quarta-feira, 29 de abril de 2026

A velocidade do som

 

Imagem do Pixabay

Antes que venham os doutos das ciências contestar a teoria deste texto e dizer-me que venho, pelas estradas do saber, montada numa jumenta insipiência, quero começar por dizer que o valor texto não residirá, de todo, na sua precisão e rigor científico. A Física é outro domínio, no qual não me meto, que, como mundanamente se diz e bem: cada macaco no seu galho. Ao terminá-lo, tão bem me corra a execução como a ideia, gostaria apenas que nele se reconhecesse algum valor antropológico, sociológico e humano. Talvez, exacerbando as minhas capacidades de autora, gostasse ainda que houvesse nos meandros de toda a propositada ironia e indispensável sarcasmo, a semente para a empatia... mas, bem... século XXI... talvez não devesse pedir tanto!

 

Acontece que acredito em Portugal – será apenas Portugal? – como um espaço resistente à evolução da ciência e que, na verdade, contradiz até muitas das teorias amplamente disseminadas e globalmente aceites por estudiosos internacionais.

 

Passando ao exemplo prático que aqui me traz. Sem preciosismos e recorrendo ao saber do doutor Google, que para isto não tenho a capacidade ou conhecimento necessários, estima-se que a velocidade da luz seja aproximadamente 874 mil vezes maior do que a velocidade do som. E, indo à dita ironia, eu acho que o som é muito mais rápido do que a luz.

 

Os meus ouvidos, benzidos com aquela maldição de escutarem até as notas da canção que se vai tocar amanhã, seja por orquestra, carro ou queda inadvertida de uma pena no chão, são frequentemente confrontados com um fenómeno chamado: gente que não entende o que é um volume aceitável para ouvir música. E quem diz música diz vídeo. E quem diz vídeo diz conversa. Ainda ontem, no centro comercial, aguentei estoicamente durante meia hora antes de pedir ao responsável, encarecidamente, que pedisse para baixarem o volume.

 

E é aqui, senhores, que empiricamente se comprova que a velocidade do som é a maior do que a da luz. Ali estava eu. A ouvir música aos berros e quase sem me conseguir ouvir pensar. A música a misturar-se com os gritinhos das crianças, o vibrar da eletricidade, os passos das pessoas, as máquinas de café, o bater de chávenas, o tilintar das chaves do segurança, o arrastar de cadeiras, o raspar de vassouras em cantos, o subir mecânico das vedações das lojas... quando... um segundo... um minuto... dois... se fez luz. E ela só se fez porque, ao fim de uma explicação básica que qualquer pessoa poderia dar, me vi forçada a dizer a um estranho que tenho uma neurodivergência e hipersensibilidade sonora... e que inclusão não é apenas – embora também o seja! – pôr rampas para pessoas com mobilidade reduzida. Só então, depois do que gosto de chamar Autismo for dummies, o dito responsável percebeu que, se a música estava em volume de rave para uma pessoa normal, talvez estivesse estratosfericamente alta para alguém como eu.

 

Este espaço de tempo que foi entre o som que saiu de mim para reclamar do som que entrava em mim e aparecer luz naquela mente foi preenchido de uma espécie de interrogação nevoenta, palpável, que se instalou entre nós, feita de silêncio e exasperação. Não sei ao certo que tipo de fenómeno científico é este. Que vórtice se cria e como funciona o processo que o mantém estável por segundos, antes de desaparecer como surgira, desintegrando-se, certamente, em energia... já que nada se perde, tudo se transforma, como diria o nosso amigo Antoine. Caso de estudo, muito bem-vindo nesta fase do texto, que sabemos bem que qualquer pesquisa deve deixar dicas para a continuidade da análise, com propostas e questões que influenciem positivamente a evolução da ciência...

 

Seja como for, baixaram o volume da música. Deixou de parecer a maior rave do ano e passou a parecer um pub numa sexta à noite. A minha pergunta é só uma: quando é que se vai realmente fazer luz sobre o que significa a verdadeira inclusão, sem a restringir a pequenos grupos (e, mesmo esses, quando calha)?

 

Como me dizem muitas vezes o mundo não tem de se ajustar a mim. Qualquer dia paro de tentar permanentemente ajustar-me ao mundo. Nessa altura, veremos como funciona...


 Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)" - agora na 2ªEdição

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com

terça-feira, 21 de abril de 2026

Farmácia

 

Imagem do Pixabay

– Senha A57 ao balcão 3.

