes, quase gostava de inverter papéis e de fazer eu um inquérito:
– A Senhora Grande Empresa Exploradora não quer, por gentileza, ter dois dedos de testa e ganhar vergonha na cara para ajudar...
» a idosa que conta os trocos da reforma, os desempregados, os cidadãos que recebem o salário mínimo e o deixam integralmente na renda, o sem-abrigo que juntou moedas para a sandes, as pessoas que estão com pressa, os consumidores que são vítimas de alguma coisa, os trabalhadores impacientes ao final da jornada, os operários exaustos, as mães fatigadas e todos os outros que, pura e simplesmente, não gostam, não querem (nem precisam) de ser coagidos a ser bons...
Diriam os meus avós: não é por vestir pele de cordeiro que o lobo
deixa de ser lobo.
Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)"
enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com


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