terça-feira, 8 de setembro de 2026

Lições mais simples

 

Imagem retirada do Pixabay

Para o Ramiro


Ele estava ao fogão. Era o mesmo rapaz que, um dia, ainda no começo da juventude, tinha ensinado à menina que eu fui como um bocado de pão, ketchup e tudo o que há no frigorífico – fiambre, mortadela, queijo, azeitonas, sobras de frango, pasta de fígado... – dá para fazer uma piza e esquecer que o resto da nossa família saiu para um funeral. Era o mesmo rapaz, mas, agora, mexendo o tacho, ele tinha altura de homem, voz de homem, e cozinhava para a namorada que viria a tornar-se mãe da sua primeira filha.

 

Quando entrei, não reparei logo nisto. (Talvez não tenha reparado de todo. Há detalhes nos momentos de que só nos apercebemos quando, passado muito tempo, os olhamos à distância.) Ele mexia o tacho com a sabedoria do nome que herdara do avô e uma alma pura que queria acordar a benevolência e a paz em todos os locais do mundo.

 

Não pensemos que mexia uma iguaria tradicional ou que executava uma receita aclamada pelo Guia Michelin. No fundo do tacho, a textura rica da fórmula esbranquiçada da farinha Maizena. Naquele tempo, não se conhecia a marca branca e o açúcar ainda não tinha sido listado como Inimigo Número Um. Então, o aroma que enchia a cozinha era adocicado e quente, sabia bem no fim de tarde já escura daquele inverno frio e decadente.

 

Com as mãos firmes, ele elevou o tacho e verteu uma porção num prato fundo de sopa para a namorada. Depois olhou para mim. Sorriu-me. Os olhos verdes dele, ainda jovens, já tinham algumas ruguinhas de expressão, que só apareciam por isto. Porque ele sorria aos outros. Queres um bocadinho? Eu queria, mas recusei. É pouco até para vocês. O sorriso adensou-lhe mais no rosto. Pousou o tacho, abriu o armário e tirou mais um prato. Dividiu o que faltava entre mim e ele, soltando um simultâneo: Por muito pouco que seja, dá sempre para dividir.

 

Esta é uma história do quotidiano, mas também é a história do mundo. A história de gente simples que nasce e vive e ensina as lições, sem que os compêndios escolares recordem o seu nome ou a memória coletiva os imortalize.

 Cabe-me, portanto, imortalizar esta história. A história de um rapaz que se foi fazendo homem, trazendo bondade nos gestos e sabedoria na voz. É só um texto. É muito pouco. Mas, por muito pouco que seja, dá sempre para dividir. E, além disso, é doce demais para guardar só para mim...


Marina Ferraz



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