 

No balcão 3 aguardava uma menina de bata branca, com a caneta enfiada no bolso do peito e unhas pintadas de rosa. Não era a minha vez, mas, aguardando há mais de dez minutos, acabara por me render ao banco baixo e desconfortável mais próximo daquele guichê. A menina aguardou um pouco, sem chamar outra senha e, aproximando-se em passos vagarosos, um casal de idosos aproximou-se. Ambos soltaram o adequado boa tarde, ao qual a farmacêutica respondeu com tranquilidade, não denotando impaciência ou aspereza. Sorri. É bom encontrar humanidade nos balcões da vida, gente sem pressa que toma o tempo devido para agraciar os outros com a doçura de um gesto, de um sorriso. Pensava justamente nisto quando o senhor estendeu a receita, para aviar os medicamentos. Dois papéis sobrepostos, que a farmacêutica leu, batendo unhas no teclado que tinha à sua frente.

– Leva já tudo? – perguntou. Os idosos entreolharam-se brevemente.

– Só para este mês... – disse o senhor e notei que ela lhe apertava mais o braço.

– Pergunta, Zé... – ele anuiu.

– A menina sabe dizer-nos em quanto fica?

Ela respondeu. Não vou reproduzir aqui o valor que disse, que este blog não serve para obscenidades dessas. Direi apenas que o meu estômago se revolveu ao ver o rosto lívido de ambos perder, ali, ao balcão, alguns anos de vida.

– Desculpe? – perguntou o senhor. E ela respondeu o mesmo número, como se estas novas gerações farmacêuticas fossem instruídas a usar palavrões tristes, na forma de números megalómanos.

– Mas não são comparticipados? – a mulher deixou que a voz fina soasse, num tom que em pouco superava o murmúrio.

– Já com a comparticipação... – retorquiu a funcionária. Notei que, atrás da postura profissional que se forçava a manter, tinha na garganta o mesmo nó que eu. Os olhos eram densos e tristes.

Os idosos fizeram um compasso de espera. Ele tirou a carteira e espreitou o interior. Olhou a esposa, que lhe sorriu, despindo a preocupação do rosto de uma forma tão eficaz que eu acreditei que tivesse formação em teatro. Aclarou a voz, diva da farmácia, e disse-lhe jovialmente:

– Vá, leva os teus... deixa os meus. – e, quando ele tentou combatê-la com a pergunta então e tu?, continuou – No próximo mês levo eu os meus...

 

– Senha A59 ao balcão 1.

Levantei-me com o peso da empatia a prender-me ao solo. Cada perna pesava tanto como aquele casal e as suas escolhas. Arrastei-me ao balcão. Os mesmos cumprimentos. O pedido pelo medicamento de prevenção que me acabara e que gosto de ter em casa para garantir que não falte em caso de necessidade.

A farmacêutica entregou-mo.

– É só? – perguntou. E, olhando para mim, acrescentou – Está bem?

– Não, nem por isso... – uma resposta honesta que me foge, sem a pensar.

– Precisa de mais algum medicamento?

Olho para ela, negando com um abanar de cabeça. Isto não se resolve com medicamentos, resolve-se com balas. Penso. Apago este último pensamento porque não quero tê-lo... mudo-o. Isto não se resolve com medicamentos, resolve-se com cravos.

 

Mas, enquanto resolve e não resolve, a saúde daquele homem vale mais do que a daquela mulher este mês. E a dela valerá mais do que a dele no mês que vem. E o que fazia mesmo bem à saúde de todos era um governo que tomasse umas injeções de empatia.

 

Em suma, fui à farmácia. Entrei saudável. Saí doente. Tenho o peito apertado e os olhos a verter.


Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)"

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com



terça-feira, 14 de abril de 2026

Quanto vale...

 


– Quanto vale a sua casa?

A caixa do correio acordou curiosa, esta tarde. Quando a abri, num bocejo largo, cuspiu esta pergunta como quem cospe um folheto para as minhas mãos.

– Desculpa? – redargui. E, novamente, sem dúvidas, a mesma pergunta cuspida.

– Quanto vale a sua casa?

Achei esta pergunta muito parva.

– Ora... – Ora. Ora? Uma frase não deve acabar em “ora”, principalmente se assim começou. Parece-me que “ora” é uma resposta tão parva como a pergunta, o que, em termos de equilíbrio, deveria bastar para qualquer diálogo mundano.

