Os óculos são opacos. Não se vê com eles, exceto se olharmos para o Sol. O Sol é o que queremos ver... não é? É o que nos dizem que vejamos, pelo menos! Pomo-nos em filinha indiana e fazemos isso. Olhamos o Sol, com a segurança de óculos que nos ceguem para tudo o resto. Mas, afinal... é para que o Sol não nos cegue... não é? Segurança, dizem! Queremos estar seguros!
Os óculos opacos que usamos por recomendação sistemática (e sistémica) servem para que ocorram vários eclipses. Enquanto assistimos à atualidade mastigada, peneirada num gatekeeping invisível, comendo cegamente informação com fontes selecionadas e oportunamente sintetizadas, os eclipses vão acontecendo. Há o eclipse do descanso, o eclipse dos produtos a preço acessível, o eclipse das condições habitacionais, o eclipse da capacidade de deslocação. Enfim, o eclipse da qualidade de vida e dos direitos fundamentais. Evidentemente, nada disto é o Sol. O Sol são as promessas, que brilham e rebrilham debaixo de discursos demagógicos e melindrosos, que falam ao coração das gentes com o brilho de um futuro ofuscantemente melhor.
Olhar diretamente para estes discursos queima. Se não a retina, o sistema neuronal. Então, é melhor usar óculos. Opacos. Para que não se note tudo o que vai eclipsando por caminho. Não é por acaso que essas lentes são gratuitamente oferecidas por governos de todo o mundo...
Entretanto, isto não é sobre o eclipse de quarta-feira... Para isso, sim! É melhor protegerem os olhos!
Mas, quando acabar o fenómeno, lembrem-se de tirar os óculos. Antes que acabem de construir este megalómano parque de diversões capitalista nos nossos ombros. Antes que se eclipse, além de tudo o resto, a vontade de estar vivo.
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Marina querida. Confesso que a tremenda e orquestrada euforia-paranóia à volta do tal eclipse me causou engulhos até dizer chega. Fez-me lembrar a queda da ponte onde durante 3 dias a totalidade dos media insistiu em estar sempre em directo a transmitir o nada do nada. Desta como das outras vezes, eles arranjaram um pretexto manhoso para preetender justificar a total alienação, o mais total estranhamento face a um fenómeno que apenas se esgota em si mesmo. Claro que sequer me preocupei em andar ó-tio-ó-tio à procura de uns miseros óculos opacos. Já não tenho paciência para estas doses abstrusas de tanta loucura insana, tanto mergulho de cabeça no absurdo.
ResponderEliminarFica bem. Beijo grande.... Zé