Mas o que posso dizer mais? Digo só “ora” e rezo as outras verdades para dentro.

 

A minha casa é o que me separa da rua. É o meu ninho, mesmo sem ave. A minha toca, ainda que não tão ousada como a do Carlos da Maia e da Maria Eduarda. É o lugar onde a gata me procura com carência e resolve esta pobreza de afetos com mil mimos. Na minha cozinha, nascem sabores de todos os tipos: alguns com a mestria de um chef e outros às três pancadas, capazes de fazer corar por vergonha alheia até os influencers das receitas práticas. Há algumas rachas nas paredes. Penso que é da pressão interna, porque deve ser difícil conter todos os sonhos que aqui crio, pegando no computador e dedilhando textos como quem compõe ao piano. A sala guarda os meus livros e, por isso, tem lá dentro o Alentejo, o Ribatejo, Lisboa, Porto, Coimbra, Viseu... Veneza e Paris e Londres e destinos fora do planeta... tantos, que enumerá-los seria impossível. Não sou grande fã de viagens... ou por outra, sou e não sou... mudar de rotina deixa-me exausta... mas aprecio que o meu sofá seja mais pródigo do que o avião a levar-me longe sem me tirar do lugar, permitindo-me jornadas que não faço por falta de capacidade económica e mental. No meu quarto, rendo-me ao cansaço inevitável da vida... que nem só as viagens cansam. Aqui me rendo, de lençol branco por bandeira, sentindo a maciez do tecido nas feridas inauditas da existência. Então, a minha casa vale muito. Tanto que o mercado, mesmo o mercado caótico que temos, não poderia apreçá-la de forma justa e inteira.

 

– Quanto vale a sua casa?

– Ora...

Esta é uma iterativa conversa, filha do folheto e da...

Reciclo o papel da imobiliária e fecho a bocarra da caixa do correio. Não sei nem quero saber quanto vale a minha casa.

 

Sei que a minha paz não tem preço...



Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)"

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com


 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Feira da petição



Ó senhores, venham cá ver que é de graça para ver e paga-se pouco para levar! São opiniões de qualidade... Três por cinco euros, que é p’ra despachar!

 

Ora, sejam bem-vindos à feira da petição! Têm petições de, petições sobre, petições por, petições contra... É só escolher! Ao gosto do freguês, evidentemente, para todas as preferências e medidas!

 

Querem uma lei nova? Petição! Querem revogar uma lei? Petição! Querem travar uma petição? Outra petição! É na petição que está o ganho, acreditem! De, sobre, por, contra... não importa, minha gente! Petição!

 

Eu, por exemplo, estou no limiar de escolher a desta banca. É uma bonita petição anti-estúpido, para a despenalização das terapias de conversão de mentecaptos e idiotas, para que passem a ser pessoas decentes, válidas e socialmente enquadradas. Diz a vendedora que esta petição visa acabar com as mentes obtusas que dedicam o meio neurónio disponível a tentar limitar a vida e a liberdade dos outros. A descriminalização destas práticas de conversão poderia trazer benefícios evidentes à sociedade. Incluem-se neste âmbito a melhoria da qualidade do ar, a redução no número de impropérios vociferados durante o período noticioso, a redução da criminalidade na via pública e do índice de pensamentos transgressores, entre os quais se inclui o ímpeto semi-terrorista de destruir património cultural edificado durante reuniões parlamentares.

 

A dúvida de comprar ou não esta petição é só uma. Dizem que, para que funcione, devo entregá-la na Assembleia da República... Mas, pensem comigo: não entregariam uma petição contra a prostituição num bordel, nem uma petição contra a leitura numa biblioteca, nem uma petição contra aglomerações lúdicas num festival de verão... Então, entregar uma petição anti-estúpido na Assembleia faz sentido?

 

Enfim, para ser honesta, esta feira já foi melhor. Antes, para além de petições, tinham direitos fresquinhos. Mas tenho perguntado... e dizem que foram sendo roubados até desaparecerem... Sobra-lhes uma ilusão ou duas para oferta. Pelo que vejo, são ideais para os fregueses que gostam de olhar para o lado e assobiar, como se não fosse nada com eles.

 

 

 

P.S.: Trouxe esta petição da feira. Pareceu-me uma petição necessária e razoável. Se, como eu, forem contra a legalização de terapias de conversão de identidade de género e orientação sexual, podem ASSINAR AQUI

 

Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)"

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com